{"id":3310,"date":"2023-12-21T09:10:43","date_gmt":"2023-12-21T12:10:43","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/sobre-a-vaidade-dos-homens-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:43","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:43","slug":"sobre-a-vaidade-dos-homens-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/sobre-a-vaidade-dos-homens-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"SOBRE A VAIDADE DOS HOMENS &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Li com aten\u00e7\u00e3o um pequeno livro. Escrito em 1752 por Mathias Aires: \u201cReflex\u00f5es sobre a vaidade dos homens\u201d \u00e9 uma excelente leitura. O t\u00edtulo parece dizer quase tudo, mas \u00e9 um ensaio filos\u00f3fico de f\u00e1cil absor\u00e7\u00e3o. Mathias Aires era brasileiro, nascido em S\u00e3o Paulo, em 1705. Adolescente, acompanhou seus pais a Portugal e l\u00e1 quase concluiu seus estudos em Coimbra, mas foi na Gal\u00edcia onde se licenciou em Artes. O livro teve a transcri\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o do Portugu\u00eas da \u00e9poca para o do nosso tempo feita por Andr\u00e9 Campos Mesquita. O autor se baseia, de partida, no trecho b\u00edblico do Eclesiastes, escrito em latim: \u201cVanitas vanitatem et omnia vanitas\u201d. Traduzindo: Vaidade das vaidades, tudo \u00e9 vaidade. \u00c9 preciso contextualizar a \u00e9poca: a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica era essencialmente cat\u00f3lica e a Inquisi\u00e7\u00e3o dominava a f\u00e9. Tanto isso \u00e9 verdade que o livro, como todas as outras produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e art\u00edsticas da \u00e9poca, precisou do aval do Santo Of\u00edcio. Havia um Qualificador da F\u00e9. No caso, o frei Marcos de Santo Antonio. Ele diz, ao conceder a licen\u00e7a: \u201cRevi por ordem de Vossas Ilustr\u00edssimas, o livro intitulado Reflex\u00f5es sobre a vaidade dos homens, que pretende imprimir seu autor Mathias Aires&#8230; parece-me n\u00e3o conter coisa que se oponha \u00e0 nossa Santa F\u00e9, ou bons costumes, e que merece lhe concedam Vossas ilustr\u00edssimas \u00e0 licen\u00e7a que pede. Esse \u00e9 o meu parecer\u201d. Como se nota, o escritor era previamente censurado, o que talvez tenha impregnado sua filosofia de \u201cdiscursos morais\u201d. De pronto, Aires afirma: \u201cTrazem os homens entre si cont\u00ednua guerra de vaidade; e conhecendo todos a vaidade alheia, nenhum conhece a sua: a vaidade \u00e9 um instrumento que tira dos nossos olhos os defeitos pr\u00f3prios, e faz com que apenas os vejamos em uma dist\u00e2ncia imensa, ao mesmo tempo que exp\u00f5em \u00e0 nossa vista os defeitos dos outros ainda mais perto, e maiores do que s\u00e3o. A nossa vaidade \u00e9 a que nos faz ser insuport\u00e1vel \u00e0 vaidade dos outros; por isso quem n\u00e3o tivesse vaidade, n\u00e3o lhe importaria nunca que os outros a tivessem\u201d. \u00c9 bom ver o autor analisar os dois lados da quest\u00e3o vaidade. Diz ele: \u201cAssim se v\u00ea que h\u00e1 v\u00edcios de que a vaidade nos preserva, e que h\u00e1 virtudes que a mesma vaidade nos ensina\u201d. Agora, vejam a parte moral: \u201cBuscamos a Deus quando o mundo n\u00e3o nos busca; se alguma ofensa nos irrita, deixamos a sociedade, n\u00e3o por arrependidos, mas por queixosos, e menos por amor a Deus, que por aborrecer os homens. A vaidade nos inspira aquele modo de vingan\u00e7a, e parece, com efeito, que deixar o mundo \u00e9 desprez\u00e1-lo. Assim ser\u00e1: mas quem deseja vingar-se ainda ama, e quem se mostra ofendido ainda quer\u201d. Essas li\u00e7\u00f5es, escritas nas trevas do s\u00e9culo XVIII, s\u00e3o t\u00e3o claras e mostram o quanto foi e \u00e9 v\u00e3o o mundo dos homens, da\u00ed parece ser verdadeiro que a vaidade \u00e9 uma forma de querer reconhecimento.