{"id":3237,"date":"2023-12-21T09:10:41","date_gmt":"2023-12-21T12:10:41","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/aprendizado-de-pai-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:41","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:41","slug":"aprendizado-de-pai-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/aprendizado-de-pai-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"APRENDIZADO DE PAI &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Tentei aprender a ser pai na estrada da vida. N\u00e3o havia livro que ensinasse nada. O m\u00e1ximo era o \u201cLivro do Beb\u00ea\u201d, do Dr. Rinaldo de Lamare. Perdemos o primeiro filho, pouco antes de nascer, em um acidente. Estava no Rio, vim correndo e o levei ao cemit\u00e9rio. Depois, vieram as filhas, a quem amei desde sempre. A todas, levamos ao batismo, tomando parentes e amigos como padrinhos. Participei de todos os pr\u00e9-natais, estive em todos os partos, at\u00e9 vi. Fui aos maternais para as primeiras aulas, ficando atr\u00e1s de paredes para que n\u00e3o me flagrassem por l\u00e1. Permaneci uma semana com cortinas fechadas em Belo Horizonte cuidando de filha operada.<br \/>\nSofri sozinho, a invas\u00e3o de minha casa por desvairado que levou, por horas, uma filha como se fosse moeda de troca. Horas infinitas. Tudo terminou bem. Descumpri sinais de tr\u00e2nsito, ap\u00f3s uma filha cair de ponta-cabe\u00e7a at\u00e9 chegar, cantando pneu e esbaforido, ao hospital. Bati palmas e fotos em festas anivers\u00e1rias e em festivais de ballet de todas elas. Mandei gradear piscina enquanto contratava professor de nata\u00e7\u00e3o. Briguei com pediatras para serem atendidas com presteza. Procurei saber de col\u00e9gios, professores, m\u00e9todos de ensino, cursos de idiomas e quem eram suas companhias.<br \/>\nDesci serra, interrompendo fim de semana, por conta de bra\u00e7o quebrado de filha. E, foi assim, passo a passo, em compasso ou descompasso, em dupla ou \u00e0 capela. Era apenas um menino-homem que abria, por outro lado, o duro, difuso e desigual combate da vida profissional independente, sem patr\u00e3o e padrinho, pois fora essa a minha op\u00e7\u00e3o. Montei uma empresa apenas com o nome, sem capital e precisava cuidar dela. Isso, entretanto, nunca me impediu de tomar caf\u00e9, almo\u00e7ar e jantar em casa.<br \/>\nTodos os fins-de-semana eram da fam\u00edlia e, para isso, procurei uma casa em praia ainda deserta povoada de amigos com seus filhos, colegas de classe de minhas filhas. Sem saber muito de como conduzir a linguagem e relacionamento entre adulto e crian\u00e7a, criei uma est\u00f3ria que durou anos. Ela tinha duas personagens, Rosinha e Paulinho, atrav\u00e9s dos quais procurava passar o que acreditava ser exemplo, ensinamento e alegria. Paulinho e Rosinha eram bons filhos e alunos. Tantas foram as vezes em que cheg\u00e1vamos a um local e o Paulinho e a Rosinha haviam acabado de sair. Brincamos em festas, carnavais infantis e em clube.<br \/>\nO tempo ia passando. Levei-as \u00e0 Disneyworld como processo de crescimento e n\u00e3o de deslumbramento. Tom\u00e1vamos banhos \u00e0 beira-mar deserta, enquanto o \u201cBuggy\u201d se quedava pr\u00f3ximo para passeios relaxantes. E havia esportes em casa, mais de um. Depois, viajamos, aqui e alhures. E, uma a uma, foram se pondo mo\u00e7as, algumas at\u00f4nitas com mudan\u00e7as as tornando distintas do que eram. E houve crise, Deus sabe.<br \/>\nProcurei entender, auscultar e fazer o poss\u00edvel. E descobri ser a adolesc\u00eancia feminina mais complexa que imaginava. Chorei trancado em banheiro por n\u00e3o entender e descobrir a raz\u00e3o. Por outro lado, fui fustigado anos a fio por concorr\u00eancia articulada, sem d\u00f3 e piedade, tentando me alijar do que fazia. Era luta solit\u00e1ria, incompreendida e indormida. Veio a idade de estudarem fora do pa\u00eds e me vi levando-as para casa de irm\u00e3os habitantes da Am\u00e9rica, n\u00e3o sem antes conhecer escola, falar com a dire\u00e7\u00e3o e deixar tudo acertado. Choros e crises. Foi mais uma luta, telefonemas longos, mas terminaram \u2013 e bem &#8211; os cursos. Ao traz\u00ea-las de volta, camioneta cheia de malas e quinquilharias. E assim foram todas.<br \/>\nDepois, vieram namoros, rompimentos, reatamentos, conclus\u00f5es de cursos universit\u00e1rios, casamentos festivos, netos acolhidos com sentimentos e escritos. De repente, me dei conta, n\u00e3o fazia mais parte do time, havia recebido cart\u00e3o vermelho, por faltas cometidas e a vida do\u00eda. Tornei-me mero provedor, \u201coutsider\u201d e descobri-me desaprendiz de pai. