{"id":3335,"date":"2023-12-21T09:10:43","date_gmt":"2023-12-21T12:10:43","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/euclydes-o-ceara-os-sertoes-e-a-tragedia-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:43","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:43","slug":"euclydes-o-ceara-os-sertoes-e-a-tragedia-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/euclydes-o-ceara-os-sertoes-e-a-tragedia-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"EUCLYDES, O CEAR\u00c1, OS SERT\u00d5ES E A TRAG\u00c9DIA &#8211; JORNAL O ESTADO"},"content":{"rendered":"<p>Interessar\u00e1 aos raros leitores desta coluna, inserida em caderno social, saber \u2018not\u00edcias de primeira\u2019 do fim do s\u00e9culo XIX e come\u00e7o do s\u00e9culo XX? Direi, em r\u00e1pidas pinceladas, que amanh\u00e3, 15 de agosto, faz cem anos que Euclydes da Cunha morreu. Por enquanto, respondo que Euclydes era carioca e n\u00e3o gostava de cearenses. E conto: o primeiro a quem criticou, por escrito, foi Antonio Maciel, dito Conselheiro, tecendo-lhe uma imagem sombria, preconceituosa e at\u00e9 racista. O que Ant\u00f4nio fez? Mandou-se de Quixeramobim, -onde fazia de tudo, pois ensinava e trabalhava avulso &#8211; para os cafund\u00f3s da Bahia por conta da prima e mulher Brazilina que lhe tra\u00edra. J\u00e1 observar\u00e1 o atento leitor que Euclydes era escritor. Bingo. Depois, poder\u00e1 indagar por qual raz\u00e3o ele n\u00e3o gostava do Ant\u00f4nio? Vamos l\u00e1: Euclydes fora cadete, tendo sido expulso por suas ideias republicanas, estudou engenharia, reintegrado como tenente e a mando da nov\u00edssima Rep\u00fablica Brasileira foi \u00e0 Chorroch\u00f3, Bahia, \u00e0s margens do Velho Chico, para cobrir a Guerra ou Campanha de Canudos, mortic\u00ednio de milhares de indefesos. A guerra, com Ex\u00e9rcito e tudo, partira da premissa falsa de que um mero povoado fundado e liderado por Ant\u00f4nio &#8211; que congregava e aconselhava (da\u00ed o nome conselheiro) a todos com f\u00e9 fan\u00e1tica -, amea\u00e7ava a P\u00e1tria republicana emergente. Euclydes, t\u00edsico que era, passou duas semanas entre tosses, conversas e anota\u00e7\u00f5es no local, chegando pouco antes do assass\u00ednio do Conselheiro, em 22 de setembro de 1897. Levou tamb\u00e9m, de volta ao Rio, a foto do Ant\u00f4nio morto, batida por Fl\u00e1vio de Barros, fot\u00f3grafo do Ex\u00e9rcito. (O incr\u00edvel \u00e9 como essa foto se assemelha com a do cad\u00e1ver de Che Guevara) Euclydes foi e voltou sem dar um tiro. Tiro ele deu em Dilermando Assis, cadete, o jovem e bem-apessoado amante de Ana Em\u00edlia, sua mulher. Aguardem, conto logo mais. Assim, Euclydes e Ant\u00f4nio, apesar das diverg\u00eancias sociais, tinham um ponto comum: sofreram a trai\u00e7\u00e3o das suas mulheres. Mas, esse tiro s\u00f3 ocorreria muitos anos depois. Euclydes, intelectual que era, perdeu, em 1903, o concurso para professor de L\u00f3gica do Col\u00e9gio Pedro II, no Rio, logo para outro cearense, Raimundo de Farias Brito. De pura inveja, ele disse: Farias Brito \u00e9 um \u201cpobre fil\u00f3sofo, cearense e an\u00f4nimo, autor de um livro que ningu\u00e9m leu\u201d. A palavra cearense, reparem, \u00e9 usada como pejorativo. A\u00ed, os amigos de Euclydes, do grupo positivista \u201cJardim da Inf\u00e2ncia\u201d, uma esp\u00e9cie de Clube do Bode de ent\u00e3o, deram um jeitinho e Euclydes conseguiu ser nomeado professor. Pulei, de prop\u00f3sito, o fato de que as anota\u00e7\u00f5es dele feitas nas duas semanas em Canudos geraram, em fins de 1902, o seu famoso livro: \u201cOs Sert\u00f5es\u201d, bem aceito, reeditado v\u00e1rias vezes, com venda de 10.000 exemplares. Era um n\u00famero alto para um pa\u00eds com 18 milh\u00f5es de habitantes, dos quais 95% da gente era analfabeta. Piorando da tuberculose, Euclydes foi admitido, ainda em 1903, no Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro e na Academia Brasileira de Letras. Mas, a gl\u00f3ria seria ef\u00eamera. Parece que o fantasma de Ant\u00f4nio Conselheiro rondava a sua vida. E tudo se maximizava em sua cabe\u00e7a de deprimido. Em um domingo, 15 de agosto de 1909, armado de um rev\u00f3lver emprestado, calibre 22, partiu, manh\u00e3 cedo, para a casa do amante de Ana, sua mulher, o tal Dilermando de Assis que, adiante-se, era bom em tiro ao alvo. Chegou, bateu \u00e0 porta, foi entrando e atirando em Dilermando que revidou com arma mais forte e certeira, um 32, matando-o na hora. A hist\u00f3ria n\u00e3o termina aqui. A alma de Ant\u00f4nio Conselheiro continuou azucrinando a honra da fam\u00edlia Cunha. Em 1916, Euclydes Filho, resolve vingar a morte de seu pai. Mais uma vez, Dilermando levou vantagem e o filho foi fazer companhia ao pai no cemit\u00e9rio. Ent\u00e3o, Dilermando casou com a Ana, a vi\u00fava e m\u00e3e dos Euclydes assassinados. \u201cEm sociedade de tudo se sabe\u201d.