{"id":3271,"date":"2023-12-21T09:10:42","date_gmt":"2023-12-21T12:10:42","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/tolerancia-e-convivencia-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:42","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:42","slug":"tolerancia-e-convivencia-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/tolerancia-e-convivencia-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"TOLER\u00c2NCIA E CONVIV\u00caNCIA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>T\u00e3o logo aprendemos a falar \u00e9-nos ensinado pelos pais o qu\u00e3o importante \u00e9 saber conviver. Respeitar os mais velhos, evitar brigas com as \u201cpestinhas\u201d dos irm\u00e3os que temos; aguentar desaforos na escola, ouvir que n\u00f3s n\u00e3o correspondemos ao esfor\u00e7o, ao sacrif\u00edcio e \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o de anos e anos, faz parte do aprendizado de conviv\u00eancia da inf\u00e2ncia e juventude. Conviver bem significa ser tolerante. \u00c9 importante n\u00e3o esquecer que para ser tolerante \u00e9 preciso determinar o que \u00e9 intoler\u00e1vel. Conviver \u00e9 estabelecer limites e saber que a partir daquele ponto n\u00f3s estamos perdendo a liberdade de ser gente, de caminhar com os pr\u00f3prios p\u00e9s e assumir os defeitos em toda plenitude. Ser livre \u00e9 aceitar-se. Aceitar os outros, tudo bem, mas at\u00e9 aquele ponto em que voc\u00ea ainda tem coragem de se olhar no espelho. A conviv\u00eancia mansa e pac\u00edfica \u00e9 o ideal a ser perseguido por pessoas, fam\u00edlias, institui\u00e7\u00f5es e na\u00e7\u00f5es. Enquanto isso, as diferen\u00e7as inerentes aos seres humanos colocam farofa no ventilador e produzem estilha\u00e7os em estruturas aparentemente blindadas. Os pais, os amigos, os esposos, os filhos e a sociedade s\u00e3o todos agentes cobradores de comportamentos t\u00e3o puros quanto irreais. Cobram o que n\u00e3o oferecem em contrapartida, por n\u00e3o saberem ou n\u00e3o terem como.<br \/>\nFiquemos nos pais. H\u00e1 pais que se imaginam senhores dos destinos de seus filhos e n\u00e3o sabem que a rebeldia, o ran\u00e7o e at\u00e9 o enfrentamento inconsequente s\u00e3o meras a\u00e7\u00f5es libert\u00e1rias.<br \/>\nOs pais imaginam ser, na maioria dos casos, supridores das necessidades de seus filhos.<br \/>\nO grande problema \u00e9 que as pessoas n\u00e3o vivem para as suas necessidades e sim para os seus desejos. Os desejos fazem as pessoas ser livres da ditadura do afeto que nos chantageia com a oferta do necess\u00e1rio. Parece que foi Shakespeare quem disse que \u201co homem \u00e9 um ser complexo\u201d e \u00e9 essa complexidade que move o mundo. S\u00e3o os diferentes, os que saem do quadrado, da mesmice e fogem ao combinado pela mediocridade dos usos e costumes de sua \u00e9poca que constitu\u00edram e constituem a vanguarda do mundo.<br \/>\nSer pessoa \u00e9 admitir o desejo de ter uma individualidade, um misto de solid\u00e3o que nos distingue at\u00e9 dos irm\u00e3os e uma solidariedade que esbarra na liberdade do pr\u00f3ximo. Todo sofrimento n\u00e3o deixa de ser uma a\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, uma forma de aprendizado e de purga\u00e7\u00e3o. O sofrimento que nos impomos em n\u00e3o aceitar a tutela da ditadura do afeto \u00e9 um ato que nos engrandece e nos toma livres.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17\/12\/2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>T\u00e3o logo aprendemos a falar \u00e9-nos ensinado pelos pais o qu\u00e3o importante \u00e9 saber conviver. Respeitar os mais velhos, evitar brigas com as \u201cpestinhas\u201d dos irm\u00e3os que temos; aguentar desaforos na escola, ouvir que n\u00f3s n\u00e3o correspondemos ao esfor\u00e7o, ao sacrif\u00edcio e \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o de anos e anos, faz parte do aprendizado de conviv\u00eancia da inf\u00e2ncia e juventude. Conviver bem significa ser tolerante. \u00c9 importante n\u00e3o esquecer que para ser tolerante \u00e9 preciso determinar o que \u00e9 intoler\u00e1vel. Conviver \u00e9 estabelecer limites e saber que a partir daquele ponto n\u00f3s estamos perdendo a liberdade de ser gente, de caminhar com os pr\u00f3prios p\u00e9s e assumir os defeitos em toda plenitude. Ser livre \u00e9 aceitar-se. Aceitar os outros, tudo bem, mas at\u00e9 aquele ponto em que voc\u00ea ainda tem coragem de se olhar no espelho. A conviv\u00eancia mansa e pac\u00edfica \u00e9 o ideal a ser perseguido por pessoas, fam\u00edlias, institui\u00e7\u00f5es e na\u00e7\u00f5es. Enquanto isso, as diferen\u00e7as inerentes aos seres humanos colocam farofa no ventilador e produzem estilha\u00e7os em estruturas aparentemente blindadas. Os pais, os amigos, os esposos, os filhos e a sociedade s\u00e3o todos agentes cobradores de comportamentos t\u00e3o puros quanto irreais. Cobram o que n\u00e3o oferecem em contrapartida, por n\u00e3o saberem ou n\u00e3o terem como.<br \/>\nFiquemos nos pais. H\u00e1 pais que se imaginam senhores dos destinos de seus filhos e n\u00e3o sabem que a rebeldia, o ran\u00e7o e at\u00e9 o enfrentamento inconsequente s\u00e3o meras a\u00e7\u00f5es libert\u00e1rias.<br \/>\nOs pais imaginam ser, na maioria dos casos, supridores das necessidades de seus filhos.<br \/>\nO grande problema \u00e9 que as pessoas n\u00e3o vivem para as suas necessidades e sim para os seus desejos. Os desejos fazem as pessoas ser livres da ditadura do afeto que nos chantageia com a oferta do necess\u00e1rio. Parece que foi Shakespeare quem disse que \u201co homem \u00e9 um ser complexo\u201d e \u00e9 essa complexidade que move o mundo. S\u00e3o os diferentes, os que saem do quadrado, da mesmice e fogem ao combinado pela mediocridade dos usos e costumes de sua \u00e9poca que constitu\u00edram e constituem a vanguarda do mundo.<br \/>\nSer pessoa \u00e9 admitir o desejo de ter uma individualidade, um misto de solid\u00e3o que nos distingue at\u00e9 dos irm\u00e3os e uma solidariedade que esbarra na liberdade do pr\u00f3ximo. Todo sofrimento n\u00e3o deixa de ser uma a\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, uma forma de aprendizado e de purga\u00e7\u00e3o. O sofrimento que nos impomos em n\u00e3o aceitar a tutela da ditadura do afeto \u00e9 um ato que nos engrandece e nos toma livres.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17\/12\/2010.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3271","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3271","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3271"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3271\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3271"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3271"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3271"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}