{"id":3304,"date":"2023-12-21T09:10:42","date_gmt":"2023-12-21T12:10:42","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-armenia-e-o-24-de-abril-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:42","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:42","slug":"a-armenia-e-o-24-de-abril-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-armenia-e-o-24-de-abril-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"A ARM\u00caNIA E O 24 DE ABRIL &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 algumas semanas os irm\u00e3os Armen e Boghos Boyadjian, descendentes de arm\u00eanios, receberam, com suas fam\u00edlias, os membros da Sociedade Consular para uma reuni\u00e3o social. Era tempo de noite escura. Um piano de cauda, aberto, roubava a cena do sal\u00e3o com telas afixadas \u00e0s paredes. A \u00e1rea iluminada fronteiri\u00e7a \u00e0 praia mostrava, aos nossos p\u00e9s, um trapiche e o mar remansado por diques de pedras. N\u00f3s, representantes de m\u00faltiplas nacionalidades, escut\u00e1vamos m\u00fasicas cl\u00e1ssicas internacionais e as nativas da Arm\u00eania. Fez-se sil\u00eancio. Ouvimos ent\u00e3o um relato dos dramas dos antepassados dos anfitri\u00f5es quando, exato nesta data de hoje, 24 de abril, no ano de 1915, teve in\u00edcio o genoc\u00eddio de um milh\u00e3o e meio de arm\u00eanios pelo Imp\u00e9rio Otomano. Para quem n\u00e3o sabe, a Arm\u00eania \u00e9 um pequeno pa\u00eds-com menos de 30.000 km2 &#8211; situado entre o fim da Europa e o sudoeste da \u00c1sia, no que se convencionou chamar de Eur\u00e1sia. Continua vizinho da Turquia, pelo lado leste, fazendo hoje fronteira com o Ir\u00e3, o Azerbaij\u00e3o e a Ge\u00f3rgia. Esse pa\u00eds sofreu, em meio \u00e0 Primeira Guerra Mundial, um grande, desumano e longo ataque do grupo que se convencionou chamar de os Jovens Turcos. Na noite desse fat\u00eddico 24 de abril, a intelectualidade, pol\u00edticos, religiosos e profissionais de destaque arm\u00eanios foram presos na cidade de Constantinopla pelos turcos e, em seguida, brutalmente assassinados. Come\u00e7ava, nesse dia, o massacre e a fuga de arm\u00eanios que habitavam os territ\u00f3rios asi\u00e1ticos \u00e0 \u00e9poca ocupados pelos turcos. Milhares foram mortos em fuga para a Mesopot\u00e2mia, onde eram largados \u00e0 m\u00edngua. Ao fim e ao cabo, repito, segundo historiadores isentos, teriam sido mortos um milh\u00e3o e meio de pessoas. Nessa di\u00e1spora, alguns vieram ter ao Brasil e aqui criaram suas fam\u00edlias, sempre em obedi\u00eancia ao trabalho \u00e1rduo e \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3 que professam desde o s\u00e9culo IV. O que restou do povo arm\u00eanio foi sendo reintegrado, pouco a pouco, e h\u00e1 agora esperan\u00e7a de que o genoc\u00eddio seja reconhecido internacionalmente e as almas dos muitos mortos possam sossegar. Noventa e quatro anos ap\u00f3s o massacre, feridas profundas n\u00e3o foram saradas e continuam a doer. Voltando ao fio da noite: ela ouvia tudo, no seu escuro sil\u00eancio, quando, de repente, o firmamento se fez presente em forma de uma abrupta e copiosa chuva que parecia carpir o que, contritos, ouv\u00edamos. Os grossos pingos d\u2019\u00e1gua eram acompanhados de rel\u00e2mpagos e do vento forte que irrigava as nossas faces, como se l\u00e1grimas nelas estivessem sendo implantadas pela natureza. Depois, tal como havia chegado, a chuva se foi e deixou em seu v\u00e1cuo o sil\u00eancio para que queixas e compaix\u00f5es sa\u00edssem das cordas do violino plangente de Armen e do compasso forte do piano de Boghos. E n\u00f3s, estrangeiros na dor centen\u00e1ria, est\u00e1vamos impregnados de um encanto triste que, mesmo t\u00eanue, permaneceu em mim deste ent\u00e3o e me fez, exato neste 24 de abril, contar para voc\u00eas o que vivenciamos naquela noite. Salve a Arm\u00eania.