{"id":3231,"date":"2023-12-21T09:10:41","date_gmt":"2023-12-21T12:10:41","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/registro-pessoal-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:41","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:41","slug":"registro-pessoal-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/registro-pessoal-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"REGISTRO PESSOAL &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Para quem n\u00e3o sabe, sou canhoto. Nasci em \u00e9poca que ser canhoto era estranho. A escola obrigava a escrever com a destra. Teimei a continuar a escrever com a m\u00e3o esquerda.<br \/>\nNo tempo das cadeiras individuais, no col\u00e9gio e nas faculdades que fiz, sofria para, ao ficar de lado, escrever de minha forma arrevesada. Assim, o Brasil se livrou do p\u00e9ssimo candidato a pianista e a violonista. Estudei at\u00e9, deu em nada. Mesmo com boa vontade, n\u00e3o passei do sofr\u00edvel. Ser canhoto me ceifou \u2013 penso &#8211; de qualquer habilidade manual, inclusive nos esportes. Jogando v\u00f4lei, quebrei o pulso da m\u00e3o esquerda e nunca passei de reserva em peladas de futebol. Era um destrambelhado, p\u00e9 torto. Um Dunga, digamos. Resolvi pintar. Vaidoso, nunca tive uma aula. Vi museus, parei defronte de quadros famosos. Achava que poderia come\u00e7ar. Comprei telas, tintas e pinc\u00e9is. S\u00f3 consegui fazer um quadro. Emoldurei-o e escondi de todos, inclusive da minha vista. Est\u00e1 em qualquer canto, um dia o reencontrarei e, certamente, o mandarei para o devido lugar. H\u00e1 algum tempo, dei-me \u00e0 pachorra de fotografar. Comecei com fotos em preto e branco, muito cedo das manh\u00e3s, clicando pessoas dormindo na rua, b\u00eabados, prostitutas, ambulantes com suas carro\u00e7as, mendigos e os desvalidos em geral. N\u00e3o consegui fotografar guerras como o Sebasti\u00e3o Salgado. Pretendia produzir fotos-den\u00fancia, mas a quem mostrar? At\u00e9 tentei, no caso espec\u00edfico da praia onde morava. Os governantes sabem de tudo e tudo fica na mesma. Recebi amea\u00e7as. Parei. Em 2008, meio sem querer, voltei ao extremo-oriente. J\u00e1 havia estado l\u00e1 uma vez. Fizera o circuito dos v\u00e1rios pa\u00edses importantes. Prometera n\u00e3o voltar, pois longe \u00e9 um lugar que existe: a \u00c1sia. Queimei a l\u00edngua. Fui especificamente \u00e0 China para n\u00e3o fazer nada. S\u00f3 olhar. N\u00e3o s\u00f3 a China, na grande Beijing ou Pequim, como a chamamos. Havia acontecido a Olimp\u00edada e eu, como canhoto, cheguei logo depois da festa de encerramento. E vi tudo, mas isto aqui n\u00e3o \u00e9 roteiro tur\u00edstico. \u00c9 revela\u00e7\u00e3o pessoal. Ent\u00e3o, fui ao interior da China, \u00e0 China profunda que, na verdade, n\u00e3o era t\u00e3o profunda assim. Parei em Dalian, uma grande cidade com seis milh\u00f5es de habitantes, entre paup\u00e9rrimos, pois as suas mis\u00e9rias eram vis\u00edveis nas casas que, mesmo escondidas, desvendei. Vi tamb\u00e9m pobres, remediados e ricos de carros importados reluzentes com jeito bem ocidentais, quase americanos, n\u00e3o fossem os olhos. Mas, isso tem em todos os lugares. O queria ver n\u00e3o estava ali. Tive que sair da cidade e dar uma grande circular por seus arredores. Era uma regi\u00e3o serrana, o dia se finava, o sol era de um vermelho esmaecido como o comunismo que hoje praticam por l\u00e1 e eu via o Mar da China l\u00e1 abaixo. Parei em uma esp\u00e9cie de promont\u00f3rio. Admirei a confiss\u00e3o da folhagem verdejante no outono asi\u00e1tico, vi pagodes ao longe e os meus olhos pediam um registro daquela beleza de intensa tranquilidade. Foi ent\u00e3o que tive a coragem de usar uma m\u00e1quina comum, dessas para analfabeto no idioma inventado por Louis Daguerre. Mirei e apertei no obturador. O resultado est\u00e1 na foto em anexo.