{"id":3360,"date":"2023-12-21T09:10:44","date_gmt":"2023-12-21T12:10:44","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/05-de-novembro-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:44","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:44","slug":"05-de-novembro-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/05-de-novembro-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"05 DE NOVEMBRO &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Voltei. Passei oito anos relutando em ver \u201cin loco\u201d. Todos lembram daquela manh\u00e3 de ter\u00e7a, 11 de setembro. Vimos tudo pela TV, at\u00e9 a exaust\u00e3o. At\u00f4nito, minha rea\u00e7\u00e3o imediata foi escrever onze contos e enfeix\u00e1-los em livro. Nesse livro (Sobre a G\u00eanese e o Caos), tento explicar, na g\u00eanese, as raz\u00f5es motivadoras do atentado, as li\u00e7\u00f5es n\u00e3o aprendidas e at\u00e9 ouso escrever uma carta para Bush e Bin Laden. Na segunda parte, fic\u00e7\u00e3o absoluta, falo do drama pessoal de uma cleptoman\u00edaca; do menino afeg\u00e3o treinado para o terrorismo; de um casal que se separa enquanto tudo explode; de um velho e cansado vigilante; do amor carnal entre zeladora e seguran\u00e7a; de sess\u00e3o esp\u00edrita; do primeiro dia de trabalho de um jovem executivo negro; do voo de um Boeing 767; dos sonhos da vi\u00fava de um bombeiro morto; do imigrante judeu e sua fam\u00edlia; e dos terroristas em a\u00e7\u00e3o. Em minha imagina\u00e7\u00e3o, tudo parecia um filme e criei os detalhes de cada conto. Faltou, quem sabe, Spielberg ou um Fernando Meireles para a dire\u00e7\u00e3o. O fato \u00e9: voltei l\u00e1 na quinta-feira, 05, deste novembro. O \u201cGround Zero\u201d estava cercado por tapumes. Era hora do almo\u00e7o, os trabalhadores sa\u00edam com suas marmitas para a grade acolhedora do jardim fronteiri\u00e7o da capela de St. Paul, ilesa no ataque. Aproveitei, meti a cabe\u00e7a, e vi o grande vazio em que as duas g\u00eameas se transformaram. Ao fundo, a constru\u00e7\u00e3o do memorial Torre da Liberdade e gruas espanando os c\u00e9us. Naquele mesmo dia 05 e hora, em Fort Hood, Texas, eclodia atentado dentro de base militar. 13 pessoas morreram e outras ficaram feridas. Soube logo depois, tamb\u00e9m pela TV. N\u00e3o havia como n\u00e3o ligar os dois fatos, especialmente se um dos suspeitos, embora major do ex\u00e9rcito americano, \u00e9 de f\u00e9 mu\u00e7ulmana. No dia seguinte, apanhei um t\u00e1xi com motorista et\u00edope. Conversamos sobre o ocorrido e perguntei sua opini\u00e3o. Ele disse que n\u00e3o entendia a raz\u00e3o, pois tinha sido bem acolhido no seu novo pa\u00eds. O tratavam como igual e aquilo poderia ser um novo caos. Relembrei dos contos publicados e o que narro a voc\u00eas agora ainda me causa estranheza pela incapacidade coletiva de se descobrir o caminho da conviv\u00eancia humana sem guerra. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 15\/11\/2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltei. Passei oito anos relutando em ver \u201cin loco\u201d. Todos lembram daquela manh\u00e3 de ter\u00e7a, 11 de setembro. Vimos tudo pela TV, at\u00e9 a exaust\u00e3o. At\u00f4nito, minha rea\u00e7\u00e3o imediata foi escrever onze contos e enfeix\u00e1-los em livro. Nesse livro (Sobre a G\u00eanese e o Caos), tento explicar, na g\u00eanese, as raz\u00f5es motivadoras do atentado, as li\u00e7\u00f5es n\u00e3o aprendidas e at\u00e9 ouso escrever uma carta para Bush e Bin Laden. Na segunda parte, fic\u00e7\u00e3o absoluta, falo do drama pessoal de uma cleptoman\u00edaca; do menino afeg\u00e3o treinado para o terrorismo; de um casal que se separa enquanto tudo explode; de um velho e cansado vigilante; do amor carnal entre zeladora e seguran\u00e7a; de sess\u00e3o esp\u00edrita; do primeiro dia de trabalho de um jovem executivo negro; do voo de um Boeing 767; dos sonhos da vi\u00fava de um bombeiro morto; do imigrante judeu e sua fam\u00edlia; e dos terroristas em a\u00e7\u00e3o. Em minha imagina\u00e7\u00e3o, tudo parecia um filme e criei os detalhes de cada conto. Faltou, quem sabe, Spielberg ou um Fernando Meireles para a dire\u00e7\u00e3o. O fato \u00e9: voltei l\u00e1 na quinta-feira, 05, deste novembro. O \u201cGround Zero\u201d estava cercado por tapumes. Era hora do almo\u00e7o, os trabalhadores sa\u00edam com suas marmitas para a grade acolhedora do jardim fronteiri\u00e7o da capela de St. Paul, ilesa no ataque. Aproveitei, meti a cabe\u00e7a, e vi o grande vazio em que as duas g\u00eameas se transformaram. Ao fundo, a constru\u00e7\u00e3o do memorial Torre da Liberdade e gruas espanando os c\u00e9us. Naquele mesmo dia 05 e hora, em Fort Hood, Texas, eclodia atentado dentro de base militar. 13 pessoas morreram e outras ficaram feridas. Soube logo depois, tamb\u00e9m pela TV. N\u00e3o havia como n\u00e3o ligar os dois fatos, especialmente se um dos suspeitos, embora major do ex\u00e9rcito americano, \u00e9 de f\u00e9 mu\u00e7ulmana. No dia seguinte, apanhei um t\u00e1xi com motorista et\u00edope. Conversamos sobre o ocorrido e perguntei sua opini\u00e3o. Ele disse que n\u00e3o entendia a raz\u00e3o, pois tinha sido bem acolhido no seu novo pa\u00eds. O tratavam como igual e aquilo poderia ser um novo caos. 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