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24\/04\/2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 algumas semanas os irm\u00e3os Armen e Boghos Boyadjian, descendentes de arm\u00eanios, receberam, com suas fam\u00edlias, os membros da Sociedade Consular para uma reuni\u00e3o social. Era tempo de noite escura. Um piano de cauda, aberto, roubava a cena do sal\u00e3o com telas afixadas \u00e0s paredes. A \u00e1rea iluminada fronteiri\u00e7a \u00e0 praia mostrava, aos nossos p\u00e9s, um trapiche e o mar remansado por diques de pedras. N\u00f3s, representantes de m\u00faltiplas nacionalidades, escut\u00e1vamos m\u00fasicas cl\u00e1ssicas internacionais e as nativas da Arm\u00eania. Fez-se sil\u00eancio. Ouvimos ent\u00e3o um relato dos dramas dos antepassados dos anfitri\u00f5es quando, exato nesta data de hoje, 24 de abril, no ano de 1915, teve in\u00edcio o genoc\u00eddio de um milh\u00e3o e meio de arm\u00eanios pelo Imp\u00e9rio Otomano. Para quem n\u00e3o sabe, a Arm\u00eania \u00e9 um pequeno pa\u00eds-com menos de 30.000 km2 &#8211; situado entre o fim da Europa e o sudoeste da \u00c1sia, no que se convencionou chamar de Eur\u00e1sia. Continua vizinho da Turquia, pelo lado leste, fazendo hoje fronteira com o Ir\u00e3, o Azerbaij\u00e3o e a Ge\u00f3rgia. Esse pa\u00eds sofreu, em meio \u00e0 Primeira Guerra Mundial, um grande, desumano e longo ataque do grupo que se convencionou chamar de os Jovens Turcos. Na noite desse fat\u00eddico 24 de abril, a intelectualidade, pol\u00edticos, religiosos e profissionais de destaque arm\u00eanios foram presos na cidade de Constantinopla pelos turcos e, em seguida, brutalmente assassinados. Come\u00e7ava, nesse dia, o massacre e a fuga de arm\u00eanios que habitavam os territ\u00f3rios asi\u00e1ticos \u00e0 \u00e9poca ocupados pelos turcos. Milhares foram mortos em fuga para a Mesopot\u00e2mia, onde eram largados \u00e0 m\u00edngua. Ao fim e ao cabo, repito, segundo historiadores isentos, teriam sido mortos um milh\u00e3o e meio de pessoas. Nessa di\u00e1spora, alguns vieram ter ao Brasil e aqui criaram suas fam\u00edlias, sempre em obedi\u00eancia ao trabalho \u00e1rduo e \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3 que professam desde o s\u00e9culo IV. O que restou do povo arm\u00eanio foi sendo reintegrado, pouco a pouco, e h\u00e1 agora esperan\u00e7a de que o genoc\u00eddio seja reconhecido internacionalmente e as almas dos muitos mortos possam sossegar. Noventa e quatro anos ap\u00f3s o massacre, feridas profundas n\u00e3o foram saradas e continuam a doer. Voltando ao fio da noite: ela ouvia tudo, no seu escuro sil\u00eancio, quando, de repente, o firmamento se fez presente em forma de uma abrupta e copiosa chuva que parecia carpir o que, contritos, ouv\u00edamos. Os grossos pingos d\u2019\u00e1gua eram acompanhados de rel\u00e2mpagos e do vento forte que irrigava as nossas faces, como se l\u00e1grimas nelas estivessem sendo implantadas pela natureza. Depois, tal como havia chegado, a chuva se foi e deixou em seu v\u00e1cuo o sil\u00eancio para que queixas e compaix\u00f5es sa\u00edssem das cordas do violino plangente de Armen e do compasso forte do piano de Boghos. E n\u00f3s, estrangeiros na dor centen\u00e1ria, est\u00e1vamos impregnados de um encanto triste que, mesmo t\u00eanue, permaneceu em mim deste ent\u00e3o e me fez, exato neste 24 de abril, contar para voc\u00eas o que vivenciamos naquela noite. Salve a Arm\u00eania.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24\/04\/2009.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3304","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3304","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3304"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3304\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3304"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3304"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3304"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}