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14\/08\/2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Interessar\u00e1 aos raros leitores desta coluna, inserida em caderno social, saber \u2018not\u00edcias de primeira\u2019 do fim do s\u00e9culo XIX e come\u00e7o do s\u00e9culo XX? Direi, em r\u00e1pidas pinceladas, que amanh\u00e3, 15 de agosto, faz cem anos que Euclydes da Cunha morreu. Por enquanto, respondo que Euclydes era carioca e n\u00e3o gostava de cearenses. E conto: o primeiro a quem criticou, por escrito, foi Antonio Maciel, dito Conselheiro, tecendo-lhe uma imagem sombria, preconceituosa e at\u00e9 racista. O que Ant\u00f4nio fez? Mandou-se de Quixeramobim, -onde fazia de tudo, pois ensinava e trabalhava avulso &#8211; para os cafund\u00f3s da Bahia por conta da prima e mulher Brazilina que lhe tra\u00edra. J\u00e1 observar\u00e1 o atento leitor que Euclydes era escritor. Bingo. Depois, poder\u00e1 indagar por qual raz\u00e3o ele n\u00e3o gostava do Ant\u00f4nio? Vamos l\u00e1: Euclydes fora cadete, tendo sido expulso por suas ideias republicanas, estudou engenharia, reintegrado como tenente e a mando da nov\u00edssima Rep\u00fablica Brasileira foi \u00e0 Chorroch\u00f3, Bahia, \u00e0s margens do Velho Chico, para cobrir a Guerra ou Campanha de Canudos, mortic\u00ednio de milhares de indefesos. A guerra, com Ex\u00e9rcito e tudo, partira da premissa falsa de que um mero povoado fundado e liderado por Ant\u00f4nio &#8211; que congregava e aconselhava (da\u00ed o nome conselheiro) a todos com f\u00e9 fan\u00e1tica -, amea\u00e7ava a P\u00e1tria republicana emergente. Euclydes, t\u00edsico que era, passou duas semanas entre tosses, conversas e anota\u00e7\u00f5es no local, chegando pouco antes do assass\u00ednio do Conselheiro, em 22 de setembro de 1897. Levou tamb\u00e9m, de volta ao Rio, a foto do Ant\u00f4nio morto, batida por Fl\u00e1vio de Barros, fot\u00f3grafo do Ex\u00e9rcito. (O incr\u00edvel \u00e9 como essa foto se assemelha com a do cad\u00e1ver de Che Guevara) Euclydes foi e voltou sem dar um tiro. Tiro ele deu em Dilermando Assis, cadete, o jovem e bem-apessoado amante de Ana Em\u00edlia, sua mulher. Aguardem, conto logo mais. Assim, Euclydes e Ant\u00f4nio, apesar das diverg\u00eancias sociais, tinham um ponto comum: sofreram a trai\u00e7\u00e3o das suas mulheres. Mas, esse tiro s\u00f3 ocorreria muitos anos depois. Euclydes, intelectual que era, perdeu, em 1903, o concurso para professor de L\u00f3gica do Col\u00e9gio Pedro II, no Rio, logo para outro cearense, Raimundo de Farias Brito. De pura inveja, ele disse: Farias Brito \u00e9 um \u201cpobre fil\u00f3sofo, cearense e an\u00f4nimo, autor de um livro que ningu\u00e9m leu\u201d. A palavra cearense, reparem, \u00e9 usada como pejorativo. A\u00ed, os amigos de Euclydes, do grupo positivista \u201cJardim da Inf\u00e2ncia\u201d, uma esp\u00e9cie de Clube do Bode de ent\u00e3o, deram um jeitinho e Euclydes conseguiu ser nomeado professor. Pulei, de prop\u00f3sito, o fato de que as anota\u00e7\u00f5es dele feitas nas duas semanas em Canudos geraram, em fins de 1902, o seu famoso livro: \u201cOs Sert\u00f5es\u201d, bem aceito, reeditado v\u00e1rias vezes, com venda de 10.000 exemplares. Era um n\u00famero alto para um pa\u00eds com 18 milh\u00f5es de habitantes, dos quais 95% da gente era analfabeta. Piorando da tuberculose, Euclydes foi admitido, ainda em 1903, no Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro e na Academia Brasileira de Letras. Mas, a gl\u00f3ria seria ef\u00eamera. Parece que o fantasma de Ant\u00f4nio Conselheiro rondava a sua vida. E tudo se maximizava em sua cabe\u00e7a de deprimido. Em um domingo, 15 de agosto de 1909, armado de um rev\u00f3lver emprestado, calibre 22, partiu, manh\u00e3 cedo, para a casa do amante de Ana, sua mulher, o tal Dilermando de Assis que, adiante-se, era bom em tiro ao alvo. Chegou, bateu \u00e0 porta, foi entrando e atirando em Dilermando que revidou com arma mais forte e certeira, um 32, matando-o na hora. A hist\u00f3ria n\u00e3o termina aqui. A alma de Ant\u00f4nio Conselheiro continuou azucrinando a honra da fam\u00edlia Cunha. Em 1916, Euclydes Filho, resolve vingar a morte de seu pai. Mais uma vez, Dilermando levou vantagem e o filho foi fazer companhia ao pai no cemit\u00e9rio. Ent\u00e3o, Dilermando casou com a Ana, a vi\u00fava e m\u00e3e dos Euclydes assassinados. \u201cEm sociedade de tudo se sabe\u201d.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14\/08\/2009.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3335","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3335","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3335"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3335\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3335"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3335"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3335"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}