{"id":3217,"date":"2023-12-21T09:10:40","date_gmt":"2023-12-21T12:10:40","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-caos-urbano-das-cidades-brasileiras-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:40","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:40","slug":"o-caos-urbano-das-cidades-brasileiras-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-caos-urbano-das-cidades-brasileiras-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"O CAOS URBANO DAS CIDADES BRASILEIRAS &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>N\u00f3s, os que moramos nas grandes cidades brasileiras estamos nos neurotizando pelo tempo perdido a cada dia com engarrafamentos, defici\u00eancia e morosidade dos transportes coletivos, invas\u00e3o crescente dos \u201cflanelinhas\u201d, camel\u00f4s e distribuidores de panfletos nos cruzamentos. H\u00e1 a mera e lucrativa implanta\u00e7\u00e3o de equipamentos eletr\u00f4nicos para multar, e quase nenhuma solu\u00e7\u00e3o para a mobilidade urbana. Vou procurar, neste aligeirado escrito, lan\u00e7ar algumas quest\u00f5es, todas em aberto. Tudo faz crer que prevalece o que foi chamado ainda nos anos setenta pelo Prof. L\u00facio Kowarick como a \u201cl\u00f3gica da desordem\u201d. Seria uma varia\u00e7\u00e3o da Lei da Entropia que derruba o pressuposto de que a evolu\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e da tecnologia geram um mundo mais ordenado. Quem ganha com isso? As cidades brasileiras precisam, urgentemente, de arquitetos com nova vis\u00e3o urban\u00edstica e de pol\u00edticos que saibam ver o caos do presente e pensar, com coer\u00eancia e sonho, o futuro. Advogo que o urbanismo, especialidade da arquitetura, deve ser visto e complementado de forma mais abrangente por soci\u00f3logos, dem\u00f3grafos, ge\u00f3grafos, economistas, ecologistas, advogados, administradores, engenheiros etc. O urbanismo n\u00e3o \u00e9 um mero conjunto de tra\u00e7ados, a\u00e7\u00f5es ou de palavras t\u00e9cnicas bonitas, ditas \u00e0 exaust\u00e3o, mas, quase sempre, com discut\u00edvel conte\u00fado. Ele \u00e9 algo profundamente complexo que precisa de criatividade, conte\u00fado, organicidade e objetividade. D\u00e1 pena ver o que as cidades brasileiras sofrem com a perda de suas identidades. Em 2008, o famoso arquiteto americano, de origem chinesa, Chien Chung Pei, ao participar no Brasil do semin\u00e1rio Arquictetour disse que as cidades brasileiras n\u00e3o s\u00f3 precisam criar ou melhorar suas infraestruturas para atrair o turismo, mas devem descobrir um \u00edcone, seja cultural, social ou arquitet\u00f4nico que as represente. As cidades carecem de identidades, n\u00e3o podem ser meras c\u00f3pias de outras. Por outro lado, o arquiteto Sylvio Barros Sawaya, da USP, acredita que o mero tombamento \u201cde um edif\u00edcio por seu valor hist\u00f3rico e deix\u00e1-lo impr\u00f3prio ao uso \u00e9 resultado de crendice temerosa e idolatria deslocada\u201d. O inquestion\u00e1vel caos das cidades causado pela democratiza\u00e7\u00e3o da aquisi\u00e7\u00e3o financiada de carros e motos \u00e9 fruto, inconteste, da inexist\u00eancia de um planejamento urbano que priorizasse o transporte coletivo de massa. Em pesquisa, tomando como base o ano de 2005, do EnvironMentality \u2013Imae, publicado no caderno Mobilidade Urbana, do jornal Valor, de 16.05.2010, verifica-se que o percentual de pessoas transportadas, no Brasil, por ve\u00edculos em trilhos (trens\/metr\u00f4s) corresponde apenas a 3% dos passageiros. 26% andam de \u00f4nibus, 27% usam carros, 2% viajam em motos e, pasmem, 42% anda a p\u00e9. \u00c9 claro que de 2005 para c\u00e1 aumentou o n\u00famero de bicicletas, carros e motos em circula\u00e7\u00e3o. A interliga\u00e7\u00e3o por modais (trens e \u00f4nibus) ainda \u00e9 muito prec\u00e1ria. Quase n\u00e3o existem garagens ou estacionamentos p\u00fablicos e, em algumas cidades, os edif\u00edcios-garagem s\u00e3o at\u00e9 coibidos. \u00c9 comum, por exemplo, que \u00f4nibus e camionetas \u2013 piratas ou n\u00e3o \u2013 de cidades metropolitanas invadam, sem pudor e sem san\u00e7\u00f5es, o j\u00e1 conturbado e diminuto espa\u00e7o das vias urbanas das capitais. Como no Brasil de hoje s\u00f3 se pensa, al\u00e9m da pol\u00edtica, em dois eventos grandiosos, a Copa de Futebol de 2014 e as Olimp\u00edadas de 2016, \u00e9 urgente criar para as popula\u00e7\u00f5es e turistas solu\u00e7\u00f5es vi\u00e1rias mais simples e menos onerosas, como a da cidade de Curitiba onde o urbanista Jaime Lerner inventou um r\u00e1pido sistema de transportes p\u00fablicos, com calhas pr\u00f3prias, desde os anos setenta. \u00c9 bom lembrar o que dizia o escritor italiano \u00cdtalo Calvino, \u201cas cidades, como os sonhos, s\u00e3o feitos de desejos e medos\u201d.