{"id":3299,"date":"2023-12-21T09:10:42","date_gmt":"2023-12-21T12:10:42","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/machado-ja-dizia-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:42","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:42","slug":"machado-ja-dizia-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/machado-ja-dizia-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"MACHADO J\u00c1 DIZIA &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Estou passando dois anos como presidente de uma academia de letras. A festa de posse foi bonita. Discursos feitos, inclusive promessas. Depois, vem a realidade nua e crua do dia-a-dia. A academia tem despesas a pagar, sess\u00f5es a cumprir, revistas e livros a publicar, realizar concursos liter\u00e1rios oferecendo pr\u00eamios, mas falta dinheiro, a vil moeda que n\u00e3o frequenta as arcas da maioria das academias. A primeira ideia \u00e9 procurar Mecenas. Algu\u00e9m que tem dinheiro e pode dar um pouco do que lhe sobra. Hoje, o dinheiro escasseia. Os tempos, parcos. E os verdadeiros Mecenas, raros. Outra ideia \u00e9 procurar as leis de incentivo cultural, quer no Munic\u00edpio, Estado ou Uni\u00e3o. A\u00ed entram um cipoal de certid\u00f5es, documentos, reuni\u00f5es, estudos, projetos, contador a fazer balan\u00e7o e demonstra\u00e7\u00f5es financeiras. O que era letra vira n\u00famero. Os projetos demoram a ser feitos, analisados burocraticamente, os agentes p\u00fablicos que os liberam t\u00eam cargos de confian\u00e7a e, vez por outra, s\u00e3o mudados. A\u00ed tudo recome\u00e7a. Por outro lado, como acad\u00eamicos s\u00e3o vital\u00edcios e imortais, alguns n\u00e3o se sentem motivados a comparecer \u00e0s sess\u00f5es. Cada reuni\u00e3o \u00e9 precedida de correspond\u00eancia, e-mails e telefonemas. Mesmo assim, o comparecimento \u00e9 baixo. \u00c9 h\u00e1 imprevistos como afazeres, doen\u00e7as, viagens, e h\u00e1 a falta de seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e0 noite no centro da cidade. O que \u00e9 verdade. Soube que Machado de Assis, fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, agradecia quando a presen\u00e7a atingia a dois d\u00edgitos. Como se sabe, dois d\u00edgitos se contam a partir do numeral 10. \u00c9 preciso esclarecer que as academias seguem o modelo da Academia Francesa e tem 40 membros. Ora, se dez comparecem, s\u00f3 25% da sua for\u00e7a vital est\u00e1 presente. Mesmo assim, \u00e9 um feito. Este relato \u00e9 para mostrar aos leitores, \u00e0 sociedade e \u00e0s autoridades p\u00fablicas que as academias precisam ser vistas n\u00e3o como uma reuni\u00e3o de pessoas exc\u00eantricas que adoram ler livros, falar, escrever em prosa e versos e, na sua maioria, tem c\u00e3s. As academias, apesar de todos esses problemas, s\u00e3o fontes geradoras de saber continuado e sem elas o mundo ficaria mais pobre, pois amar a leitura e a cultura \u00e9 fugir de uma cegueira existencial.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 05\/04\/2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou passando dois anos como presidente de uma academia de letras. A festa de posse foi bonita. Discursos feitos, inclusive promessas. Depois, vem a realidade nua e crua do dia-a-dia. A academia tem despesas a pagar, sess\u00f5es a cumprir, revistas e livros a publicar, realizar concursos liter\u00e1rios oferecendo pr\u00eamios, mas falta dinheiro, a vil moeda que n\u00e3o frequenta as arcas da maioria das academias. A primeira ideia \u00e9 procurar Mecenas. Algu\u00e9m que tem dinheiro e pode dar um pouco do que lhe sobra. Hoje, o dinheiro escasseia. Os tempos, parcos. E os verdadeiros Mecenas, raros. Outra ideia \u00e9 procurar as leis de incentivo cultural, quer no Munic\u00edpio, Estado ou Uni\u00e3o. A\u00ed entram um cipoal de certid\u00f5es, documentos, reuni\u00f5es, estudos, projetos, contador a fazer balan\u00e7o e demonstra\u00e7\u00f5es financeiras. O que era letra vira n\u00famero. Os projetos demoram a ser feitos, analisados burocraticamente, os agentes p\u00fablicos que os liberam t\u00eam cargos de confian\u00e7a e, vez por outra, s\u00e3o mudados. A\u00ed tudo recome\u00e7a. Por outro lado, como acad\u00eamicos s\u00e3o vital\u00edcios e imortais, alguns n\u00e3o se sentem motivados a comparecer \u00e0s sess\u00f5es. Cada reuni\u00e3o \u00e9 precedida de correspond\u00eancia, e-mails e telefonemas. Mesmo assim, o comparecimento \u00e9 baixo. \u00c9 h\u00e1 imprevistos como afazeres, doen\u00e7as, viagens, e h\u00e1 a falta de seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e0 noite no centro da cidade. O que \u00e9 verdade. Soube que Machado de Assis, fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, agradecia quando a presen\u00e7a atingia a dois d\u00edgitos. Como se sabe, dois d\u00edgitos se contam a partir do numeral 10. \u00c9 preciso esclarecer que as academias seguem o modelo da Academia Francesa e tem 40 membros. Ora, se dez comparecem, s\u00f3 25% da sua for\u00e7a vital est\u00e1 presente. Mesmo assim, \u00e9 um feito. Este relato \u00e9 para mostrar aos leitores, \u00e0 sociedade e \u00e0s autoridades p\u00fablicas que as academias precisam ser vistas n\u00e3o como uma reuni\u00e3o de pessoas exc\u00eantricas que adoram ler livros, falar, escrever em prosa e versos e, na sua maioria, tem c\u00e3s. As academias, apesar de todos esses problemas, s\u00e3o fontes geradoras de saber continuado e sem elas o mundo ficaria mais pobre, pois amar a leitura e a cultura \u00e9 fugir de uma cegueira existencial.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 05\/04\/2009.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3299","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3299","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3299"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3299\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3299"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3299"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3299"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}