{"id":3253,"date":"2023-12-21T09:10:41","date_gmt":"2023-12-21T12:10:41","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-tempo-e-o-espelho-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:41","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:41","slug":"o-tempo-e-o-espelho-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-tempo-e-o-espelho-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"O TEMPO E O ESPELHO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cQuanto mais envelhe\u00e7o, tanto mais desconfio da cren\u00e7a comum de que a idade traz sabedoria\u201d H.L. Mencken<br \/>\nPara todos, o dia tem 24 horas. Temos um rel\u00f3gio incrustado em algum lugar de nossa mente que sempre confirma o passar do tempo. Cada segundo \u00e9 tempo diminu\u00eddo da nossa conta-corrente de vida. N\u00e3o h\u00e1 como pedir tempo, como se estiv\u00e9ssemos jogando uma partida de v\u00f4lei, futebol de sal\u00e3o ou basquete. O jogo n\u00e3o tem sequer intervalos. As noites insones, e as de sono inquieto ou profundo, tamb\u00e9m s\u00e3o lan\u00e7adas no passivo da vida. Assim, a cada dia, vamos saindo do ber\u00e7o, dos cueiros, para o engatinhar, cair, levantar, andar e da\u00ed sair para a escola, a faculdade, o trabalho, a vida a dois, a solid\u00e3o desejada ou auto-imposta pelas circunst\u00e2ncias.<br \/>\nHoje, 1\u00ba de outubro, se voc\u00ea n\u00e3o sabe, \u00e9 o dia consagrado ao idoso, em face do Estatuto nacional que regula e presume proteger as suas rela\u00e7\u00f5es com a sociedade. Mas, afinal, o que \u00e9 ser idoso? Ser\u00e1 a diminui\u00e7\u00e3o das faculdades vitais ou a expuls\u00e3o, por decurso de prazo, do mercado de trabalho? Ser\u00e1 o limiar do desengano? O ponto do n\u00e3o retorno? A aus\u00eancia de objetivos? A perda do vi\u00e7o ainda existente em \u00e1rvores centen\u00e1rias? A n\u00e3o obriga\u00e7\u00e3o de fazer? Ou o desamparo sentido ao olhar o tempo perdido? N\u00e3o o po\u00e9tico andamento proustiano, mas a fala n\u00e3o dita, a atitude n\u00e3o tomada, a posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o assumida, o perd\u00e3o n\u00e3o obtido, a incapacidade de se auto aceitar em frente ao espelho real, esse aliado eterno do tempo.Ele conhece a nossa face, sabe de nossas rugas, v\u00ea os olhos mudando de dioptrias, repara na curvatura das sobrancelhas, n\u00e3o esconde os vincos do pesco\u00e7o e o cair dos cabelos que se tornam cinza e em brancos se findam. Mas, o que \u00e9 um espelho? Socorro-me de Clarice Lispector: \u201c\u00c9 o \u00fanico material inventado que \u00e9 natural. Quem olha um espelho, quem consegue v\u00ea-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade consiste em ele ser vazio&#8230; esse algu\u00e9m percebe o mist\u00e9rio da coisa\u201d.<br \/>\nPor outro lado, estar idoso \u00e9 ter a dimens\u00e3o da finitude, de traduzir a vida n\u00e3o como trag\u00e9dia, com\u00e9dia ou farsa, mas como uma seq\u00fc\u00eancia de atos que praticamos por nossa pr\u00f3pria vontade, heran\u00e7a gen\u00e9tica ou dos costumes, bons ou maus, adquiridos no compasso ou sincopado das rela\u00e7\u00f5es humanas.<br \/>\nEstar maduro, idoso, n\u00e3o \u00e9 m\u00e9rito, embora ningu\u00e9m deseje morrer jovem. Estar idoso pode ser pr\u00eamio ou maldi\u00e7\u00e3o. Depende, sempre, da terra que aramos, das sementes plantadas, da rega que fizemos e do cuidado com as ervas daninhas. Hoje, neste dia dedicado aos maiores de sessenta anos, \u00e9 preciso que todos n\u00f3s, idosos e os que os cercam, bem como os que, com ou sem raz\u00e3o, os abandonaram, coloquem a pesar os pratos das contas-correntes que forjam a balan\u00e7a da vida e tirem suas conclus\u00f5es. Sem esquecer nunca que voc\u00ea \u00e9 o que sente ou o que deixa ser plantado em sua mente que, quase sempre, mente.<br \/>\nDedicado a Francisco Lima Freitas, ativo e capaz, na pista oitentona.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01\/10\/2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cQuanto mais envelhe\u00e7o, tanto mais desconfio da cren\u00e7a comum de que a idade traz sabedoria\u201d H.L. Mencken<br \/>\nPara todos, o dia tem 24 horas. Temos um rel\u00f3gio incrustado em algum lugar de nossa mente que sempre confirma o passar do tempo. Cada segundo \u00e9 tempo diminu\u00eddo da nossa conta-corrente de vida. N\u00e3o h\u00e1 como pedir tempo, como se estiv\u00e9ssemos jogando uma partida de v\u00f4lei, futebol de sal\u00e3o ou basquete. O jogo n\u00e3o tem sequer intervalos. As noites insones, e as de sono inquieto ou profundo, tamb\u00e9m s\u00e3o lan\u00e7adas no passivo da vida. Assim, a cada dia, vamos saindo do ber\u00e7o, dos cueiros, para o engatinhar, cair, levantar, andar e da\u00ed sair para a escola, a faculdade, o trabalho, a vida a dois, a solid\u00e3o desejada ou auto-imposta pelas circunst\u00e2ncias.<br \/>\nHoje, 1\u00ba de outubro, se voc\u00ea n\u00e3o sabe, \u00e9 o dia consagrado ao idoso, em face do Estatuto nacional que regula e presume proteger as suas rela\u00e7\u00f5es com a sociedade. Mas, afinal, o que \u00e9 ser idoso? Ser\u00e1 a diminui\u00e7\u00e3o das faculdades vitais ou a expuls\u00e3o, por decurso de prazo, do mercado de trabalho? Ser\u00e1 o limiar do desengano? O ponto do n\u00e3o retorno? A aus\u00eancia de objetivos? 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