{"id":3292,"date":"2023-12-21T09:10:42","date_gmt":"2023-12-21T12:10:42","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-que-e-poesia-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:42","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:42","slug":"o-que-e-poesia-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-que-e-poesia-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"O QUE \u00c9 POESIA? &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Escrevo para lembrar que amanh\u00e3, 14 de mar\u00e7o, \u00e9 o Dia Nacional da Poesia, criado em homenagem ao poeta Ant\u00f4nio Frederico de Castro Alves, nascido nesse dia, em 1847, e morto aos 24 anos. Era o poeta da aboli\u00e7\u00e3o ou dos escravos, por sua indigna\u00e7\u00e3o contra o com\u00e9rcio de pessoas negras que, no S\u00e9culo XIX, enriqueceu muitas fam\u00edlias aqui no Brasil. N\u00e3o sei bem o que \u00e9 poesia. Como dizia o escritor russo, P.G. Antokolski, \u201ca poesia n\u00e3o responde, questiona\u201d. Acredito, portanto, que possa fazer um esfor\u00e7o para tentar (in) defini-la. Tem gente que pensa poesia como receita de bolo. Bastaria juntar capacidade de escrever em uma linguagem diferenciada, saber expressar emo\u00e7\u00e3o, ritmo e rimar com cad\u00eancia, m\u00e9trica, e ter-se-ia um poeta. Poesia, entretanto, \u00e9 mais que isso. A tessitura de um poema passa por fios est\u00e9ticos, usando-se ou n\u00e3o recursos formais de estilo. Poesia passa pela transfigura\u00e7\u00e3o da ess\u00eancia das palavras, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Madame de Stael, escritora francesa do s\u00e9culo XVIII, dizia que poesia \u201c\u00e9 a linguagem natural de todos os cultos\u201d. Essa \u00e9 uma defini\u00e7\u00e3o elitista e simplista. Talvez a do poeta americano, do s\u00e9culo passado, T.S. Eliot, seja mais abrangente \u201cA poesia n\u00e3o \u00e9 um modo de liberar a emo\u00e7\u00e3o, mas uma fuga da emo\u00e7\u00e3o; n\u00e3o \u00e9 uma express\u00e3o da pr\u00f3pria personalidade, mas uma fuga da personalidade\u201d. Assim \u00e9 que n\u00e3o seriam, necessariamente, poetas, mesmo que em versos metrificados e com met\u00e1foras, os que tratam de suas pr\u00f3prias vidas, da morte, do devaneio, do isolamento, os tidos como poetas existenciais. Tampouco seriam poetas, de pronto, os apenas rom\u00e2nticos, os que falam de suas emo\u00e7\u00f5es; e os que se preocupam com o mundo, tidos como poetas sociais, a evocar quest\u00f5es igualit\u00e1rias e pol\u00edticas. N\u00e3o sei, s\u00e9rio. Deixo, com voc\u00eas, dois textos, sem o nome do autor: \u201cAceitar o barco do sonho, pisar o ch\u00e3o da ilus\u00e3o, sem esquecer a aurora, sem domar a gula, transgredindo, esperan\u00e7ando, devorando, roendo, voando, solo ou n\u00e3o\u201d. Poesia? Segundo texto: \u201cEntre al\u00e7as, cal\u00e7as p\u00e9s nus e a \u00e1gua corre, irrigando o ch\u00e3o, marcando o passo, em descompasso, p\u00e9treo, v\u00edtreo e a r\u00e9stia vista assombra a luz, seca a \u00e1gua e os passos usurpam.\u201d Seria poesia? Decida voc\u00ea, sem esquecer que as regras, quase sempre, destroem a arte. E poesia \u00e9 arte. E, como cita Ferreira Gullar, a arte existe porque s\u00f3 a vida n\u00e3o basta. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13\/03\/2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrevo para lembrar que amanh\u00e3, 14 de mar\u00e7o, \u00e9 o Dia Nacional da Poesia, criado em homenagem ao poeta Ant\u00f4nio Frederico de Castro Alves, nascido nesse dia, em 1847, e morto aos 24 anos. Era o poeta da aboli\u00e7\u00e3o ou dos escravos, por sua indigna\u00e7\u00e3o contra o com\u00e9rcio de pessoas negras que, no S\u00e9culo XIX, enriqueceu muitas fam\u00edlias aqui no Brasil. N\u00e3o sei bem o que \u00e9 poesia. Como dizia o escritor russo, P.G. Antokolski, \u201ca poesia n\u00e3o responde, questiona\u201d. Acredito, portanto, que possa fazer um esfor\u00e7o para tentar (in) defini-la. Tem gente que pensa poesia como receita de bolo. Bastaria juntar capacidade de escrever em uma linguagem diferenciada, saber expressar emo\u00e7\u00e3o, ritmo e rimar com cad\u00eancia, m\u00e9trica, e ter-se-ia um poeta. Poesia, entretanto, \u00e9 mais que isso. A tessitura de um poema passa por fios est\u00e9ticos, usando-se ou n\u00e3o recursos formais de estilo. Poesia passa pela transfigura\u00e7\u00e3o da ess\u00eancia das palavras, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Madame de Stael, escritora francesa do s\u00e9culo XVIII, dizia que poesia \u201c\u00e9 a linguagem natural de todos os cultos\u201d. Essa \u00e9 uma defini\u00e7\u00e3o elitista e simplista. Talvez a do poeta americano, do s\u00e9culo passado, T.S. Eliot, seja mais abrangente \u201cA poesia n\u00e3o \u00e9 um modo de liberar a emo\u00e7\u00e3o, mas uma fuga da emo\u00e7\u00e3o; n\u00e3o \u00e9 uma express\u00e3o da pr\u00f3pria personalidade, mas uma fuga da personalidade\u201d. Assim \u00e9 que n\u00e3o seriam, necessariamente, poetas, mesmo que em versos metrificados e com met\u00e1foras, os que tratam de suas pr\u00f3prias vidas, da morte, do devaneio, do isolamento, os tidos como poetas existenciais. Tampouco seriam poetas, de pronto, os apenas rom\u00e2nticos, os que falam de suas emo\u00e7\u00f5es; e os que se preocupam com o mundo, tidos como poetas sociais, a evocar quest\u00f5es igualit\u00e1rias e pol\u00edticas. N\u00e3o sei, s\u00e9rio. 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