{"id":3265,"date":"2023-12-21T09:10:41","date_gmt":"2023-12-21T12:10:41","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-poesia-de-barros-pinho-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:41","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:41","slug":"a-poesia-de-barros-pinho-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-poesia-de-barros-pinho-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"A POESIA DE BARROS PINHO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Dizia Madame de Sta\u00ebl, escritora francesa dos anos oitocentos, que a poesia \u00e9 a linguagem natural de todos os cultos. Bem mais cedo, Ov\u00eddio, vivido no ent\u00e3o Imp\u00e9rio Romando, asseverava que a poesia nasce simples de uma mente serena. O livro \u201cPoemas para orvalhar o outono\u201d, de Jos\u00e9 Maria Barros Pinho, parece merecer as duas observa\u00e7\u00f5es acima. Barros Pinho, administrador, professor, pol\u00edtico e, acima de tudo, poeta, \u00e9 uma dessas pessoas diferenciadas em seu jeito incisivo, retra\u00eddo \u2013 quando necess\u00e1rio -, ardente, c\u00e1lido, prestativo e sabe que veio ao mundo com miss\u00f5es m\u00faltiplas. Vejam-no: \u201co com\u00e9rcio\/faz a festa da vitrine\/nos olhos dos meninos\/o oper\u00e1rio\/desfila na fila do governo\/sob a pl\u00e1cida complac\u00eancia\/na espera eterna\/da bondade burocr\u00e1tica\/nas ruas\/a vida\/ \u00e9 uma m\u00e1quina\u201d.<br \/>\nA capacidade de s\u00edntese \u00e9 a caracter\u00edstica deste registro po\u00e9tico que tamb\u00e9m n\u00e3o deixa de ser uma cr\u00f4nica, um relato social. Rimbaud, um dos maiores poetas de todos os tempos, afirmava: \u201cDigo que o poeta precisa ser vidente, far-se vidente. O poeta se faz vidente mediante uma longa, imensa e pensada desordem de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele busca a si mesmo, esgota em si todos os venenos, para conservar apenas as quinta-ess\u00eancias. Inef\u00e1vel fartura em que tem necessidade de toda a f\u00e9, de toda a for\u00e7a sobre-humana, em que se torna o grande doente dentre todos, o grande criminoso, o grande maldito \u2013 e o supremo s\u00e1bio\u201d.<br \/>\nTudo o que Rimbaud disse est\u00e1 inscrito na sele\u00e7\u00e3o dos setenta poemas de Barros Pinho escolhidos para este livro que o revela por inteiro. As mem\u00f3rias, essas que voltam sem ser chamadas, est\u00e3o no poema O velho longe do Rio: \u201cmeu av\u00f4 morreu\/na chapada da dist\u00e2ncia\/procurando a lua de olhos\/vivos no rio o rio mais\/longe de sua vontade\/as m\u00e3os sem carne\/ os p\u00e9s sem perfume\/a rastejar fantasmas\/na superf\u00edcie das pedras\/o engenho abrigo do tempo\/moendo moendo seus ossos\/ossos no destino do vento\/vento vento outro vento\/n\u00e3o o vento de sua terra\/hoje passa montado no cavalo\/ arco-\u00edris pelos c\u00e9us e as esporas\/ a rasgar as nuvens da chuva\u201d. Belo, contundente.<br \/>\nJ. Ortega y Gasset, fil\u00f3sofo espanhol quase contempor\u00e2neo, pois morto em 1955, admitia que n\u00e3o se pode dizer que o poeta persiga a verdade, visto que a cria. Assim, tem sido a poesia de Barros Pinho. Gera, metaforicamente, as suas verdades, mostrando ou camuflando as suas dores, fazendo de seus versos s\u00edstoles e di\u00e1stoles. Consegue sintetizar tudo, assim: \u201co rio encheu\/os olhos\/do menino\/cheio de espanto\/a menina\/encheu-lhe a vida\/de paralelas\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26\/11\/2010<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizia Madame de Sta\u00ebl, escritora francesa dos anos oitocentos, que a poesia \u00e9 a linguagem natural de todos os cultos. Bem mais cedo, Ov\u00eddio, vivido no ent\u00e3o Imp\u00e9rio Romando, asseverava que a poesia nasce simples de uma mente serena. O livro \u201cPoemas para orvalhar o outono\u201d, de Jos\u00e9 Maria Barros Pinho, parece merecer as duas observa\u00e7\u00f5es acima. Barros Pinho, administrador, professor, pol\u00edtico e, acima de tudo, poeta, \u00e9 uma dessas pessoas diferenciadas em seu jeito incisivo, retra\u00eddo \u2013 quando necess\u00e1rio -, ardente, c\u00e1lido, prestativo e sabe que veio ao mundo com miss\u00f5es m\u00faltiplas. Vejam-no: \u201co com\u00e9rcio\/faz a festa da vitrine\/nos olhos dos meninos\/o oper\u00e1rio\/desfila na fila do governo\/sob a pl\u00e1cida complac\u00eancia\/na espera eterna\/da bondade burocr\u00e1tica\/nas ruas\/a vida\/ \u00e9 uma m\u00e1quina\u201d.<br \/>\nA capacidade de s\u00edntese \u00e9 a caracter\u00edstica deste registro po\u00e9tico que tamb\u00e9m n\u00e3o deixa de ser uma cr\u00f4nica, um relato social. Rimbaud, um dos maiores poetas de todos os tempos, afirmava: \u201cDigo que o poeta precisa ser vidente, far-se vidente. O poeta se faz vidente mediante uma longa, imensa e pensada desordem de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele busca a si mesmo, esgota em si todos os venenos, para conservar apenas as quinta-ess\u00eancias. Inef\u00e1vel fartura em que tem necessidade de toda a f\u00e9, de toda a for\u00e7a sobre-humana, em que se torna o grande doente dentre todos, o grande criminoso, o grande maldito \u2013 e o supremo s\u00e1bio\u201d.<br \/>\nTudo o que Rimbaud disse est\u00e1 inscrito na sele\u00e7\u00e3o dos setenta poemas de Barros Pinho escolhidos para este livro que o revela por inteiro. As mem\u00f3rias, essas que voltam sem ser chamadas, est\u00e3o no poema O velho longe do Rio: \u201cmeu av\u00f4 morreu\/na chapada da dist\u00e2ncia\/procurando a lua de olhos\/vivos no rio o rio mais\/longe de sua vontade\/as m\u00e3os sem carne\/ os p\u00e9s sem perfume\/a rastejar fantasmas\/na superf\u00edcie das pedras\/o engenho abrigo do tempo\/moendo moendo seus ossos\/ossos no destino do vento\/vento vento outro vento\/n\u00e3o o vento de sua terra\/hoje passa montado no cavalo\/ arco-\u00edris pelos c\u00e9us e as esporas\/ a rasgar as nuvens da chuva\u201d. Belo, contundente.<br \/>\nJ. Ortega y Gasset, fil\u00f3sofo espanhol quase contempor\u00e2neo, pois morto em 1955, admitia que n\u00e3o se pode dizer que o poeta persiga a verdade, visto que a cria. Assim, tem sido a poesia de Barros Pinho. Gera, metaforicamente, as suas verdades, mostrando ou camuflando as suas dores, fazendo de seus versos s\u00edstoles e di\u00e1stoles. Consegue sintetizar tudo, assim: \u201co rio encheu\/os olhos\/do menino\/cheio de espanto\/a menina\/encheu-lhe a vida\/de paralelas\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26\/11\/2010<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3265","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3265","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3265"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3265\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3265"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3265"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3265"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}