{"id":3362,"date":"2023-12-21T09:10:44","date_gmt":"2023-12-21T12:10:44","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/vida-e-morte-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:44","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:44","slug":"vida-e-morte-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/vida-e-morte-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"VIDA E MORTE &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Um rio separa a morte da vida. Est\u00e3o ligadas por pontes. Do lado da vida est\u00e3o majestosos edif\u00edcios, em rigorosa linha imagin\u00e1ria, tendo como refer\u00eancia de vit\u00f3ria um obelisco gran\u00edtico. Acreditam os habitantes transit\u00f3rios dessa linha da vida estar defendendo princ\u00edpios, definindo miss\u00f5es, estabelecendo padr\u00f5es de valores, mas convivem, a um relance da vista, com a morte. Dizia o poeta cego John Milton, em certa parte do \u201cPara\u00edso Perdido\u201d, o maior poema \u00e9pico da l\u00edngua inglesa: \u201cEle jaz estendido ent\u00e3o na terra\/ na terra fria: ali entre ais ami\u00fade\/a sua cria\u00e7\u00e3o amaldi\u00e7oa\/e ami\u00fade a morte de tardia acusa\/porque n\u00e3o vinha j\u00e1, sendo presente\/para o dia da ofensa perpretada.\u201d O rio Potomac corre lento em margens amareladas pelas folhas do outono deste novembro de 2009. Por escolha, fiquei na mesma avenida em que mora, por tempo definido, o afrodescendente que prometeu esperan\u00e7a e o bord\u00e3o \u201csim, n\u00f3s podemos.\u201d Nestes poucos dias em que estive por l\u00e1, revi o visto antes, especialmente a colina dos mortos, abrigando os que, enviados por decis\u00f5es germinadas no grande \u201cmall\u201d atravessaram mares e espa\u00e7os e morreram lutando pelo que bem n\u00e3o sabiam. Est\u00e3o l\u00e1 na terra fria, cobertos por relva, l\u00e1pides e o respeito mudo de quem os visita por la\u00e7os de fam\u00edlia, comisera\u00e7\u00e3o ou curiosidade. E vi, no destaque, as poucas pedras marm\u00f3reas horizontais sobre o ch\u00e3o, alumiados por uma pira, juntando sobrenomes irland\u00eas e franc\u00eas, em uma uni\u00e3o desfeita pela morte noutro novembro, em 1963. E l\u00e1, insolentemente como um aposto, h\u00e1 o sobrenome grego de um Arist\u00f3teles, n\u00e3o o s\u00e1bio, mas o mercador. E neste novembro, uma noite mais fria se fez, enquanto se decidia sobre a sa\u00fade p\u00fablica albergar os pobres e seus descendentes, os vindos de outras p\u00e1trias, em busca do milagre. E fiquei, por horas, acompanhando a vota\u00e7\u00e3o ganha por cinco votos pelo quarent\u00e3o nascido no Hava\u00ed, de pai queniano. E, no dia seguinte, o sol de fez claro, como se seus raios e halos cobrissem de energia os que n\u00e3o haviam perdido a esperan\u00e7a na terra onde limusines brilhantes e t\u00e3o antiquadas quanto um r\u00e9ptil s\u00e3o s\u00edmbolos da desigualdade e da injusti\u00e7a entre os homens.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 22\/11\/2009<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um rio separa a morte da vida. Est\u00e3o ligadas por pontes. Do lado da vida est\u00e3o majestosos edif\u00edcios, em rigorosa linha imagin\u00e1ria, tendo como refer\u00eancia de vit\u00f3ria um obelisco gran\u00edtico. Acreditam os habitantes transit\u00f3rios dessa linha da vida estar defendendo princ\u00edpios, definindo miss\u00f5es, estabelecendo padr\u00f5es de valores, mas convivem, a um relance da vista, com a morte. Dizia o poeta cego John Milton, em certa parte do \u201cPara\u00edso Perdido\u201d, o maior poema \u00e9pico da l\u00edngua inglesa: \u201cEle jaz estendido ent\u00e3o na terra\/ na terra fria: ali entre ais ami\u00fade\/a sua cria\u00e7\u00e3o amaldi\u00e7oa\/e ami\u00fade a morte de tardia acusa\/porque n\u00e3o vinha j\u00e1, sendo presente\/para o dia da ofensa perpretada.\u201d O rio Potomac corre lento em margens amareladas pelas folhas do outono deste novembro de 2009. Por escolha, fiquei na mesma avenida em que mora, por tempo definido, o afrodescendente que prometeu esperan\u00e7a e o bord\u00e3o \u201csim, n\u00f3s podemos.\u201d Nestes poucos dias em que estive por l\u00e1, revi o visto antes, especialmente a colina dos mortos, abrigando os que, enviados por decis\u00f5es germinadas no grande \u201cmall\u201d atravessaram mares e espa\u00e7os e morreram lutando pelo que bem n\u00e3o sabiam. Est\u00e3o l\u00e1 na terra fria, cobertos por relva, l\u00e1pides e o respeito mudo de quem os visita por la\u00e7os de fam\u00edlia, comisera\u00e7\u00e3o ou curiosidade. E vi, no destaque, as poucas pedras marm\u00f3reas horizontais sobre o ch\u00e3o, alumiados por uma pira, juntando sobrenomes irland\u00eas e franc\u00eas, em uma uni\u00e3o desfeita pela morte noutro novembro, em 1963. E l\u00e1, insolentemente como um aposto, h\u00e1 o sobrenome grego de um Arist\u00f3teles, n\u00e3o o s\u00e1bio, mas o mercador. E neste novembro, uma noite mais fria se fez, enquanto se decidia sobre a sa\u00fade p\u00fablica albergar os pobres e seus descendentes, os vindos de outras p\u00e1trias, em busca do milagre. E fiquei, por horas, acompanhando a vota\u00e7\u00e3o ganha por cinco votos pelo quarent\u00e3o nascido no Hava\u00ed, de pai queniano. 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