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15\/05\/2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Li com aten\u00e7\u00e3o um pequeno livro. Escrito em 1752 por Mathias Aires: \u201cReflex\u00f5es sobre a vaidade dos homens\u201d \u00e9 uma excelente leitura. O t\u00edtulo parece dizer quase tudo, mas \u00e9 um ensaio filos\u00f3fico de f\u00e1cil absor\u00e7\u00e3o. Mathias Aires era brasileiro, nascido em S\u00e3o Paulo, em 1705. Adolescente, acompanhou seus pais a Portugal e l\u00e1 quase concluiu seus estudos em Coimbra, mas foi na Gal\u00edcia onde se licenciou em Artes. O livro teve a transcri\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o do Portugu\u00eas da \u00e9poca para o do nosso tempo feita por Andr\u00e9 Campos Mesquita. O autor se baseia, de partida, no trecho b\u00edblico do Eclesiastes, escrito em latim: \u201cVanitas vanitatem et omnia vanitas\u201d. Traduzindo: Vaidade das vaidades, tudo \u00e9 vaidade. \u00c9 preciso contextualizar a \u00e9poca: a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica era essencialmente cat\u00f3lica e a Inquisi\u00e7\u00e3o dominava a f\u00e9. Tanto isso \u00e9 verdade que o livro, como todas as outras produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e art\u00edsticas da \u00e9poca, precisou do aval do Santo Of\u00edcio. Havia um Qualificador da F\u00e9. No caso, o frei Marcos de Santo Antonio. Ele diz, ao conceder a licen\u00e7a: \u201cRevi por ordem de Vossas Ilustr\u00edssimas, o livro intitulado Reflex\u00f5es sobre a vaidade dos homens, que pretende imprimir seu autor Mathias Aires&#8230; parece-me n\u00e3o conter coisa que se oponha \u00e0 nossa Santa F\u00e9, ou bons costumes, e que merece lhe concedam Vossas ilustr\u00edssimas \u00e0 licen\u00e7a que pede. Esse \u00e9 o meu parecer\u201d. Como se nota, o escritor era previamente censurado, o que talvez tenha impregnado sua filosofia de \u201cdiscursos morais\u201d. De pronto, Aires afirma: \u201cTrazem os homens entre si cont\u00ednua guerra de vaidade; e conhecendo todos a vaidade alheia, nenhum conhece a sua: a vaidade \u00e9 um instrumento que tira dos nossos olhos os defeitos pr\u00f3prios, e faz com que apenas os vejamos em uma dist\u00e2ncia imensa, ao mesmo tempo que exp\u00f5em \u00e0 nossa vista os defeitos dos outros ainda mais perto, e maiores do que s\u00e3o. A nossa vaidade \u00e9 a que nos faz ser insuport\u00e1vel \u00e0 vaidade dos outros; por isso quem n\u00e3o tivesse vaidade, n\u00e3o lhe importaria nunca que os outros a tivessem\u201d. \u00c9 bom ver o autor analisar os dois lados da quest\u00e3o vaidade. Diz ele: \u201cAssim se v\u00ea que h\u00e1 v\u00edcios de que a vaidade nos preserva, e que h\u00e1 virtudes que a mesma vaidade nos ensina\u201d. Agora, vejam a parte moral: \u201cBuscamos a Deus quando o mundo n\u00e3o nos busca; se alguma ofensa nos irrita, deixamos a sociedade, n\u00e3o por arrependidos, mas por queixosos, e menos por amor a Deus, que por aborrecer os homens. A vaidade nos inspira aquele modo de vingan\u00e7a, e parece, com efeito, que deixar o mundo \u00e9 desprez\u00e1-lo. Assim ser\u00e1: mas quem deseja vingar-se ainda ama, e quem se mostra ofendido ainda quer\u201d. 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