{"id":3233,"date":"2023-12-21T09:10:41","date_gmt":"2023-12-21T12:10:41","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/poesia-e-heranca-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:41","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:41","slug":"poesia-e-heranca-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/poesia-e-heranca-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"POESIA E HERAN\u00c7A &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>As belas poesias (quem me compra um jardim com flores?) infantis de Cec\u00edlia Meireles parecem n\u00e3o ter sido lidas ou introjetadas na inf\u00e2ncia de suas filhas. Cec\u00edlia tinha talento, publicou obra v\u00e1ria e respeit\u00e1vel. Morreu, mas os poetas viram versos no al\u00e9m. C\u00e1, na terra do aqu\u00e9m ou de ningu\u00e9m, ficou a fam\u00edlia a se apoderar do tesouro, a obra liter\u00e1ria de Cec\u00edlia. Ganharam com ela, mas depois, insatisfeitos com o apurado, brigaram. A justi\u00e7a foi chamada e a justi\u00e7a n\u00e3o foi feita. Feia \u00e9 a briga p\u00fablica e publicizada por filhas e sobrinhos que, certamente, n\u00e3o versejam e n\u00e3o est\u00e3o nada prosa para a mem\u00f3ria da m\u00e3e-tia-poeta. Faz dez anos que se engalfinham em v\u00e1rios processos e matam a galinha dos ovos de ouro, pois discutem quem tem direito a que, enquanto a sua obra fica fora das editoras e livrarias. O fato \u00e9 que literatura tamb\u00e9m d\u00e1 brigas familiares e demandas judiciais. H\u00e1 tantos casos de fam\u00edlias de autores engolfada em querelas. Cito apenas os not\u00f3rios: Monteiro Lobato, Graciliano Ramos e Guimar\u00e3es Rosa. Mudemos de arte. Nas artes pl\u00e1sticas existem os casos p\u00fablicos e insol\u00faveis dos herdeiros de Alfredo Volpi e Lygia Clark. Agora, igualmente, querem fazer dinheiro com a mem\u00f3ria da cantora e artista Carmen Miranda, morta h\u00e1 55 anos na Calif\u00f3rnia, e que nunca teve filhos. Familiares colaterais e detentores de direitos autorais aqui e aventureiros nos Estados Unidos se desunem para tirar vantagens em um filme que seria mero ca\u00e7a dinheiro. Come\u00e7aria pela pobreza do t\u00edtulo: \u201cMaracas\u201d. \u00c9 sempre assim. Imaginem ent\u00e3o o que n\u00e3o acontece com as heran\u00e7as dos, n\u00e3o literatos, os plantadores em terra adusta, limpadores de ervas daninhas com suas m\u00e3os sofridas, adubadores e regadores com seus suores para verem as \u00e1rvores de suas vidas crescendo, sem tempo at\u00e9 de provar dos frutos, pois cuidam das cercas contra os invasores, os que n\u00e3o plantam e querem roubar os frutos alheios. Deixemos os usurpadores de fora. Fiquemos apenas com as fam\u00edlias e j\u00e1 ser\u00e1 muito. Quantas empresas, desde mercearias de sub\u00farbio at\u00e9 conglomerados, definham, acabam ou s\u00e3o vendidos pela gan\u00e2ncia, incompet\u00eancia e desamor de filhos e agregados. Deixam as \u00e1rvores sem rega e procuram apenas saber quanto apuram com a venda dos frutos maduros. N\u00e3o sabem que cada palmo de terra foi cuidado com desvelo. N\u00e3o sabem quantos dissabores algu\u00e9m h\u00e1 passado para, pouco a pouco, ir consolidando o que, logo ap\u00f3s sua morte, ser\u00e1 dissipado com desamor. Vender e o mote: isso d\u00e1 trabalho. Martin Lutero, o insuspeito reformador alem\u00e3o que fundou uma nova religi\u00e3o pelos desencantos com a Igreja de Roma, dizia que a fam\u00edlia \u00e9 fonte de prosperidade, mas tamb\u00e9m \u00e9 de desgra\u00e7a. \u00c1vidos, quase sempre, herdeiros sequer querem saber o que os pais fizeram, suas dores e percal\u00e7os, suas hist\u00f3rias, sejam obras imateriais, bens ou pec\u00fanias. N\u00e3o lhes custou nada essa longa fadiga, apenas s\u00e3o ciosos dos \u201cseus direitos\u201d e engordam advogados para dividir, sob luta, os despojos do que encontram e sequer respeitam, pois n\u00e3o h\u00e1 amor pela cria\u00e7\u00e3o e feitos do(a) falecido(a). S\u00f3 quem ama pode admirar, cuidar, respeitar e ter v\u00ednculos de afeto. Na linguagem dos matutos h\u00e1 uma frase c\u00e1ustica: \u201cFilho s\u00f3 puxa ao pai quando o pai \u00e9 cego\u201d. Entretanto, Cervantes, o quixotesco, amenizava: \u201cOs filhos s\u00e3o peda\u00e7os das entranhas e, sejam bons ou maus, sempre se lhes h\u00e1 de querer como as almas que nos d\u00e3o vida\u201d. A Hist\u00f3ria n\u00e3o registra filhos de Cervantes.