{"id":3245,"date":"2023-12-21T09:10:41","date_gmt":"2023-12-21T12:10:41","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-mina-e-a-solidao-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:41","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:41","slug":"a-mina-e-a-solidao-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-mina-e-a-solidao-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"A MINA E A SOLID\u00c3O &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>O jornalista Alonso Soto escreveu, reproduzindo not\u00edcias da Agencia Reuters, sobre as rela\u00e7\u00f5es humanas entre mineiros soterrados no Chile e seus familiares. Foca bem no caso de Lilianet Ramirez, 51 anos. A not\u00edcia diz, mais ou menos, o seguinte: \u201dCopiap\u00f3- Abra\u00e7ada a um bilhete amarfanhado, escrito a 700 metros de profundidade por seu marido, preso h\u00e1 semanas numa mina, Lilianet redige sua primeira carta de amor em v\u00e1rias d\u00e9cadas\u201d.<br \/>\nO bilhete que Mario G\u00f3mez, 63 anos, enviou no domingo \u00e0 superf\u00edcie, prometendo em breve rever a mulher, comoveu o pa\u00eds. At\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o se sabia se os 33 mineiros presos na mina de San Jos\u00e9, ap\u00f3s desmoronamento, estavam vivos ou mortos. Agora, Lilianet ter\u00e1 pela frente uma longa espera de tr\u00eas a quatro meses, enquanto engenheiros e outros t\u00e9cnicos perfuram nova galeria at\u00e9 o ref\u00fagio em que os homens se encontram. Eles sobrevivem gra\u00e7as \u00e0 \u00e1gua que escorre da perfura\u00e7\u00e3o, e do ar que entra por dutos de ventila\u00e7\u00e3o. J\u00e1 instalaram tubos pl\u00e1sticos &#8211; chamados de &#8220;pombas&#8221; &#8211; pelos quais enviam glicose, gel de hidrata\u00e7\u00e3o, nutrientes l\u00edquidos e rem\u00e9dios aos mineiros. Eles pretendem enviar cartas tamb\u00e9m. &#8220;D\u00e1 para imaginar? Ap\u00f3s 30 anos de casamento vamos come\u00e7ar a nos mandar cartas de amor outra vez&#8221;, disse Lilianet, rindo, apesar do cansa\u00e7o, ap\u00f3s mais de duas semanas instalada no acampamento batizado de &#8220;Esperan\u00e7a&#8221;. &#8220;Quero lhe dizer que eu o amo demais. Quero lhe dizer que as coisas ser\u00e3o diferentes, que teremos uma nova vida&#8221;, disse ela. &#8220;Vou esperar o quanto for necess\u00e1rio para ver meu marido outra vez.&#8221; Na pr\u00e1tica, acredito que a amea\u00e7a de perder Lillianet reabriu o n\u00edvel anterior de conquista e as emo\u00e7\u00f5es relacionadas a este foram reavivadas.<br \/>\nAs equipes de resgate encontraram o bilhete de G\u00f3mez preso \u00e0 broca usada para localizar os mineiros. &#8220;Vejo voc\u00eas em breve (&#8230;) e vamos ser felizes para sempre depois disso\u201d, escreveu o marido. Mas, h\u00e1 tamb\u00e9m espa\u00e7o para confus\u00f5es. O agricultor Alberto Avalos, de 42 anos, tem um sobrinho soterrado: &#8220;Honestamente, quero perguntar a ele que diabos estava fazendo l\u00e1 embaixo da mina. Quero amaldi\u00e7o\u00e1-lo por ter nos deixado t\u00e3o preocupados&#8221;,<br \/>\nThomas Mann, no seu livro \u201cMorte em Veneza\u201d, falando sobre a solid\u00e3o, diz: \u201cA solid\u00e3o mostra o original, a beleza ousada e surpreendente, a poesia. Mas a solid\u00e3o tamb\u00e9m mostra o avesso, o desproporcionado, o absurdo e o il\u00edcito\u201d. Em resumo, digo eu: por que raz\u00e3o essas not\u00edcias mostram ser necess\u00e1rio que as pessoas se apartem, que ocorram cataclismos ou grandes traumas, para descobrirem a necessidade de ficar pr\u00f3ximas? O que nos leva a, quase sempre, n\u00e3o enxergar a pessoa que est\u00e1 ali ao lado, seja amor, amigo ou parente? O que nos torna indiferentes ao j\u00e1 conquistado ou a quem sempre est\u00e1 dispon\u00edvel? Qual a cegueira ou descaso que parece dominar as rela\u00e7\u00f5es duradouras? Nem todos precisam ficar presos em uma mina para que descubram seus sentimentos.