{"id":3243,"date":"2023-12-21T09:10:41","date_gmt":"2023-12-21T12:10:41","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/voce-ama-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:41","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:41","slug":"voce-ama-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/voce-ama-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"VOC\u00ca AMA? &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Mensagens e apelos em livros, filmes, jornais, m\u00eddias alternativas, r\u00e1dio e televis\u00e3o est\u00e3o sempre louvando o amor. E isso \u00e9 bom. Cada um, \u00e0 sua maneira, procura demonstrar, de forma material, para a pessoa amada ser ela lembrada e, mais que isso, simboliza o afeto em presentes, coisas materiais. Assim foi, desde sempre.<br \/>\nA imagina\u00e7\u00e3o remete-me \u00e0s portas dos pres\u00eddios brasileiros onde, mulheres, muitas delas desprezadas, humilhadas e maltratadas, esquecem tudo isso e est\u00e3o, nos dias de visita, levando um pouco do que t\u00eam para demonstrar, da forma que podem e sabem, o seu amor. Submetem-se a vexames de revistas ultrajantes, mas conseguem sempre levar o que a pessoa amada lhes pediu: comida, roupa, droga, uma pequena serra, dinheiro etc. Talvez esses atos n\u00e3o sejam submiss\u00f5es. Podem ser sentimentos fortes, aquela vontade de proteger, de estar junto, de ajudar, de dizer: apesar de teus defeitos eu te perdoo e te amo. Seria esse o amor verdadeiro? Ou mera submiss\u00e3o?<br \/>\nDeixando os pres\u00eddios de lado e voltando ao in\u00edcio do s\u00e9culo passado, quando nada era permitido e j\u00e1 se fazia de tudo, deparo-me, na Hist\u00f3ria, gra\u00e7as a ensaio de Luzil\u00e1 Gon\u00e7alves Ferreira, com uma grande e j\u00e1 conhecida mulher. Seu nome, Lou Andreas-Salom\u00e9, escritora alem\u00e3 a arrebatar cora\u00e7\u00f5es da maioria dos homens que cruzaram seu caminho. Por ela se apaixonaram, entre outros, Nietzsche (com toda a sua descren\u00e7a), Freud (com as suas inquieta\u00e7\u00f5es) e Rilke (com a sua caudalosa poesia).<br \/>\nLou dizia: \u201cA vida te dar\u00e1 poucos presentes, acredita: se queres uma vida, \u00e9 preciso que a roubes\u201d. Em outras palavras, pregava para as pessoas, os amantes, intrepidez e ousadia. Para voc\u00eas terem ideia das paix\u00f5es que Lou despertava nos homens, basta citar um poema que Rainer Maria Rilke lhe dedicou:\u201cTu eras para mim a mais material das mulheres,\/eras um amigo como s\u00e3o os homens,\/ao olhar, eras uma mulher\/e eras no mais das vezes ainda uma crian\u00e7a.\/Eras a coisa mais terna que encontrei,\/eras a coisa mais dura com a qual lutei.\/Eras o cimo que me tinha aben\u00e7oado \/e te tornaste o abismo que me devorou\u201d.<br \/>\nEm contrapartida, Lou disse: \u201cSe fui tua mulher durante anos, \u00e9 porque foste para mim a primeira realidade em que o corpo e o homem s\u00e3o indiscern\u00edveis, fato incontest\u00e1vel da pr\u00f3pria vida\u201d.<br \/>\nOs exemplos paradoxais citados, em tempos diversos e pela natureza singular das pessoas envolvidas, mostram que o amor independe da classe social, raz\u00f5es l\u00f3gicas, justifica\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e explica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas. O amor seria a capacidade de inebriar-se, de descobrir a exist\u00eancia do outro em tudo o que se faz, sente e deseja. O amor seria a abstra\u00e7\u00e3o do mundo e o pensamento ego\u00edsta de que tudo gira no entorno da pessoa amada por causa de quem vivemos. Para os que ainda se sentem presos a algu\u00e9m, apesar do fim da rela\u00e7\u00e3o, \u00e9 bom ouvir o que dizia Lou, j\u00e1 aos 76 anos, na obra \u201cNos Cadernos \u00edntimos dos \u00faltimos anos\u201d: \u201cAp\u00f3s minha separa\u00e7\u00e3o de um parceiro, sua aus\u00eancia nada retirava ao amor que eu lhe tinha, mas lhe dava uma import\u00e2ncia nova, pois ele escapava assim aos exageros deformadores que o amor superpunha \u00e0 sua individualidade. Ele retomava sua individualidade pr\u00f3pria e meu olhar sereno, sem colocar condi\u00e7\u00f5es nem exig\u00eancias\u201d.<br \/>\nHoje, tempos outros, como voc\u00ea imagina o amor?