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21\/05\/2010<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00f3s, os que moramos nas grandes cidades brasileiras estamos nos neurotizando pelo tempo perdido a cada dia com engarrafamentos, defici\u00eancia e morosidade dos transportes coletivos, invas\u00e3o crescente dos \u201cflanelinhas\u201d, camel\u00f4s e distribuidores de panfletos nos cruzamentos. H\u00e1 a mera e lucrativa implanta\u00e7\u00e3o de equipamentos eletr\u00f4nicos para multar, e quase nenhuma solu\u00e7\u00e3o para a mobilidade urbana. Vou procurar, neste aligeirado escrito, lan\u00e7ar algumas quest\u00f5es, todas em aberto. Tudo faz crer que prevalece o que foi chamado ainda nos anos setenta pelo Prof. L\u00facio Kowarick como a \u201cl\u00f3gica da desordem\u201d. Seria uma varia\u00e7\u00e3o da Lei da Entropia que derruba o pressuposto de que a evolu\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e da tecnologia geram um mundo mais ordenado. Quem ganha com isso? As cidades brasileiras precisam, urgentemente, de arquitetos com nova vis\u00e3o urban\u00edstica e de pol\u00edticos que saibam ver o caos do presente e pensar, com coer\u00eancia e sonho, o futuro. Advogo que o urbanismo, especialidade da arquitetura, deve ser visto e complementado de forma mais abrangente por soci\u00f3logos, dem\u00f3grafos, ge\u00f3grafos, economistas, ecologistas, advogados, administradores, engenheiros etc. O urbanismo n\u00e3o \u00e9 um mero conjunto de tra\u00e7ados, a\u00e7\u00f5es ou de palavras t\u00e9cnicas bonitas, ditas \u00e0 exaust\u00e3o, mas, quase sempre, com discut\u00edvel conte\u00fado. Ele \u00e9 algo profundamente complexo que precisa de criatividade, conte\u00fado, organicidade e objetividade. D\u00e1 pena ver o que as cidades brasileiras sofrem com a perda de suas identidades. Em 2008, o famoso arquiteto americano, de origem chinesa, Chien Chung Pei, ao participar no Brasil do semin\u00e1rio Arquictetour disse que as cidades brasileiras n\u00e3o s\u00f3 precisam criar ou melhorar suas infraestruturas para atrair o turismo, mas devem descobrir um \u00edcone, seja cultural, social ou arquitet\u00f4nico que as represente. As cidades carecem de identidades, n\u00e3o podem ser meras c\u00f3pias de outras. Por outro lado, o arquiteto Sylvio Barros Sawaya, da USP, acredita que o mero tombamento \u201cde um edif\u00edcio por seu valor hist\u00f3rico e deix\u00e1-lo impr\u00f3prio ao uso \u00e9 resultado de crendice temerosa e idolatria deslocada\u201d. O inquestion\u00e1vel caos das cidades causado pela democratiza\u00e7\u00e3o da aquisi\u00e7\u00e3o financiada de carros e motos \u00e9 fruto, inconteste, da inexist\u00eancia de um planejamento urbano que priorizasse o transporte coletivo de massa. Em pesquisa, tomando como base o ano de 2005, do EnvironMentality \u2013Imae, publicado no caderno Mobilidade Urbana, do jornal Valor, de 16.05.2010, verifica-se que o percentual de pessoas transportadas, no Brasil, por ve\u00edculos em trilhos (trens\/metr\u00f4s) corresponde apenas a 3% dos passageiros. 26% andam de \u00f4nibus, 27% usam carros, 2% viajam em motos e, pasmem, 42% anda a p\u00e9. \u00c9 claro que de 2005 para c\u00e1 aumentou o n\u00famero de bicicletas, carros e motos em circula\u00e7\u00e3o. A interliga\u00e7\u00e3o por modais (trens e \u00f4nibus) ainda \u00e9 muito prec\u00e1ria. Quase n\u00e3o existem garagens ou estacionamentos p\u00fablicos e, em algumas cidades, os edif\u00edcios-garagem s\u00e3o at\u00e9 coibidos. \u00c9 comum, por exemplo, que \u00f4nibus e camionetas \u2013 piratas ou n\u00e3o \u2013 de cidades metropolitanas invadam, sem pudor e sem san\u00e7\u00f5es, o j\u00e1 conturbado e diminuto espa\u00e7o das vias urbanas das capitais. Como no Brasil de hoje s\u00f3 se pensa, al\u00e9m da pol\u00edtica, em dois eventos grandiosos, a Copa de Futebol de 2014 e as Olimp\u00edadas de 2016, \u00e9 urgente criar para as popula\u00e7\u00f5es e turistas solu\u00e7\u00f5es vi\u00e1rias mais simples e menos onerosas, como a da cidade de Curitiba onde o urbanista Jaime Lerner inventou um r\u00e1pido sistema de transportes p\u00fablicos, com calhas pr\u00f3prias, desde os anos setenta. \u00c9 bom lembrar o que dizia o escritor italiano \u00cdtalo Calvino, \u201cas cidades, como os sonhos, s\u00e3o feitos de desejos e medos\u201d.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21\/05\/2010<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3217","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3217","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3217"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3217\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3217"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3217"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3217"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}