{"id":3273,"date":"2023-12-21T09:10:42","date_gmt":"2023-12-21T12:10:42","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/natal-revisitado-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:42","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:42","slug":"natal-revisitado-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/natal-revisitado-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"NATAL REVISITADO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 acreditei em Papai Noel. J\u00e1 fiz cartinha pedindo presentes e acordava cedinho para ver se tinha ganhado. Aos quatro anos, no Jardim da Inf\u00e2ncia, arrisquei e declamei \u00e0 v\u00e9spera do Natal: \u201cHoje \u00e9 Noite de Natal, ningu\u00e9m se deita em colch\u00e3o, pois nasceu o menino Deus entre palhinhas no ch\u00e3o\u201d.<br \/>\nJ\u00e1 assisti ao Pastoril, com todo o peso das tradi\u00e7\u00f5es e a brejeirice de nossa juventude. J\u00e1 me embeveci com pres\u00e9pios e lapinhas. Pobres e ricos, rid\u00edculos ou adequados aos costumes, est\u00e1ticos, mec\u00e2nicos ou movidos \u00e0 energia. Lapinhas com tudo o que voc\u00ea possa imaginar. Umas at\u00e9 com avi\u00f5es e barcos sobre espelhos d\u2019\u00e1gua feitos de restos de vidro. Lapinhas com as luzes acendendo e um trenzinho apitando ao redor do pres\u00e9pio para a gl\u00f3ria do presepista (ou seria presepeiro?) e del\u00edrio dos meninos que olhavam deslumbrados.<br \/>\nJ\u00e1 fui a muitas missas do Galo, celebradas \u00e0 meia-noite do dia 24 para 25 de dezembro. A ceia era servida mais cedo e l\u00e1 se ia toda a fam\u00edlia com missais e ter\u00e7os rezar contrita a pedir gra\u00e7as aos c\u00e9us. Nessa \u00e9poca, os perus n\u00e3o eram vendidos prontinhos como os de hoje. Desde novembro come\u00e7ava a engorda dos perus trazidos do interior que serviriam de adorno para o centro da mesa e saciariam os apetites vorazes de adultos e crian\u00e7as. Os perus eram recheados com farofa, ameixas, azeitonas e assados na padaria pr\u00f3xima ou nos poucos fornos que existiam nas casas.<br \/>\nO tempo foi passando e a lapinha e o pres\u00e9pio cedendo espa\u00e7o para as \u00e1rvores de Natal. Umas pequeninas, mirradas at\u00e9, feitas de galhos secos cobertos com algod\u00e3o e papel crepom. Outras j\u00e1 compradas com estrutura de ferro e com umas luzinhas mixurucas. De uns anos para c\u00e1 surgiram as \u00e1rvores de Natal importadas, de todos os tamanhos e para todos os gostos com l\u00e2mpadas multicores e m\u00fasicas, adornadas nas suas bases com caixas e pacotes, vazios ou cheios, \u00e0 guisa de presentes para serem trocados ap\u00f3s a ceia.<br \/>\nAs missas de Natal ou do Galo foram saindo de moda e, talvez por causa dos assaltos, passaram a ser mais cedo com uma quantidade m\u00ednima de fi\u00e9is. Os padres celebram com o olho no rel\u00f3gio, preocupados.<br \/>\nHoje as coisas mudam com a vertigem da inform\u00e1tica e das comunica\u00e7\u00f5es por sat\u00e9lites que acionam os canais de televis\u00e3o e estes nos bombardeiam com vis\u00f5es mis de natais com neve, natais com enchentes e terremotos, natais com guerras e armist\u00edcios, natais com ceias pantagru\u00e9licas, natais com fome.<br \/>\nN\u00e3o pensem que estou sendo saudosista. \u00c9 que o Natal nos remete ao passado com todas as suas lembran\u00e7as e nos d\u00e1 alento para procurar um pouco da f\u00e9 que j\u00e1 tivemos. O Natal faz as pessoas ficarem mais mansas como, ali\u00e1s, deveriam ser o ano inteiro. O Natal produz o milagre das comunica\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas entre pessoas queridas que se quedam distantes e se aproximam com o calor de seus esp\u00edritos e se despojam das coura\u00e7as que as revestem na luta insana do dia-a-dia.