{"id":3363,"date":"2023-12-21T09:10:44","date_gmt":"2023-12-21T12:10:44","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/almoco-de-passagem-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:44","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:44","slug":"almoco-de-passagem-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/almoco-de-passagem-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"ALMO\u00c7O, DE PASSAGEM &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Aconteceu longe daqui. Na terra do nunca. Ou na terra da incomunicabilidade. Foi assim: era um almo\u00e7o de confraterniza\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o era? Frater \u00e9 irm\u00e3o e isso j\u00e1 havia sido dito at\u00e9 altas horas entre todas. Vamos dizer que sim, era uma confraterniza\u00e7\u00e3o. Lato senso, todos s\u00e3o irm\u00e3os. Estavam ali com toda a tropa, casais, filhos, empregadas e at\u00e9 uma solit\u00e1ria cadela branca. Foram para ver um senhor, n\u00e3o o Deus, mas o que as havia ajudado a gerar com a energia do seu corpo. Fora h\u00e1 tempos, lustros atr\u00e1s e tudo havia sido desfeito. At\u00e9 a casa virar\u00e1 p\u00f3. Sobraram cobres, distribu\u00eddos, mas isso \u00e9 outra hist\u00f3ria. Chegaram uns, outros vieram depois com sentimento de pregui\u00e7a, e o senhor, como se tivesse fazendo uma par\u00f3dia de si mesmo, veio conduzindo o peso de maletas port\u00e1teis, com rod\u00edzios, portando, cada uma, em seu exterior a foto e o nome do Superman. Era o que ele n\u00e3o era, pois se o fosse, ali n\u00e3o estaria mais, tantas as vezes que havia cedido por aus\u00eancias, gestos, cr\u00edticas e dores que s\u00f3 lhe diziam respeito. Mas, invocando, quem sabe, o amor definitivo e a for\u00e7a dos super-homens que conduzia com carinho, trouxera cart\u00f5es individuais e afetivos para cada um dos v\u00e1rios pares que a vida unira. E juntou quinquilharias nessas bolsas de super-homem, somou aten\u00e7\u00f5es, brincadeiras e um pouco da veia espirituosa, como a dizer que n\u00e3o havia mudado. Era e seria o de sempre. Elas, sim, haviam mudado. At\u00e9 o olhar. Ele juntara tudo, sem saber fazer as escolhas certas, pois todas eram refinadas e ele um senhor atrapalhado. At\u00e9 repetira presentes anteriores e n\u00e3o obedecera a recomenda\u00e7\u00f5es de s\u00f3 trazer o que fosse certificado pelo Inmetro, o \u00f3rg\u00e3o do governo que d\u00e1 muito emprego e faz de conta que verifica pesos, medidas e qualidade. E ele estava ali e ouvia, de passagem, que uma delas iria se mudar para um pouco mais longe dali e n\u00e3o t\u00e3o cerca do mar onde hoje habitava, mas para um condom\u00ednio novo, sofisticado, com \u00e1reas onde as crian\u00e7as brincariam com seus iguais. E at\u00e9 foi sugerido, levemente, que outra tamb\u00e9m lhe fizesse companhia, cedendo o seu apartamento para a \u00faltima, a que casaria em breve, andaria dez passos at\u00e9 o altar e precisava de cerimonialista competente para dizer a todos como andar dez passos sem errar. E estavam ali de passagem, pois a maioria subiria, em seguida, \u00e0s montanhas, pois havia cansa\u00e7o muito a ser refeito na mans\u00e3o constru\u00edda com o denodo e a qualidade de tudo o que a progenitora fazia. E cujo endere\u00e7o, diga-se, o senhor n\u00e3o conhecia. E choveu.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27\/11\/2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aconteceu longe daqui. Na terra do nunca. Ou na terra da incomunicabilidade. Foi assim: era um almo\u00e7o de confraterniza\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o era? Frater \u00e9 irm\u00e3o e isso j\u00e1 havia sido dito at\u00e9 altas horas entre todas. Vamos dizer que sim, era uma confraterniza\u00e7\u00e3o. Lato senso, todos s\u00e3o irm\u00e3os. Estavam ali com toda a tropa, casais, filhos, empregadas e at\u00e9 uma solit\u00e1ria cadela branca. Foram para ver um senhor, n\u00e3o o Deus, mas o que as havia ajudado a gerar com a energia do seu corpo. Fora h\u00e1 tempos, lustros atr\u00e1s e tudo havia sido desfeito. At\u00e9 a casa virar\u00e1 p\u00f3. Sobraram cobres, distribu\u00eddos, mas isso \u00e9 outra hist\u00f3ria. Chegaram uns, outros vieram depois com sentimento de pregui\u00e7a, e o senhor, como se tivesse fazendo uma par\u00f3dia de si mesmo, veio conduzindo o peso de maletas port\u00e1teis, com rod\u00edzios, portando, cada uma, em seu exterior a foto e o nome do Superman. Era o que ele n\u00e3o era, pois se o fosse, ali n\u00e3o estaria mais, tantas as vezes que havia cedido por aus\u00eancias, gestos, cr\u00edticas e dores que s\u00f3 lhe diziam respeito. Mas, invocando, quem sabe, o amor definitivo e a for\u00e7a dos super-homens que conduzia com carinho, trouxera cart\u00f5es individuais e afetivos para cada um dos v\u00e1rios pares que a vida unira. E juntou quinquilharias nessas bolsas de super-homem, somou aten\u00e7\u00f5es, brincadeiras e um pouco da veia espirituosa, como a dizer que n\u00e3o havia mudado. Era e seria o de sempre. Elas, sim, haviam mudado. At\u00e9 o olhar. Ele juntara tudo, sem saber fazer as escolhas certas, pois todas eram refinadas e ele um senhor atrapalhado. At\u00e9 repetira presentes anteriores e n\u00e3o obedecera a recomenda\u00e7\u00f5es de s\u00f3 trazer o que fosse certificado pelo Inmetro, o \u00f3rg\u00e3o do governo que d\u00e1 muito emprego e faz de conta que verifica pesos, medidas e qualidade. E ele estava ali e ouvia, de passagem, que uma delas iria se mudar para um pouco mais longe dali e n\u00e3o t\u00e3o cerca do mar onde hoje habitava, mas para um condom\u00ednio novo, sofisticado, com \u00e1reas onde as crian\u00e7as brincariam com seus iguais. E at\u00e9 foi sugerido, levemente, que outra tamb\u00e9m lhe fizesse companhia, cedendo o seu apartamento para a \u00faltima, a que casaria em breve, andaria dez passos at\u00e9 o altar e precisava de cerimonialista competente para dizer a todos como andar dez passos sem errar. E estavam ali de passagem, pois a maioria subiria, em seguida, \u00e0s montanhas, pois havia cansa\u00e7o muito a ser refeito na mans\u00e3o constru\u00edda com o denodo e a qualidade de tudo o que a progenitora fazia. E cujo endere\u00e7o, diga-se, o senhor n\u00e3o conhecia. E choveu.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27\/11\/2009.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3363","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3363","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3363"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3363\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3363"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3363"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3363"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}