{"id":3338,"date":"2023-12-21T09:10:43","date_gmt":"2023-12-21T12:10:43","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-cegueira-de-saramago-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:43","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:43","slug":"a-cegueira-de-saramago-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-cegueira-de-saramago-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"A CEGUEIRA DE SARAMAGO &#8211; Jornal o Estado"},"content":{"rendered":"<p>Fiquei feliz quando soube que a l\u00edngua portuguesa poderia ser agraciada com o Nobel de Literatura em 1998. Pensava em algum autor brasileiro, mas deu Jos\u00e9 Saramago. \u00c9 verdade que Portugal fez \u201clobby\u201d forte para mostrar seu potencial. Eram viagens de Lisboa a Estocolmo e vice-versa. Estocolmo \u00e9 a sede do Pr\u00eamio Nobel e h\u00e1 muita pol\u00edtica na concess\u00e3o desse galard\u00e3o. Se tiverem tempo, procurem ver os premiados em literatura nos \u00faltimos 10 anos. A maioria \u00e9 desconhecida e as vendas s\u00e3o turbinadas pelo pr\u00f3prio pr\u00eamio. O fato \u00e9 que Saramago ganhou. Depois, participou de uma esp\u00e9cie de Feira do Livro no Parque Eduardo VII, vizinho \u00e0 Estufa Fria, \u00e1rea predominante da boa hotelaria de Lisboa e at\u00e9 registro fiz desse encontro. Depois do pr\u00eamio, Saramago passou a ser muito vendido c\u00e1 no Brasil. Eu, na verdade, nunca namorei demasiado a sua escrita. Apenas um \u201cflirt\u201d, diria. Sua forma de escrever \u00e9 l\u00edmpida, longa, pesada e escorreita, mas o conte\u00fado parece ter, no caso do \u201cEnsaio sobre a Cegueira\u201d, um pouco da ess\u00eancia tem\u00e1tica de George Orwell, na obra \u201c1984\u201d. H\u00e1 tempo havia ganhado o livro de presente. S\u00f3 h\u00e1 pouco, o conclu\u00ed. Confesso: tive uma breve sensa\u00e7\u00e3o de alivio. Li, na verdade, aos peda\u00e7os. O livro \u00e9 um ensaio metaf\u00f3rico recomend\u00e1vel, quem sabe, para se discutir a ess\u00eancia do que somos. Narra a emerg\u00eancia de repentina cegueira, inexplic\u00e1vel e dita incur\u00e1vel. Abate-se sobre uma cidade qualquer. Sagra o desmoronar completo dessa sociedade que, por conta da cegueira, perde os valores essenciais da civiliza\u00e7\u00e3o. As personagens cegas do livro, s\u00f3 \u201cveem\u201d um clar\u00e3o branco. Achei o livro fastidioso, apesar do milagre ou moral do final. Lia, relia uma p\u00e1gina, grifava e ia em frente. Duvidei do meu magro julgamento. Admiti, em determinado instante, que o argentino Jorge Lu\u00eds Borges, por ter sido um progressivo deficiente visual, poderia ter escrito algo sobre sua cegueira. Repito que n\u00e3o sou cr\u00edtico liter\u00e1rio ou resenhista. Sou leitor, apenas. Por esta raz\u00e3o tive a curiosidade e a sensatez de procurar ler algumas opini\u00f5es sobre o autor. Vou ficar com tr\u00eas. A do escritor portugu\u00eas Ant\u00f3nio Lobo Antunes, em entrevista \u00e0 Folha de SP, em 22.04.1996. Ele diz: \u201ceu posso dizer que Jos\u00e9 Saramago n\u00e3o me entusiasma de modo nenhum. Ainda bem que ele tem prest\u00edgio no Brasil\u201d. O falecido autor cubano Cabrera Infante, no jornal El Clarin, de Buenos Aires, em 17.08.1995, afirma: \u201cSaramago \u00e9 um chato. Eu j\u00e1 lhe respondi amplamente em um n\u00famero do \u201cNouvel Observateur\u201d e desde ent\u00e3o ele n\u00e3o voltou a dizer nada\u201d. A revista Bravo, de outubro de 2008, em artigo assinado por Almir de Freitas, retrata: \u201c10 anos ap\u00f3s receber o pr\u00eamio da Academia Sueca Jos\u00e9 Saramago volta a lan\u00e7ar uma prosa pedregosa, o livro \u00e9 chato, simpl\u00f3rio e dif\u00edcil de ler.