<br \/>\nEnfim, voc\u00ea acredita que essas cartas s\u00e3o frutos do amor ou apenas refletem a solid\u00e3o e a apreens\u00e3o de quem se imagina pr\u00f3ximo da morte, no caso de G\u00f3mez, ou da poss\u00edvel iminente viuvez de Lilianet? Quando estiverem juntos, refeitos da dor, ser\u00e3o maduros para o reencontro afetivo que prometem? <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03\/09\/2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalista Alonso Soto escreveu, reproduzindo not\u00edcias da Agencia Reuters, sobre as rela\u00e7\u00f5es humanas entre mineiros soterrados no Chile e seus familiares. Foca bem no caso de Lilianet Ramirez, 51 anos. A not\u00edcia diz, mais ou menos, o seguinte: \u201dCopiap\u00f3- Abra\u00e7ada a um bilhete amarfanhado, escrito a 700 metros de profundidade por seu marido, preso h\u00e1 semanas numa mina, Lilianet redige sua primeira carta de amor em v\u00e1rias d\u00e9cadas\u201d.<br \/>\nO bilhete que Mario G\u00f3mez, 63 anos, enviou no domingo \u00e0 superf\u00edcie, prometendo em breve rever a mulher, comoveu o pa\u00eds. At\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o se sabia se os 33 mineiros presos na mina de San Jos\u00e9, ap\u00f3s desmoronamento, estavam vivos ou mortos. Agora, Lilianet ter\u00e1 pela frente uma longa espera de tr\u00eas a quatro meses, enquanto engenheiros e outros t\u00e9cnicos perfuram nova galeria at\u00e9 o ref\u00fagio em que os homens se encontram. Eles sobrevivem gra\u00e7as \u00e0 \u00e1gua que escorre da perfura\u00e7\u00e3o, e do ar que entra por dutos de ventila\u00e7\u00e3o. J\u00e1 instalaram tubos pl\u00e1sticos &#8211; chamados de &#8220;pombas&#8221; &#8211; pelos quais enviam glicose, gel de hidrata\u00e7\u00e3o, nutrientes l\u00edquidos e rem\u00e9dios aos mineiros. Eles pretendem enviar cartas tamb\u00e9m. &#8220;D\u00e1 para imaginar? Ap\u00f3s 30 anos de casamento vamos come\u00e7ar a nos mandar cartas de amor outra vez&#8221;, disse Lilianet, rindo, apesar do cansa\u00e7o, ap\u00f3s mais de duas semanas instalada no acampamento batizado de &#8220;Esperan\u00e7a&#8221;. &#8220;Quero lhe dizer que eu o amo demais. Quero lhe dizer que as coisas ser\u00e3o diferentes, que teremos uma nova vida&#8221;, disse ela. &#8220;Vou esperar o quanto for necess\u00e1rio para ver meu marido outra vez.&#8221; Na pr\u00e1tica, acredito que a amea\u00e7a de perder Lillianet reabriu o n\u00edvel anterior de conquista e as emo\u00e7\u00f5es relacionadas a este foram reavivadas.<br \/>\nAs equipes de resgate encontraram o bilhete de G\u00f3mez preso \u00e0 broca usada para localizar os mineiros. &#8220;Vejo voc\u00eas em breve (&#8230;) e vamos ser felizes para sempre depois disso\u201d, escreveu o marido. Mas, h\u00e1 tamb\u00e9m espa\u00e7o para confus\u00f5es. O agricultor Alberto Avalos, de 42 anos, tem um sobrinho soterrado: &#8220;Honestamente, quero perguntar a ele que diabos estava fazendo l\u00e1 embaixo da mina. Quero amaldi\u00e7o\u00e1-lo por ter nos deixado t\u00e3o preocupados&#8221;,<br \/>\nThomas Mann, no seu livro \u201cMorte em Veneza\u201d, falando sobre a solid\u00e3o, diz: \u201cA solid\u00e3o mostra o original, a beleza ousada e surpreendente, a poesia. Mas a solid\u00e3o tamb\u00e9m mostra o avesso, o desproporcionado, o absurdo e o il\u00edcito\u201d. Em resumo, digo eu: por que raz\u00e3o essas not\u00edcias mostram ser necess\u00e1rio que as pessoas se apartem, que ocorram cataclismos ou grandes traumas, para descobrirem a necessidade de ficar pr\u00f3ximas? O que nos leva a, quase sempre, n\u00e3o enxergar a pessoa que est\u00e1 ali ao lado, seja amor, amigo ou parente? O que nos torna indiferentes ao j\u00e1 conquistado ou a quem sempre est\u00e1 dispon\u00edvel? Qual a cegueira ou descaso que parece dominar as rela\u00e7\u00f5es duradouras? Nem todos precisam ficar presos em uma mina para que descubram seus sentimentos.<br \/>\nEnfim, voc\u00ea acredita que essas cartas s\u00e3o frutos do amor ou apenas refletem a solid\u00e3o e a apreens\u00e3o de quem se imagina pr\u00f3ximo da morte, no caso de G\u00f3mez, ou da poss\u00edvel iminente viuvez de Lilianet? Quando estiverem juntos, refeitos da dor, ser\u00e3o maduros para o reencontro afetivo que prometem? <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03\/09\/2010.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3245","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3245","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3245"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3245\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3245"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3245"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3245"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}