{"id":3336,"date":"2023-12-21T09:10:43","date_gmt":"2023-12-21T12:10:43","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/e-agora-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:43","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:43","slug":"e-agora-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/e-agora-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"E AGORA? &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Era uma vez uma prociss\u00e3o de caravelas. Perderam-se por falta de vento de popa e acabaram dando com a proa em terras nunca dantes navegadas. Com vento ou sem vento, desceram pela terra a dentro e viram, estupefatos, \u201cquase-pessoas\u201d. E essas quase-pessoas eram donas de tudo, mas ainda n\u00e3o havia cart\u00f3rio nessa \u00e9poca para registrar as terras e cobrar os emolumentos, depois de muito protocolo. Como tal aconteceu \u00e9 s\u00f3 ler a carta do Caminha, o escriba. E armaram uma cruz em torno da qual rezaram. E por conta dessa cruz quase-todos ainda est\u00e3o crucificados. Quase-todos s\u00e3o os muitos dos que foram gerados nas rela\u00e7\u00f5es entre as quase-pessoas e os quase-perdidos, pois navegar n\u00e3o sabiam. Se o soubessem c\u00e1 n\u00e3o teriam chegado. Mas chegaram. E como os quase-perdidos n\u00e3o eram de trabalhar, imitaram os ingleses e trouxeram vozes e corpos de \u00c1frica. Mais corpos que vozes. E todos se embaralharam. Surgiu uma ra\u00e7a nova, essa que \u00e9 produto de toda a turma. E a\u00ed come\u00e7ou a vir ao mundo uma gente peculiar, fruto do usufruto da gandaia geral estabelecida por toda a orla e das picadas pelo interior para escavar metais. E levaram, levaram tudo. O que ficou virou geleia. E essa geleia tem o nome do lugar de origem. Esse lugar com progenitores na cidade-estado quase copiada das ideias de Le Corbusier. E os pais do ber\u00e7o espl\u00eandido usam ternos com muitos bolsos &#8211; para que ser\u00e1? &#8211; e gravatas para indicar que n\u00e3o s\u00e3o gente comum. E resolveram dar ordem \u00e0 desordem e todos tinham muitos parentes e aderentes precisando de ocupa\u00e7\u00e3o e distra\u00e7\u00e3o. E l\u00e1 ficaram na grande quenga de coco em que todos se empavonam de ser suas excel\u00eancias. E como o circo precisava de anima\u00e7\u00e3o colocaram uma televis\u00e3o que n\u00e3o mostra o vazio das reuni\u00f5es tribais em que se fantasiam de defensores de tudo. E o jogo n\u00e3o acontece por falta de atacantes. Quando aparece algum, pedem para sussurrar e n\u00e3o sujar a \u00e1gua bebida em comum. E de \u00e1gua semi-suja se faz a vida acontecer em tr\u00eas dias da semana. Os outros quatro s\u00e3o para as tramas. Aboliram os tremas, urdiram as tramas e tiraram as tramelas de janelas que continham o f\u00e9tido odor da ambi\u00eancia sem a qual n\u00e3o podiam respirar. E agora?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 16\/08\/2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma vez uma prociss\u00e3o de caravelas. Perderam-se por falta de vento de popa e acabaram dando com a proa em terras nunca dantes navegadas. Com vento ou sem vento, desceram pela terra a dentro e viram, estupefatos, \u201cquase-pessoas\u201d. E essas quase-pessoas eram donas de tudo, mas ainda n\u00e3o havia cart\u00f3rio nessa \u00e9poca para registrar as terras e cobrar os emolumentos, depois de muito protocolo. Como tal aconteceu \u00e9 s\u00f3 ler a carta do Caminha, o escriba. E armaram uma cruz em torno da qual rezaram. E por conta dessa cruz quase-todos ainda est\u00e3o crucificados. Quase-todos s\u00e3o os muitos dos que foram gerados nas rela\u00e7\u00f5es entre as quase-pessoas e os quase-perdidos, pois navegar n\u00e3o sabiam. Se o soubessem c\u00e1 n\u00e3o teriam chegado. Mas chegaram. E como os quase-perdidos n\u00e3o eram de trabalhar, imitaram os ingleses e trouxeram vozes e corpos de \u00c1frica. Mais corpos que vozes. E todos se embaralharam. Surgiu uma ra\u00e7a nova, essa que \u00e9 produto de toda a turma. E a\u00ed come\u00e7ou a vir ao mundo uma gente peculiar, fruto do usufruto da gandaia geral estabelecida por toda a orla e das picadas pelo interior para escavar metais. E levaram, levaram tudo. O que ficou virou geleia. E essa geleia tem o nome do lugar de origem. Esse lugar com progenitores na cidade-estado quase copiada das ideias de Le Corbusier. E os pais do ber\u00e7o espl\u00eandido usam ternos com muitos bolsos &#8211; para que ser\u00e1? &#8211; e gravatas para indicar que n\u00e3o s\u00e3o gente comum. E resolveram dar ordem \u00e0 desordem e todos tinham muitos parentes e aderentes precisando de ocupa\u00e7\u00e3o e distra\u00e7\u00e3o. E l\u00e1 ficaram na grande quenga de coco em que todos se empavonam de ser suas excel\u00eancias. E como o circo precisava de anima\u00e7\u00e3o colocaram uma televis\u00e3o que n\u00e3o mostra o vazio das reuni\u00f5es tribais em que se fantasiam de defensores de tudo. E o jogo n\u00e3o acontece por falta de atacantes. Quando aparece algum, pedem para sussurrar e n\u00e3o sujar a \u00e1gua bebida em comum. E de \u00e1gua semi-suja se faz a vida acontecer em tr\u00eas dias da semana. Os outros quatro s\u00e3o para as tramas. Aboliram os tremas, urdiram as tramas e tiraram as tramelas de janelas que continham o f\u00e9tido odor da ambi\u00eancia sem a qual n\u00e3o podiam respirar. E agora?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 16\/08\/2009.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3336","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3336","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3336"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3336\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3336"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3336"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3336"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}