{"id":3346,"date":"2023-12-21T09:10:43","date_gmt":"2023-12-21T12:10:43","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/ler-e-escrever-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:43","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:43","slug":"ler-e-escrever-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/ler-e-escrever-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"LER E ESCREVER &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Ainda parece estranho para alguns poucos o fato de eu escrever h\u00e1 tanto tempo. Parece igualmente esquisito para outros o fato de eu continuar a gostar de ler. Incomodam-se alguns ao saberem que a boa m\u00fasica me enternece. Deveriam estranhar que eu nunca soube cantar. Sou absolutamente desafinado. Tentei ser pianista e desisti com a desculpa de que era canhoto. Seis meses foi o tempo que a pianista Maria Helena Cabral perdeu comigo. Fui um p\u00e9ssimo jogador de futebol, s\u00f3 entrei em time de basquete quando n\u00e3o havia ningu\u00e9m para completar o quinteto. Meti-me a participar de peladas de v\u00f4lei e quebrei o escaf\u00f3dio. Deixei o v\u00f4lei, mas descobri que tem um ossinho no punho com esse nome. No Ex\u00e9rcito, pus-me a atirar com rev\u00f3lver, fuzil e metralhadora e fui um fiasco. Passei por um triz. O que me restava era ler e isso eu fazia em um canto da casa dos meus pais por onde n\u00e3o passava ningu\u00e9m. Era uma passagem de servi\u00e7o por tr\u00e1s da garagem. Ningu\u00e9m me via, nem ouvia, pois o ato de ler merece sil\u00eancio. E lia sempre desconfiando de quem escrevia. Ser\u00e1 que isto \u00e9 assim mesmo? E usava um l\u00e1pis como arma para sublinhar, rabiscar e &#8211; pasmem \u2013 at\u00e9 discordar do autor que estava lendo. Como n\u00e3o conhecia nenhum escritor vivo, n\u00e3o tinha como imaginar a sua figura. Eu me imaginava um roteirista ou diretor de cinema e ia formando imagens do que estava a ler. Comecei a ler Jos\u00e9 de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo. Como n\u00e3o tinha participado de rodas liter\u00e1rias, pus-me a ler o que n\u00e3o era devido. Assim \u00e9 que me apaixonei pelos escritos de Monteiro Lobato, n\u00e3o os livros infantis, mas A Barca de Gleyre. Li um pouco de Andr\u00e9 Maurois. Ele tinha sido presidente da Academia Francesa e eu pouco me importava com isso. Gostava de seus textos e pronto. Depois, encarei Dostoievski sem saber dos muitos nomes de cada personagem e da densidade de seus temas. O l\u00e1pis era meu aliado na concatena\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias para fazer anota\u00e7\u00f5es \u00e0 margem ou inventar uma esp\u00e9cie de gloss\u00e1rio. N\u00e3o desistia. E foi assim, errando e descobrindo, que o h\u00e1bito da leitura tomou conta de mim. A prop\u00f3sito, a Bienal do Rio de Janeiro terminou agora e a maior atra\u00e7\u00e3o foi Jos\u00e9 Mayer lendo texto de \u00c9rico Ver\u00edssimo. Est\u00e1 na hora de se repensar a fun\u00e7\u00e3o e a rela\u00e7\u00e3o das bienais com o p\u00fablico. O povo que entender o que os escritores dizem. As bienais n\u00e3o podem ser fogueiras da vaidade de A ou B. Voltando ao fio: nada me agrada mais que um bom livro e fico triste quando recebo um best-seller de presente. Tenho, ent\u00e3o, a certeza de que a pessoa n\u00e3o conhece os meus h\u00e1bitos ou quis se basear em lista dos livros mais vendidos. Este ano, por exemplo, ganhei dois exemplares de um livro que n\u00e3o sai do primeiro lugar. Uma l\u00e1stima melosa falando de um pai e morte da filha. Assim \u00e9 que a minha desconfian\u00e7a na leitura ou uma esp\u00e9cie de distanciamento cr\u00edtico parece ter uma explica\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica. Complexo, n\u00e3o? Fui criando coragem e comecei a escrever di\u00e1rios para me acostumar com o fato de que poderia ler o que havia escrito. \u00c9 bom ler o que se escreve, mesmo que seja bobagem. Melhor ainda \u00e9 reler. \u00c9 por estas raz\u00f5es acima expostas que o consegui trazer at\u00e9 o ponto final. Consegui?