{"id":3368,"date":"2023-12-21T09:10:44","date_gmt":"2023-12-21T12:10:44","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-visita-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:44","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:44","slug":"a-visita-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-visita-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"A VISITA &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Trocamos telefonemas. Tens\u00e3o constante. Fui apanh\u00e1-lo no outro lado da cidade. Manh\u00e3 alta. Dia de semana, tr\u00e2nsito ca\u00f3tico. Cheguei. Veio de l\u00e1 com seu jaleco branco bem passado, olhar turvo por tr\u00e1s das lentes espessas, os ralos e gris cabelos da cabe\u00e7a e bigode mostravam sinais de cuidado. Sab\u00edamos o que ir\u00edamos fazer. Falamos do acontecido e o que se poderia tentar. Ouvi dos contatos preliminares, da ambul\u00e2ncia e da necessidade de pedir boa assist\u00eancia. Conseguimos estacionar, entramos no hospital. Direto ao elevador para a UTI, onde ficam os necessitados de tratamento intensivo. Lavamos as m\u00e3os, falamos com o m\u00e9dico intensivista, olhamos o quadro cl\u00ednico no prontu\u00e1rio e nos encaminhamos para o leito. De repente, o homem do jaleco j\u00e1 n\u00e3o era mais m\u00e9dico, o que pastorea almas desesperadas, recomenda modera\u00e7\u00e3o, ouve queixumes e medica. Era o filho-menino do pai inerte, mas de face serena, sua c\u00f3pia em s\u00e9pia. Quem ali estava deitado, cheio de tubos, cercado de m\u00e1quinas, era o velho \u201cpairm\u00e3o\u201d amado e reclam\u00e3o. O coma e o respirar por instrumentos obrigava a pensar na sua vida de atleta, jogador de futebol que fora, da lida em livraria para sustentar a fam\u00edlia e das andan\u00e7as et\u00edlico-sociais nas redondezas. A realidade se confundia com o tom monoc\u00f3rdio dos reguladores da vida a se esvair. E tivemos, sem trocar palavras, ci\u00eancia de que a Caetana rondava e cobrava os dividendos do tempo. Pouco havia a fazer. Cumpri o estabelecido e coloquei o homem de jaleco em contato com a dire\u00e7\u00e3o que prometeu cuidados maiores. Depois, tal como subimos, baixamos \u00e0 vida espremida entre buzinas, camel\u00f4s, engarrafamentos e o calor abrasador do sol zenital. E, silentes, tivemos no\u00e7\u00e3o do prov\u00e1vel infort\u00fanio. A volta foi mais lenta e o jaleco, agora amarfanhado, parecia um cobertor a agasalhar o homem-menino que saia, pouco a pouco, do transe e se reencontrava com o ceticismo natural dos seguidores de Hip\u00f3crates. Parei. Ele desceu, acendeu o cigarro, abriu o port\u00e3o e, penso, foi chorar sozinho. O resto \u00e9 sil\u00eancio, como queria um certo William.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 13\/12\/2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trocamos telefonemas. Tens\u00e3o constante. Fui apanh\u00e1-lo no outro lado da cidade. Manh\u00e3 alta. Dia de semana, tr\u00e2nsito ca\u00f3tico. Cheguei. Veio de l\u00e1 com seu jaleco branco bem passado, olhar turvo por tr\u00e1s das lentes espessas, os ralos e gris cabelos da cabe\u00e7a e bigode mostravam sinais de cuidado. Sab\u00edamos o que ir\u00edamos fazer. Falamos do acontecido e o que se poderia tentar. Ouvi dos contatos preliminares, da ambul\u00e2ncia e da necessidade de pedir boa assist\u00eancia. Conseguimos estacionar, entramos no hospital. Direto ao elevador para a UTI, onde ficam os necessitados de tratamento intensivo. Lavamos as m\u00e3os, falamos com o m\u00e9dico intensivista, olhamos o quadro cl\u00ednico no prontu\u00e1rio e nos encaminhamos para o leito. De repente, o homem do jaleco j\u00e1 n\u00e3o era mais m\u00e9dico, o que pastorea almas desesperadas, recomenda modera\u00e7\u00e3o, ouve queixumes e medica. Era o filho-menino do pai inerte, mas de face serena, sua c\u00f3pia em s\u00e9pia. Quem ali estava deitado, cheio de tubos, cercado de m\u00e1quinas, era o velho \u201cpairm\u00e3o\u201d amado e reclam\u00e3o. O coma e o respirar por instrumentos obrigava a pensar na sua vida de atleta, jogador de futebol que fora, da lida em livraria para sustentar a fam\u00edlia e das andan\u00e7as et\u00edlico-sociais nas redondezas. A realidade se confundia com o tom monoc\u00f3rdio dos reguladores da vida a se esvair. E tivemos, sem trocar palavras, ci\u00eancia de que a Caetana rondava e cobrava os dividendos do tempo. Pouco havia a fazer. Cumpri o estabelecido e coloquei o homem de jaleco em contato com a dire\u00e7\u00e3o que prometeu cuidados maiores. Depois, tal como subimos, baixamos \u00e0 vida espremida entre buzinas, camel\u00f4s, engarrafamentos e o calor abrasador do sol zenital. E, silentes, tivemos no\u00e7\u00e3o do prov\u00e1vel infort\u00fanio. A volta foi mais lenta e o jaleco, agora amarfanhado, parecia um cobertor a agasalhar o homem-menino que saia, pouco a pouco, do transe e se reencontrava com o ceticismo natural dos seguidores de Hip\u00f3crates. Parei. Ele desceu, acendeu o cigarro, abriu o port\u00e3o e, penso, foi chorar sozinho. 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