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09\/07\/2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para quem n\u00e3o sabe, sou canhoto. Nasci em \u00e9poca que ser canhoto era estranho. A escola obrigava a escrever com a destra. Teimei a continuar a escrever com a m\u00e3o esquerda.<br \/>\nNo tempo das cadeiras individuais, no col\u00e9gio e nas faculdades que fiz, sofria para, ao ficar de lado, escrever de minha forma arrevesada. Assim, o Brasil se livrou do p\u00e9ssimo candidato a pianista e a violonista. Estudei at\u00e9, deu em nada. Mesmo com boa vontade, n\u00e3o passei do sofr\u00edvel. Ser canhoto me ceifou \u2013 penso &#8211; de qualquer habilidade manual, inclusive nos esportes. Jogando v\u00f4lei, quebrei o pulso da m\u00e3o esquerda e nunca passei de reserva em peladas de futebol. Era um destrambelhado, p\u00e9 torto. Um Dunga, digamos. Resolvi pintar. Vaidoso, nunca tive uma aula. Vi museus, parei defronte de quadros famosos. Achava que poderia come\u00e7ar. Comprei telas, tintas e pinc\u00e9is. S\u00f3 consegui fazer um quadro. Emoldurei-o e escondi de todos, inclusive da minha vista. Est\u00e1 em qualquer canto, um dia o reencontrarei e, certamente, o mandarei para o devido lugar. H\u00e1 algum tempo, dei-me \u00e0 pachorra de fotografar. Comecei com fotos em preto e branco, muito cedo das manh\u00e3s, clicando pessoas dormindo na rua, b\u00eabados, prostitutas, ambulantes com suas carro\u00e7as, mendigos e os desvalidos em geral. N\u00e3o consegui fotografar guerras como o Sebasti\u00e3o Salgado. Pretendia produzir fotos-den\u00fancia, mas a quem mostrar? At\u00e9 tentei, no caso espec\u00edfico da praia onde morava. Os governantes sabem de tudo e tudo fica na mesma. Recebi amea\u00e7as. Parei. Em 2008, meio sem querer, voltei ao extremo-oriente. J\u00e1 havia estado l\u00e1 uma vez. Fizera o circuito dos v\u00e1rios pa\u00edses importantes. Prometera n\u00e3o voltar, pois longe \u00e9 um lugar que existe: a \u00c1sia. Queimei a l\u00edngua. Fui especificamente \u00e0 China para n\u00e3o fazer nada. S\u00f3 olhar. N\u00e3o s\u00f3 a China, na grande Beijing ou Pequim, como a chamamos. Havia acontecido a Olimp\u00edada e eu, como canhoto, cheguei logo depois da festa de encerramento. E vi tudo, mas isto aqui n\u00e3o \u00e9 roteiro tur\u00edstico. \u00c9 revela\u00e7\u00e3o pessoal. Ent\u00e3o, fui ao interior da China, \u00e0 China profunda que, na verdade, n\u00e3o era t\u00e3o profunda assim. Parei em Dalian, uma grande cidade com seis milh\u00f5es de habitantes, entre paup\u00e9rrimos, pois as suas mis\u00e9rias eram vis\u00edveis nas casas que, mesmo escondidas, desvendei. Vi tamb\u00e9m pobres, remediados e ricos de carros importados reluzentes com jeito bem ocidentais, quase americanos, n\u00e3o fossem os olhos. Mas, isso tem em todos os lugares. O queria ver n\u00e3o estava ali. Tive que sair da cidade e dar uma grande circular por seus arredores. Era uma regi\u00e3o serrana, o dia se finava, o sol era de um vermelho esmaecido como o comunismo que hoje praticam por l\u00e1 e eu via o Mar da China l\u00e1 abaixo. Parei em uma esp\u00e9cie de promont\u00f3rio. Admirei a confiss\u00e3o da folhagem verdejante no outono asi\u00e1tico, vi pagodes ao longe e os meus olhos pediam um registro daquela beleza de intensa tranquilidade. Foi ent\u00e3o que tive a coragem de usar uma m\u00e1quina comum, dessas para analfabeto no idioma inventado por Louis Daguerre. Mirei e apertei no obturador. O resultado est\u00e1 na foto em anexo.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09\/07\/2010.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3231","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3231","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3231"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3231\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3231"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3231"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3231"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}