{"id":3365,"date":"2023-12-21T09:10:44","date_gmt":"2023-12-21T12:10:44","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/politicamente-correto-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:44","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:44","slug":"politicamente-correto-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/politicamente-correto-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"POLITICAMENTE CORRETO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Est\u00e1 sendo discutida e criticada por muitos a express\u00e3o \u201cpoliticamente correto\u201d. Dizem os agora pragm\u00e1ticos cientistas pol\u00edticos, antrop\u00f3logos, soci\u00f3logos e afins que se a a\u00e7\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica n\u00e3o pode ser correta. A pol\u00edtica tem v\u00e1rios componentes, mas nenhum deles prima pela corre\u00e7\u00e3o. Maquiavel, j\u00e1 no s\u00e9culo XVI, d\u00e1 receita n\u00e3o correta: \u201cPrecisando um pr\u00edncipe saber utilizar bem o animal, deve tomar como exemplo, a raposa e o le\u00e3o; pois o le\u00e3o n\u00e3o \u00e9 capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa n\u00e3o sabe se defender dos lobos. Deve, portanto, ser raposa para conhecer as armadilhas e le\u00e3o para espantar os lobos\u201d. Pol\u00edtica seria assim a arte de encantar serpentes e n\u00e3o desprezar vari\u00e1veis desencontradas e antag\u00f4nicas para ganhar e manter o poder que se quer ou tem. Acreditam os acad\u00eamicos na mudan\u00e7a necess\u00e1ria para socialmente correto. Um fato pode ser socialmente correto, independente da pol\u00edtica de qualquer natureza e dos que gerem a coisa p\u00fablica. E por falar em coisa p\u00fablica, lembrei da morte de Celso Pitta, ocorrida h\u00e1 duas semanas. N\u00e3o se deve julgar os mortos, tampouco tripudiar sobre quem n\u00e3o pode mais se defender. Assim, relembro apenas que Celso Pitta, embora carioca, foi prefeito eleito com milh\u00f5es de votos em S\u00e3o Paulo. Apoiado por Paulo Maluf, de quem fora empregado, derrotou Luiza Erundina (ent\u00e3o PT) e Jos\u00e9 Serra. Foi exaltado, envaidecido e posteriormente crucificado, a come\u00e7ar pela ex-mulher com informa\u00e7\u00f5es que o levaram a pris\u00e3o e ao p\u00f4r-do-sol pol\u00edtico. Aos 63, c\u00e2ncer propagado pelos infort\u00fanios, teve apenas trinta pessoas em seu enterro. Muitos pol\u00edticos, inclusive os do recente caso do Governo do Distrito Federal, e todos os ocupantes de fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas deveriam atentar ser a fama, como j\u00e1 se disse, uma sucess\u00e3o de mal-entendidos. A hist\u00f3ria tem mostrado. Para isso \u00e9 preciso ler o que Thomas Mann, esse alem\u00e3o meio brasileiro, dizia em seus \u2018Escritos autobiogr\u00e1ficos\u2019: \u201cA gl\u00f3ria em vida \u00e9 algo problem\u00e1tico: \u00e9 aconselh\u00e1vel n\u00e3o se deixar deslumbrar por ela, muito menos estimular\u201d. Na esteira da gl\u00f3ria est\u00e1 a fama. E sobre ela, em seu \u201cPurgat\u00f3rio\u201d, Dante Alighieri falava no s\u00e9culo XIV: \u201cA fama que se adquire no mundo n\u00e3o passa de um sopro de vento, que ora vem de uma parte, ora de outra, e assume um nome diferente segundo a dire\u00e7\u00e3o de onde sopra\u201d. Assim, a fama e a gl\u00f3ria precisam de pressupostos, sem os quais ser\u00e3o sopros do vento. Sem ess\u00eancia e pressupostos verdadeiros, n\u00e3o h\u00e1 o politicamente correto ou o socialmente justo ou certo. As pessoas esquecem que s\u00e3o mortais, finitas. Por serem vaidosas e ambiciosas, se deixam levar por oportunidades, instantes, apar\u00eancias, interesses e devaneios. Ao fim e ao cabo, descobrem que nada era t\u00e3o importante e necess\u00e1rio. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04\/12\/2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Est\u00e1 sendo discutida e criticada por muitos a express\u00e3o \u201cpoliticamente correto\u201d. Dizem os agora pragm\u00e1ticos cientistas pol\u00edticos, antrop\u00f3logos, soci\u00f3logos e afins que se a a\u00e7\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica n\u00e3o pode ser correta. A pol\u00edtica tem v\u00e1rios componentes, mas nenhum deles prima pela corre\u00e7\u00e3o. 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Assim, relembro apenas que Celso Pitta, embora carioca, foi prefeito eleito com milh\u00f5es de votos em S\u00e3o Paulo. Apoiado por Paulo Maluf, de quem fora empregado, derrotou Luiza Erundina (ent\u00e3o PT) e Jos\u00e9 Serra. Foi exaltado, envaidecido e posteriormente crucificado, a come\u00e7ar pela ex-mulher com informa\u00e7\u00f5es que o levaram a pris\u00e3o e ao p\u00f4r-do-sol pol\u00edtico. Aos 63, c\u00e2ncer propagado pelos infort\u00fanios, teve apenas trinta pessoas em seu enterro. Muitos pol\u00edticos, inclusive os do recente caso do Governo do Distrito Federal, e todos os ocupantes de fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas deveriam atentar ser a fama, como j\u00e1 se disse, uma sucess\u00e3o de mal-entendidos. A hist\u00f3ria tem mostrado. Para isso \u00e9 preciso ler o que Thomas Mann, esse alem\u00e3o meio brasileiro, dizia em seus \u2018Escritos autobiogr\u00e1ficos\u2019: \u201cA gl\u00f3ria em vida \u00e9 algo problem\u00e1tico: \u00e9 aconselh\u00e1vel n\u00e3o se deixar deslumbrar por ela, muito menos estimular\u201d. Na esteira da gl\u00f3ria est\u00e1 a fama. E sobre ela, em seu \u201cPurgat\u00f3rio\u201d, Dante Alighieri falava no s\u00e9culo XIV: \u201cA fama que se adquire no mundo n\u00e3o passa de um sopro de vento, que ora vem de uma parte, ora de outra, e assume um nome diferente segundo a dire\u00e7\u00e3o de onde sopra\u201d. Assim, a fama e a gl\u00f3ria precisam de pressupostos, sem os quais ser\u00e3o sopros do vento. Sem ess\u00eancia e pressupostos verdadeiros, n\u00e3o h\u00e1 o politicamente correto ou o socialmente justo ou certo. As pessoas esquecem que s\u00e3o mortais, finitas. 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