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25\/09\/2009<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda parece estranho para alguns poucos o fato de eu escrever h\u00e1 tanto tempo. Parece igualmente esquisito para outros o fato de eu continuar a gostar de ler. Incomodam-se alguns ao saberem que a boa m\u00fasica me enternece. Deveriam estranhar que eu nunca soube cantar. Sou absolutamente desafinado. Tentei ser pianista e desisti com a desculpa de que era canhoto. Seis meses foi o tempo que a pianista Maria Helena Cabral perdeu comigo. Fui um p\u00e9ssimo jogador de futebol, s\u00f3 entrei em time de basquete quando n\u00e3o havia ningu\u00e9m para completar o quinteto. Meti-me a participar de peladas de v\u00f4lei e quebrei o escaf\u00f3dio. Deixei o v\u00f4lei, mas descobri que tem um ossinho no punho com esse nome. No Ex\u00e9rcito, pus-me a atirar com rev\u00f3lver, fuzil e metralhadora e fui um fiasco. Passei por um triz. O que me restava era ler e isso eu fazia em um canto da casa dos meus pais por onde n\u00e3o passava ningu\u00e9m. Era uma passagem de servi\u00e7o por tr\u00e1s da garagem. Ningu\u00e9m me via, nem ouvia, pois o ato de ler merece sil\u00eancio. E lia sempre desconfiando de quem escrevia. Ser\u00e1 que isto \u00e9 assim mesmo? E usava um l\u00e1pis como arma para sublinhar, rabiscar e &#8211; pasmem \u2013 at\u00e9 discordar do autor que estava lendo. Como n\u00e3o conhecia nenhum escritor vivo, n\u00e3o tinha como imaginar a sua figura. Eu me imaginava um roteirista ou diretor de cinema e ia formando imagens do que estava a ler. Comecei a ler Jos\u00e9 de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo. Como n\u00e3o tinha participado de rodas liter\u00e1rias, pus-me a ler o que n\u00e3o era devido. Assim \u00e9 que me apaixonei pelos escritos de Monteiro Lobato, n\u00e3o os livros infantis, mas A Barca de Gleyre. Li um pouco de Andr\u00e9 Maurois. Ele tinha sido presidente da Academia Francesa e eu pouco me importava com isso. Gostava de seus textos e pronto. Depois, encarei Dostoievski sem saber dos muitos nomes de cada personagem e da densidade de seus temas. O l\u00e1pis era meu aliado na concatena\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias para fazer anota\u00e7\u00f5es \u00e0 margem ou inventar uma esp\u00e9cie de gloss\u00e1rio. N\u00e3o desistia. E foi assim, errando e descobrindo, que o h\u00e1bito da leitura tomou conta de mim. A prop\u00f3sito, a Bienal do Rio de Janeiro terminou agora e a maior atra\u00e7\u00e3o foi Jos\u00e9 Mayer lendo texto de \u00c9rico Ver\u00edssimo. Est\u00e1 na hora de se repensar a fun\u00e7\u00e3o e a rela\u00e7\u00e3o das bienais com o p\u00fablico. O povo que entender o que os escritores dizem. As bienais n\u00e3o podem ser fogueiras da vaidade de A ou B. Voltando ao fio: nada me agrada mais que um bom livro e fico triste quando recebo um best-seller de presente. Tenho, ent\u00e3o, a certeza de que a pessoa n\u00e3o conhece os meus h\u00e1bitos ou quis se basear em lista dos livros mais vendidos. Este ano, por exemplo, ganhei dois exemplares de um livro que n\u00e3o sai do primeiro lugar. Uma l\u00e1stima melosa falando de um pai e morte da filha. Assim \u00e9 que a minha desconfian\u00e7a na leitura ou uma esp\u00e9cie de distanciamento cr\u00edtico parece ter uma explica\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica. Complexo, n\u00e3o? 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Consegui?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25\/09\/2009<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3346","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3346","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3346"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3346\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}