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23\/07\/2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As belas poesias (quem me compra um jardim com flores?) infantis de Cec\u00edlia Meireles parecem n\u00e3o ter sido lidas ou introjetadas na inf\u00e2ncia de suas filhas. Cec\u00edlia tinha talento, publicou obra v\u00e1ria e respeit\u00e1vel. Morreu, mas os poetas viram versos no al\u00e9m. C\u00e1, na terra do aqu\u00e9m ou de ningu\u00e9m, ficou a fam\u00edlia a se apoderar do tesouro, a obra liter\u00e1ria de Cec\u00edlia. Ganharam com ela, mas depois, insatisfeitos com o apurado, brigaram. A justi\u00e7a foi chamada e a justi\u00e7a n\u00e3o foi feita. Feia \u00e9 a briga p\u00fablica e publicizada por filhas e sobrinhos que, certamente, n\u00e3o versejam e n\u00e3o est\u00e3o nada prosa para a mem\u00f3ria da m\u00e3e-tia-poeta. Faz dez anos que se engalfinham em v\u00e1rios processos e matam a galinha dos ovos de ouro, pois discutem quem tem direito a que, enquanto a sua obra fica fora das editoras e livrarias. O fato \u00e9 que literatura tamb\u00e9m d\u00e1 brigas familiares e demandas judiciais. H\u00e1 tantos casos de fam\u00edlias de autores engolfada em querelas. Cito apenas os not\u00f3rios: Monteiro Lobato, Graciliano Ramos e Guimar\u00e3es Rosa. Mudemos de arte. Nas artes pl\u00e1sticas existem os casos p\u00fablicos e insol\u00faveis dos herdeiros de Alfredo Volpi e Lygia Clark. Agora, igualmente, querem fazer dinheiro com a mem\u00f3ria da cantora e artista Carmen Miranda, morta h\u00e1 55 anos na Calif\u00f3rnia, e que nunca teve filhos. Familiares colaterais e detentores de direitos autorais aqui e aventureiros nos Estados Unidos se desunem para tirar vantagens em um filme que seria mero ca\u00e7a dinheiro. Come\u00e7aria pela pobreza do t\u00edtulo: \u201cMaracas\u201d. \u00c9 sempre assim. Imaginem ent\u00e3o o que n\u00e3o acontece com as heran\u00e7as dos, n\u00e3o literatos, os plantadores em terra adusta, limpadores de ervas daninhas com suas m\u00e3os sofridas, adubadores e regadores com seus suores para verem as \u00e1rvores de suas vidas crescendo, sem tempo at\u00e9 de provar dos frutos, pois cuidam das cercas contra os invasores, os que n\u00e3o plantam e querem roubar os frutos alheios. Deixemos os usurpadores de fora. Fiquemos apenas com as fam\u00edlias e j\u00e1 ser\u00e1 muito. Quantas empresas, desde mercearias de sub\u00farbio at\u00e9 conglomerados, definham, acabam ou s\u00e3o vendidos pela gan\u00e2ncia, incompet\u00eancia e desamor de filhos e agregados. Deixam as \u00e1rvores sem rega e procuram apenas saber quanto apuram com a venda dos frutos maduros. N\u00e3o sabem que cada palmo de terra foi cuidado com desvelo. N\u00e3o sabem quantos dissabores algu\u00e9m h\u00e1 passado para, pouco a pouco, ir consolidando o que, logo ap\u00f3s sua morte, ser\u00e1 dissipado com desamor. Vender e o mote: isso d\u00e1 trabalho. Martin Lutero, o insuspeito reformador alem\u00e3o que fundou uma nova religi\u00e3o pelos desencantos com a Igreja de Roma, dizia que a fam\u00edlia \u00e9 fonte de prosperidade, mas tamb\u00e9m \u00e9 de desgra\u00e7a. \u00c1vidos, quase sempre, herdeiros sequer querem saber o que os pais fizeram, suas dores e percal\u00e7os, suas hist\u00f3rias, sejam obras imateriais, bens ou pec\u00fanias. N\u00e3o lhes custou nada essa longa fadiga, apenas s\u00e3o ciosos dos \u201cseus direitos\u201d e engordam advogados para dividir, sob luta, os despojos do que encontram e sequer respeitam, pois n\u00e3o h\u00e1 amor pela cria\u00e7\u00e3o e feitos do(a) falecido(a). S\u00f3 quem ama pode admirar, cuidar, respeitar e ter v\u00ednculos de afeto. Na linguagem dos matutos h\u00e1 uma frase c\u00e1ustica: \u201cFilho s\u00f3 puxa ao pai quando o pai \u00e9 cego\u201d. Entretanto, Cervantes, o quixotesco, amenizava: \u201cOs filhos s\u00e3o peda\u00e7os das entranhas e, sejam bons ou maus, sempre se lhes h\u00e1 de querer como as almas que nos d\u00e3o vida\u201d. A Hist\u00f3ria n\u00e3o registra filhos de Cervantes.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23\/07\/2010.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3233","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3233","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3233"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3233\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3233"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3233"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3233"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}