{"id":3308,"date":"2023-12-21T09:10:42","date_gmt":"2023-12-21T12:10:42","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-volta-a-praca-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:42","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:42","slug":"a-volta-a-praca-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-volta-a-praca-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"A VOLTA \u00c0 PRA\u00c7A &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Estava ali parado. Sentara na pra\u00e7a de sua inf\u00e2ncia, mas n\u00e3o era a mesma. Haviam-na mudado. Ficaram o nome e a mem\u00f3ria. A prop\u00f3sito de revitaliz\u00e1-la tinham copiado um projeto estrangeiro e ela era apenas um simulacro de sua arquitetura. Ali n\u00e3o era mais o seu lugar e, paradoxalmente, o era pelas lembran\u00e7as invocadas. A primeira delas e a mais forte era a da festa popular ap\u00f3s a vit\u00f3ria da Copa do Mundo de Futebol em 29 de junho de 1958. Nessa tarde havia feito uma promessa: se o Brasil ganhasse, n\u00e3o vibraria. Iria apenas ver a alegria dos outros. Chegara \u00e0 pra\u00e7a com a m\u00e3o esquerda metida no bolso da cal\u00e7a de brim afagando as contas de um ter\u00e7o aliviando a sua f\u00e9 d\u00fabia, mas a cobrar respeito \u00e0 promessa feita. Agora, lustros passados, sentara na mesma posi\u00e7\u00e3o daquela tarde, mas o banco era outro e os transeuntes, estranhos. Pensava com os seus bot\u00f5es e admitia se encontrar entre a lembran\u00e7a do passado e o t\u00e9dio daquele involunt\u00e1rio passeio em procura de sua alma. Agora, est\u00e1 preocupado com o tempo dissipado desde aquela afastada tarde do dia de S\u00e3o Pedro. Em meio ao barulho do ir e vir das pessoas, camel\u00f4s em profus\u00e3o, sua alma se investe de sil\u00eancio e faz girar a ampulheta do tempo, gr\u00e3o a gr\u00e3o, a se esvair em sua exist\u00eancia sem grande express\u00e3o. A \u00e9poca do encantamento havia tomado outro rumo. N\u00e3o sabia bem a raz\u00e3o de estar ali, em dia da semana, ao cair da tarde. Vivia um momento trafegando entre a paz ilus\u00f3ria e o vazio da solid\u00e3o imposta pela aposentadoria e a separa\u00e7\u00e3o de corpos da mulher, levando, de rold\u00e3o, os filhos. Na sua cabe\u00e7a era 1958 outra vez e se sentia o menino refugiado no sil\u00eancio n\u00e3o compartilhado. O futuro era a porta da vida, pensara naquela tarde festiva quando todos se rejubilavam pela vit\u00f3ria na Su\u00e9cia. Agora, j\u00e1 estava no futuro e se lembrava do seu ego passado, o mesmo a acompanh\u00e1-lo at\u00e9 agora e, dentro dele, voltara \u00e0 pra\u00e7a. Ego envelhece ou permanece tal qual era? N\u00e3o sabia a resposta e isso pouco importava, pois aquilo n\u00e3o era uma equa\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica, mas existencial onde os n\u00fameros contam pouco e valem as pessoas. Limpava o sil\u00eancio do passado com as lembran\u00e7as armazenadas em seu cantil de l\u00e1grimas quando o peito se fez em fogo por uma bala perdida com dores ziguezagueadas. Tombou e ouviu o cinza do sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08\/05\/2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estava ali parado. Sentara na pra\u00e7a de sua inf\u00e2ncia, mas n\u00e3o era a mesma. Haviam-na mudado. Ficaram o nome e a mem\u00f3ria. A prop\u00f3sito de revitaliz\u00e1-la tinham copiado um projeto estrangeiro e ela era apenas um simulacro de sua arquitetura. Ali n\u00e3o era mais o seu lugar e, paradoxalmente, o era pelas lembran\u00e7as invocadas. A primeira delas e a mais forte era a da festa popular ap\u00f3s a vit\u00f3ria da Copa do Mundo de Futebol em 29 de junho de 1958. Nessa tarde havia feito uma promessa: se o Brasil ganhasse, n\u00e3o vibraria. Iria apenas ver a alegria dos outros. Chegara \u00e0 pra\u00e7a com a m\u00e3o esquerda metida no bolso da cal\u00e7a de brim afagando as contas de um ter\u00e7o aliviando a sua f\u00e9 d\u00fabia, mas a cobrar respeito \u00e0 promessa feita. Agora, lustros passados, sentara na mesma posi\u00e7\u00e3o daquela tarde, mas o banco era outro e os transeuntes, estranhos. Pensava com os seus bot\u00f5es e admitia se encontrar entre a lembran\u00e7a do passado e o t\u00e9dio daquele involunt\u00e1rio passeio em procura de sua alma. Agora, est\u00e1 preocupado com o tempo dissipado desde aquela afastada tarde do dia de S\u00e3o Pedro. Em meio ao barulho do ir e vir das pessoas, camel\u00f4s em profus\u00e3o, sua alma se investe de sil\u00eancio e faz girar a ampulheta do tempo, gr\u00e3o a gr\u00e3o, a se esvair em sua exist\u00eancia sem grande express\u00e3o. A \u00e9poca do encantamento havia tomado outro rumo. N\u00e3o sabia bem a raz\u00e3o de estar ali, em dia da semana, ao cair da tarde. Vivia um momento trafegando entre a paz ilus\u00f3ria e o vazio da solid\u00e3o imposta pela aposentadoria e a separa\u00e7\u00e3o de corpos da mulher, levando, de rold\u00e3o, os filhos. Na sua cabe\u00e7a era 1958 outra vez e se sentia o menino refugiado no sil\u00eancio n\u00e3o compartilhado. O futuro era a porta da vida, pensara naquela tarde festiva quando todos se rejubilavam pela vit\u00f3ria na Su\u00e9cia. Agora, j\u00e1 estava no futuro e se lembrava do seu ego passado, o mesmo a acompanh\u00e1-lo at\u00e9 agora e, dentro dele, voltara \u00e0 pra\u00e7a. Ego envelhece ou permanece tal qual era? 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Tombou e ouviu o cinza do sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08\/05\/2009.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3308","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3308","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3308"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3308\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3308"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3308"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3308"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}