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06\/08\/2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tentei aprender a ser pai na estrada da vida. N\u00e3o havia livro que ensinasse nada. O m\u00e1ximo era o \u201cLivro do Beb\u00ea\u201d, do Dr. Rinaldo de Lamare. Perdemos o primeiro filho, pouco antes de nascer, em um acidente. Estava no Rio, vim correndo e o levei ao cemit\u00e9rio. Depois, vieram as filhas, a quem amei desde sempre. A todas, levamos ao batismo, tomando parentes e amigos como padrinhos. Participei de todos os pr\u00e9-natais, estive em todos os partos, at\u00e9 vi. Fui aos maternais para as primeiras aulas, ficando atr\u00e1s de paredes para que n\u00e3o me flagrassem por l\u00e1. Permaneci uma semana com cortinas fechadas em Belo Horizonte cuidando de filha operada.<br \/>\nSofri sozinho, a invas\u00e3o de minha casa por desvairado que levou, por horas, uma filha como se fosse moeda de troca. Horas infinitas. Tudo terminou bem. Descumpri sinais de tr\u00e2nsito, ap\u00f3s uma filha cair de ponta-cabe\u00e7a at\u00e9 chegar, cantando pneu e esbaforido, ao hospital. Bati palmas e fotos em festas anivers\u00e1rias e em festivais de ballet de todas elas. Mandei gradear piscina enquanto contratava professor de nata\u00e7\u00e3o. Briguei com pediatras para serem atendidas com presteza. Procurei saber de col\u00e9gios, professores, m\u00e9todos de ensino, cursos de idiomas e quem eram suas companhias.<br \/>\nDesci serra, interrompendo fim de semana, por conta de bra\u00e7o quebrado de filha. E, foi assim, passo a passo, em compasso ou descompasso, em dupla ou \u00e0 capela. Era apenas um menino-homem que abria, por outro lado, o duro, difuso e desigual combate da vida profissional independente, sem patr\u00e3o e padrinho, pois fora essa a minha op\u00e7\u00e3o. Montei uma empresa apenas com o nome, sem capital e precisava cuidar dela. Isso, entretanto, nunca me impediu de tomar caf\u00e9, almo\u00e7ar e jantar em casa.<br \/>\nTodos os fins-de-semana eram da fam\u00edlia e, para isso, procurei uma casa em praia ainda deserta povoada de amigos com seus filhos, colegas de classe de minhas filhas. Sem saber muito de como conduzir a linguagem e relacionamento entre adulto e crian\u00e7a, criei uma est\u00f3ria que durou anos. Ela tinha duas personagens, Rosinha e Paulinho, atrav\u00e9s dos quais procurava passar o que acreditava ser exemplo, ensinamento e alegria. Paulinho e Rosinha eram bons filhos e alunos. Tantas foram as vezes em que cheg\u00e1vamos a um local e o Paulinho e a Rosinha haviam acabado de sair. Brincamos em festas, carnavais infantis e em clube.<br \/>\nO tempo ia passando. Levei-as \u00e0 Disneyworld como processo de crescimento e n\u00e3o de deslumbramento. Tom\u00e1vamos banhos \u00e0 beira-mar deserta, enquanto o \u201cBuggy\u201d se quedava pr\u00f3ximo para passeios relaxantes. E havia esportes em casa, mais de um. Depois, viajamos, aqui e alhures. E, uma a uma, foram se pondo mo\u00e7as, algumas at\u00f4nitas com mudan\u00e7as as tornando distintas do que eram. E houve crise, Deus sabe.<br \/>\nProcurei entender, auscultar e fazer o poss\u00edvel. E descobri ser a adolesc\u00eancia feminina mais complexa que imaginava. Chorei trancado em banheiro por n\u00e3o entender e descobrir a raz\u00e3o. Por outro lado, fui fustigado anos a fio por concorr\u00eancia articulada, sem d\u00f3 e piedade, tentando me alijar do que fazia. Era luta solit\u00e1ria, incompreendida e indormida. Veio a idade de estudarem fora do pa\u00eds e me vi levando-as para casa de irm\u00e3os habitantes da Am\u00e9rica, n\u00e3o sem antes conhecer escola, falar com a dire\u00e7\u00e3o e deixar tudo acertado. Choros e crises. Foi mais uma luta, telefonemas longos, mas terminaram \u2013 e bem &#8211; os cursos. Ao traz\u00ea-las de volta, camioneta cheia de malas e quinquilharias. E assim foram todas.<br \/>\nDepois, vieram namoros, rompimentos, reatamentos, conclus\u00f5es de cursos universit\u00e1rios, casamentos festivos, netos acolhidos com sentimentos e escritos. De repente, me dei conta, n\u00e3o fazia mais parte do time, havia recebido cart\u00e3o vermelho, por faltas cometidas e a vida do\u00eda. Tornei-me mero provedor, \u201coutsider\u201d e descobri-me desaprendiz de pai. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06\/08\/2010.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3237","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3237","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3237"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3237\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3237"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3237"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3237"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}