\u201d N\u00e3o chego a tanto, mas optei por n\u00e3o ver o filme hom\u00f4nimo.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28\/08\/2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fiquei feliz quando soube que a l\u00edngua portuguesa poderia ser agraciada com o Nobel de Literatura em 1998. Pensava em algum autor brasileiro, mas deu Jos\u00e9 Saramago. \u00c9 verdade que Portugal fez \u201clobby\u201d forte para mostrar seu potencial. Eram viagens de Lisboa a Estocolmo e vice-versa. Estocolmo \u00e9 a sede do Pr\u00eamio Nobel e h\u00e1 muita pol\u00edtica na concess\u00e3o desse galard\u00e3o. Se tiverem tempo, procurem ver os premiados em literatura nos \u00faltimos 10 anos. A maioria \u00e9 desconhecida e as vendas s\u00e3o turbinadas pelo pr\u00f3prio pr\u00eamio. O fato \u00e9 que Saramago ganhou. Depois, participou de uma esp\u00e9cie de Feira do Livro no Parque Eduardo VII, vizinho \u00e0 Estufa Fria, \u00e1rea predominante da boa hotelaria de Lisboa e at\u00e9 registro fiz desse encontro. Depois do pr\u00eamio, Saramago passou a ser muito vendido c\u00e1 no Brasil. Eu, na verdade, nunca namorei demasiado a sua escrita. Apenas um \u201cflirt\u201d, diria. Sua forma de escrever \u00e9 l\u00edmpida, longa, pesada e escorreita, mas o conte\u00fado parece ter, no caso do \u201cEnsaio sobre a Cegueira\u201d, um pouco da ess\u00eancia tem\u00e1tica de George Orwell, na obra \u201c1984\u201d. H\u00e1 tempo havia ganhado o livro de presente. S\u00f3 h\u00e1 pouco, o conclu\u00ed. Confesso: tive uma breve sensa\u00e7\u00e3o de alivio. Li, na verdade, aos peda\u00e7os. O livro \u00e9 um ensaio metaf\u00f3rico recomend\u00e1vel, quem sabe, para se discutir a ess\u00eancia do que somos. Narra a emerg\u00eancia de repentina cegueira, inexplic\u00e1vel e dita incur\u00e1vel. Abate-se sobre uma cidade qualquer. Sagra o desmoronar completo dessa sociedade que, por conta da cegueira, perde os valores essenciais da civiliza\u00e7\u00e3o. As personagens cegas do livro, s\u00f3 \u201cveem\u201d um clar\u00e3o branco. Achei o livro fastidioso, apesar do milagre ou moral do final. Lia, relia uma p\u00e1gina, grifava e ia em frente. Duvidei do meu magro julgamento. Admiti, em determinado instante, que o argentino Jorge Lu\u00eds Borges, por ter sido um progressivo deficiente visual, poderia ter escrito algo sobre sua cegueira. Repito que n\u00e3o sou cr\u00edtico liter\u00e1rio ou resenhista. Sou leitor, apenas. Por esta raz\u00e3o tive a curiosidade e a sensatez de procurar ler algumas opini\u00f5es sobre o autor. Vou ficar com tr\u00eas. A do escritor portugu\u00eas Ant\u00f3nio Lobo Antunes, em entrevista \u00e0 Folha de SP, em 22.04.1996. Ele diz: \u201ceu posso dizer que Jos\u00e9 Saramago n\u00e3o me entusiasma de modo nenhum. Ainda bem que ele tem prest\u00edgio no Brasil\u201d. O falecido autor cubano Cabrera Infante, no jornal El Clarin, de Buenos Aires, em 17.08.1995, afirma: \u201cSaramago \u00e9 um chato. Eu j\u00e1 lhe respondi amplamente em um n\u00famero do \u201cNouvel Observateur\u201d e desde ent\u00e3o ele n\u00e3o voltou a dizer nada\u201d. 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