{"id":3361,"date":"2023-12-21T09:10:44","date_gmt":"2023-12-21T12:10:44","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/joao-santos-e-dix-huit-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:44","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:44","slug":"joao-santos-e-dix-huit-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/joao-santos-e-dix-huit-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"JO\u00c3O SANTOS E DIX-HUIT &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 confessei ser leitor compulsivo. Caiu-me ontem \u00e0s m\u00e3os um folheto de uma f\u00e1brica de cimento. Depois de l\u00ea-lo, parei e fiquei pensando em um dia no princ\u00edpio dos anos setenta. Come\u00e7ara a vida real, a da luta pela sobreviv\u00eancia, e estava em Mossor\u00f3, Rio Grande do Norte, dirigindo uma equipe e elaborando o Plano Diretor da cidade. Havia ganhado o servi\u00e7o em concorr\u00eancia do Minist\u00e9rio do Interior e o trabalho era \u00e1rduo. Um dia, detalhando para o prefeito Dix-Huit Rosado, uma mudan\u00e7a urbana necess\u00e1ria, ele levou a m\u00e3o a cabe\u00e7a, como se lembrasse de algo, e disse \u201cvamos ao aeroporto que j\u00e1 estou atrasado\u201d. L\u00e1, um pequeno avi\u00e3o taxiava, e dele desceu um homem de jeito e complei\u00e7\u00e3o nordestina, \u201cslacks\u201d branco, chap\u00e9u e testa larga. Era Jo\u00e3o Santos, o dono de f\u00e1bricas de cimento que chegava. De l\u00e1, fomos almo\u00e7ar. Dix-Huit disse para ele que eu estava mexendo em toda a cidade. Jo\u00e3o Santos olhou para mim, perguntou quais as minhas ideias, ouviu calado. Ao fim do almo\u00e7o, nos desped\u00edamos. Ele, Jo\u00e3o, olhou para mim, chamou-me a um canto, e perguntou de chofre: quer largar isso e vir trabalhar comigo? Engoli seco e respondi que n\u00e3o, queria ser dono do meu tempo e do meu destino. Agora, mais de trinta anos passados, lendo o tal folheto das primeiras linhas referidas, revejo que aquele homem simples, j\u00e1 falecido, construtor um imp\u00e9rio a partir do nada. Era um menino do interior de Pernambuco, igual a tantos outros. Mas havia nele o germe da esperan\u00e7a, da inquieta\u00e7\u00e3o e, formado cedo em economia, meteu-se pelo mundo afora, lutando como sabem fazer os obstinados. Aportando na Bahia e, pouco a pouco, disseminando for\u00e7a por todo o Nordeste, em m\u00faltiplos e vitoriosos empreendimentos, inclusive comunica\u00e7\u00e3o. E veio, como j\u00e1 disse, a imagem n\u00edtida desses momentos importantes para mim, um jovem fincando base para o futuro em meio ao calor abrasador da terra dos Rosados. E lembrei tamb\u00e9m de Dix-Huit, um desengon\u00e7ado, culto e doce grandalh\u00e3o, pol\u00edtico de t\u00eampera que, logo depois, seria preterido para o governo do Rio do Grande do Norte, apenas por ter, como Senador que fora acompanhado \u00e0 China a comitiva do ent\u00e3o vice-presidente Jo\u00e3o Goulart. No dia seguinte \u00e0 derrota, me desloquei \u00e0 sua fazenda, e l\u00e1 encontro o futuro ex-governador sozinho, de botas, chapel\u00e3o. Pegou a sua velha pickup Toyota e saiu conversando comigo, como se nada tivesse acontecido e a mostrar as planta\u00e7\u00f5es e irriga\u00e7\u00f5es que fazia.<br \/>\n(dedicado a todos os que subiram a escada da vida por seus pr\u00f3prios p\u00e9s)<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20\/11\/2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 confessei ser leitor compulsivo. Caiu-me ontem \u00e0s m\u00e3os um folheto de uma f\u00e1brica de cimento. Depois de l\u00ea-lo, parei e fiquei pensando em um dia no princ\u00edpio dos anos setenta. Come\u00e7ara a vida real, a da luta pela sobreviv\u00eancia, e estava em Mossor\u00f3, Rio Grande do Norte, dirigindo uma equipe e elaborando o Plano Diretor da cidade. Havia ganhado o servi\u00e7o em concorr\u00eancia do Minist\u00e9rio do Interior e o trabalho era \u00e1rduo. Um dia, detalhando para o prefeito Dix-Huit Rosado, uma mudan\u00e7a urbana necess\u00e1ria, ele levou a m\u00e3o a cabe\u00e7a, como se lembrasse de algo, e disse \u201cvamos ao aeroporto que j\u00e1 estou atrasado\u201d. L\u00e1, um pequeno avi\u00e3o taxiava, e dele desceu um homem de jeito e complei\u00e7\u00e3o nordestina, \u201cslacks\u201d branco, chap\u00e9u e testa larga. Era Jo\u00e3o Santos, o dono de f\u00e1bricas de cimento que chegava. De l\u00e1, fomos almo\u00e7ar. Dix-Huit disse para ele que eu estava mexendo em toda a cidade. Jo\u00e3o Santos olhou para mim, perguntou quais as minhas ideias, ouviu calado. Ao fim do almo\u00e7o, nos desped\u00edamos. Ele, Jo\u00e3o, olhou para mim, chamou-me a um canto, e perguntou de chofre: quer largar isso e vir trabalhar comigo? Engoli seco e respondi que n\u00e3o, queria ser dono do meu tempo e do meu destino. Agora, mais de trinta anos passados, lendo o tal folheto das primeiras linhas referidas, revejo que aquele homem simples, j\u00e1 falecido, construtor um imp\u00e9rio a partir do nada. Era um menino do interior de Pernambuco, igual a tantos outros. Mas havia nele o germe da esperan\u00e7a, da inquieta\u00e7\u00e3o e, formado cedo em economia, meteu-se pelo mundo afora, lutando como sabem fazer os obstinados. Aportando na Bahia e, pouco a pouco, disseminando for\u00e7a por todo o Nordeste, em m\u00faltiplos e vitoriosos empreendimentos, inclusive comunica\u00e7\u00e3o. E veio, como j\u00e1 disse, a imagem n\u00edtida desses momentos importantes para mim, um jovem fincando base para o futuro em meio ao calor abrasador da terra dos Rosados. E lembrei tamb\u00e9m de Dix-Huit, um desengon\u00e7ado, culto e doce grandalh\u00e3o, pol\u00edtico de t\u00eampera que, logo depois, seria preterido para o governo do Rio do Grande do Norte, apenas por ter, como Senador que fora acompanhado \u00e0 China a comitiva do ent\u00e3o vice-presidente Jo\u00e3o Goulart. No dia seguinte \u00e0 derrota, me desloquei \u00e0 sua fazenda, e l\u00e1 encontro o futuro ex-governador sozinho, de botas, chapel\u00e3o. Pegou a sua velha pickup Toyota e saiu conversando comigo, como se nada tivesse acontecido e a mostrar as planta\u00e7\u00f5es e irriga\u00e7\u00f5es que fazia.<br \/>\n(dedicado a todos os que subiram a escada da vida por seus pr\u00f3prios p\u00e9s)<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20\/11\/2009.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3361","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3361","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3361"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3361\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3361"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3361"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3361"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}