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27\/08\/2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mensagens e apelos em livros, filmes, jornais, m\u00eddias alternativas, r\u00e1dio e televis\u00e3o est\u00e3o sempre louvando o amor. E isso \u00e9 bom. Cada um, \u00e0 sua maneira, procura demonstrar, de forma material, para a pessoa amada ser ela lembrada e, mais que isso, simboliza o afeto em presentes, coisas materiais. Assim foi, desde sempre.<br \/>\nA imagina\u00e7\u00e3o remete-me \u00e0s portas dos pres\u00eddios brasileiros onde, mulheres, muitas delas desprezadas, humilhadas e maltratadas, esquecem tudo isso e est\u00e3o, nos dias de visita, levando um pouco do que t\u00eam para demonstrar, da forma que podem e sabem, o seu amor. Submetem-se a vexames de revistas ultrajantes, mas conseguem sempre levar o que a pessoa amada lhes pediu: comida, roupa, droga, uma pequena serra, dinheiro etc. Talvez esses atos n\u00e3o sejam submiss\u00f5es. Podem ser sentimentos fortes, aquela vontade de proteger, de estar junto, de ajudar, de dizer: apesar de teus defeitos eu te perdoo e te amo. Seria esse o amor verdadeiro? Ou mera submiss\u00e3o?<br \/>\nDeixando os pres\u00eddios de lado e voltando ao in\u00edcio do s\u00e9culo passado, quando nada era permitido e j\u00e1 se fazia de tudo, deparo-me, na Hist\u00f3ria, gra\u00e7as a ensaio de Luzil\u00e1 Gon\u00e7alves Ferreira, com uma grande e j\u00e1 conhecida mulher. Seu nome, Lou Andreas-Salom\u00e9, escritora alem\u00e3 a arrebatar cora\u00e7\u00f5es da maioria dos homens que cruzaram seu caminho. Por ela se apaixonaram, entre outros, Nietzsche (com toda a sua descren\u00e7a), Freud (com as suas inquieta\u00e7\u00f5es) e Rilke (com a sua caudalosa poesia).<br \/>\nLou dizia: \u201cA vida te dar\u00e1 poucos presentes, acredita: se queres uma vida, \u00e9 preciso que a roubes\u201d. Em outras palavras, pregava para as pessoas, os amantes, intrepidez e ousadia. Para voc\u00eas terem ideia das paix\u00f5es que Lou despertava nos homens, basta citar um poema que Rainer Maria Rilke lhe dedicou:\u201cTu eras para mim a mais material das mulheres,\/eras um amigo como s\u00e3o os homens,\/ao olhar, eras uma mulher\/e eras no mais das vezes ainda uma crian\u00e7a.\/Eras a coisa mais terna que encontrei,\/eras a coisa mais dura com a qual lutei.\/Eras o cimo que me tinha aben\u00e7oado \/e te tornaste o abismo que me devorou\u201d.<br \/>\nEm contrapartida, Lou disse: \u201cSe fui tua mulher durante anos, \u00e9 porque foste para mim a primeira realidade em que o corpo e o homem s\u00e3o indiscern\u00edveis, fato incontest\u00e1vel da pr\u00f3pria vida\u201d.<br \/>\nOs exemplos paradoxais citados, em tempos diversos e pela natureza singular das pessoas envolvidas, mostram que o amor independe da classe social, raz\u00f5es l\u00f3gicas, justifica\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e explica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas. O amor seria a capacidade de inebriar-se, de descobrir a exist\u00eancia do outro em tudo o que se faz, sente e deseja. O amor seria a abstra\u00e7\u00e3o do mundo e o pensamento ego\u00edsta de que tudo gira no entorno da pessoa amada por causa de quem vivemos. Para os que ainda se sentem presos a algu\u00e9m, apesar do fim da rela\u00e7\u00e3o, \u00e9 bom ouvir o que dizia Lou, j\u00e1 aos 76 anos, na obra \u201cNos Cadernos \u00edntimos dos \u00faltimos anos\u201d: \u201cAp\u00f3s minha separa\u00e7\u00e3o de um parceiro, sua aus\u00eancia nada retirava ao amor que eu lhe tinha, mas lhe dava uma import\u00e2ncia nova, pois ele escapava assim aos exageros deformadores que o amor superpunha \u00e0 sua individualidade. Ele retomava sua individualidade pr\u00f3pria e meu olhar sereno, sem colocar condi\u00e7\u00f5es nem exig\u00eancias\u201d.<br \/>\nHoje, tempos outros, como voc\u00ea imagina o amor?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27\/08\/2010.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3243","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3243","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3243"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3243\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3243"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3243"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3243"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}