<br \/>\nO Natal pode at\u00e9 nos fazer um pouco piegas, meio bobos e de olhos marejados de l\u00e1grimas, quando n\u00e3o podemos dizer, de cora\u00e7\u00e3o aberto, Feliz Natal a todos os que amamos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24\/12\/2010<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 acreditei em Papai Noel. J\u00e1 fiz cartinha pedindo presentes e acordava cedinho para ver se tinha ganhado. Aos quatro anos, no Jardim da Inf\u00e2ncia, arrisquei e declamei \u00e0 v\u00e9spera do Natal: \u201cHoje \u00e9 Noite de Natal, ningu\u00e9m se deita em colch\u00e3o, pois nasceu o menino Deus entre palhinhas no ch\u00e3o\u201d.<br \/>\nJ\u00e1 assisti ao Pastoril, com todo o peso das tradi\u00e7\u00f5es e a brejeirice de nossa juventude. J\u00e1 me embeveci com pres\u00e9pios e lapinhas. Pobres e ricos, rid\u00edculos ou adequados aos costumes, est\u00e1ticos, mec\u00e2nicos ou movidos \u00e0 energia. Lapinhas com tudo o que voc\u00ea possa imaginar. Umas at\u00e9 com avi\u00f5es e barcos sobre espelhos d\u2019\u00e1gua feitos de restos de vidro. Lapinhas com as luzes acendendo e um trenzinho apitando ao redor do pres\u00e9pio para a gl\u00f3ria do presepista (ou seria presepeiro?) e del\u00edrio dos meninos que olhavam deslumbrados.<br \/>\nJ\u00e1 fui a muitas missas do Galo, celebradas \u00e0 meia-noite do dia 24 para 25 de dezembro. A ceia era servida mais cedo e l\u00e1 se ia toda a fam\u00edlia com missais e ter\u00e7os rezar contrita a pedir gra\u00e7as aos c\u00e9us. Nessa \u00e9poca, os perus n\u00e3o eram vendidos prontinhos como os de hoje. Desde novembro come\u00e7ava a engorda dos perus trazidos do interior que serviriam de adorno para o centro da mesa e saciariam os apetites vorazes de adultos e crian\u00e7as. Os perus eram recheados com farofa, ameixas, azeitonas e assados na padaria pr\u00f3xima ou nos poucos fornos que existiam nas casas.<br \/>\nO tempo foi passando e a lapinha e o pres\u00e9pio cedendo espa\u00e7o para as \u00e1rvores de Natal. Umas pequeninas, mirradas at\u00e9, feitas de galhos secos cobertos com algod\u00e3o e papel crepom. Outras j\u00e1 compradas com estrutura de ferro e com umas luzinhas mixurucas. De uns anos para c\u00e1 surgiram as \u00e1rvores de Natal importadas, de todos os tamanhos e para todos os gostos com l\u00e2mpadas multicores e m\u00fasicas, adornadas nas suas bases com caixas e pacotes, vazios ou cheios, \u00e0 guisa de presentes para serem trocados ap\u00f3s a ceia.<br \/>\nAs missas de Natal ou do Galo foram saindo de moda e, talvez por causa dos assaltos, passaram a ser mais cedo com uma quantidade m\u00ednima de fi\u00e9is. Os padres celebram com o olho no rel\u00f3gio, preocupados.<br \/>\nHoje as coisas mudam com a vertigem da inform\u00e1tica e das comunica\u00e7\u00f5es por sat\u00e9lites que acionam os canais de televis\u00e3o e estes nos bombardeiam com vis\u00f5es mis de natais com neve, natais com enchentes e terremotos, natais com guerras e armist\u00edcios, natais com ceias pantagru\u00e9licas, natais com fome.<br \/>\nN\u00e3o pensem que estou sendo saudosista. \u00c9 que o Natal nos remete ao passado com todas as suas lembran\u00e7as e nos d\u00e1 alento para procurar um pouco da f\u00e9 que j\u00e1 tivemos. O Natal faz as pessoas ficarem mais mansas como, ali\u00e1s, deveriam ser o ano inteiro. O Natal produz o milagre das comunica\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas entre pessoas queridas que se quedam distantes e se aproximam com o calor de seus esp\u00edritos e se despojam das coura\u00e7as que as revestem na luta insana do dia-a-dia.<br \/>\nO Natal pode at\u00e9 nos fazer um pouco piegas, meio bobos e de olhos marejados de l\u00e1grimas, quando n\u00e3o podemos dizer, de cora\u00e7\u00e3o aberto, Feliz Natal a todos os que amamos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24\/12\/2010<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3273","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3273","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3273"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3273\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3273"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3273"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3273"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}