{"id":3369,"date":"2023-12-21T09:10:44","date_gmt":"2023-12-21T12:10:44","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-limite-do-barulho-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:44","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:44","slug":"o-limite-do-barulho-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-limite-do-barulho-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"O LIMITE DO BARULHO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Domingo passado assisti ao filme americano \u201cPassando dos limites\u201d.(Noise). Nele, Tim Robbins protagoniza um cidad\u00e3o comum, empregado, casado, uma filha, apartamento etc. Ele come\u00e7a a ficar incomodado com os barulhos noturnos das sirenas dos alarmes dos milh\u00f5es de carros que, por qualquer raz\u00e3o, s\u00e3o disparados. A partir da\u00ed, ele desenvolve um transtorno obsessivo compulsivo que o enfurece ao ouvir o som ensurdecedor de alarmes a qualquer hora do dia ou da noite. Passa, ent\u00e3o, de cidad\u00e3o comum, a ser uma esp\u00e9cie meio paran\u00f3ide de vigilante desligando cabos das baterias de carros at\u00e9 chegar ao \u00e1pice da sua semi-destrui\u00e7\u00e3o com os p\u00e9s e marretas, invocando, para si, um \u201cpapel social\u201d. Vai preso, reincide, passa 30 dias no xadrez e, ao sair, o casamento \u00e9 desfeito. Fica, al\u00e9m de obsessivo, desempregado. Procura, ent\u00e3o, formar um grande \u201cabaixo-assinado\u201d para coibir a instala\u00e7\u00e3o de alarmes em carros. Logo, consegue adeptos para ajudar a mostrar que, em Nova Iorque, ningu\u00e9m se importa mais quando um alarme soa. Deixemos o filme em suspenso. No dia seguinte, segunda-feira, o professor da FGV, Bresser Pereira, escreveu na Folha de SP, o artigo \u201cDireito ao Sil\u00eancio\u201d. Ele reclama dos alto-falantes dos aeroportos brasileiros que incomodam mais que informam. Fala tamb\u00e9m do que tenho escrito h\u00e1 algum tempo: o zumbido monoc\u00f3rdio dos h\u00e9lices das torres de energia e\u00f3lica. Cita at\u00e9 o \u201cLe Monde Magazine\u201d, de 28 de novembro passado, como fonte de clamor de franceses contra o som forte, grave e repetido que parece estar causando ins\u00f4nia, n\u00e1usea, irrita\u00e7\u00e3o e at\u00e9 depress\u00e3o aos vizinhos desses grandes geradores. S\u00e3o duas narrativas distintas. A primeira \u00e9 fic\u00e7\u00e3o, baseada na zoeira de qualquer grande cidade. A segunda, real e comprovada. N\u00e3o bastam as descolagens e aterragens de avi\u00f5es, ainda temos que ouvir os alto-falantes dizendo o que j\u00e1 se v\u00ea nos monitores de televis\u00e3o, isto sem falar, nas constantes mudan\u00e7as de port\u00e3o de embarque. Al\u00e9m dos alarmes disparados, dos alto-falantes dos aeroportos, h\u00e1 muita coisa mais a fazer barulho. Espa\u00e7os p\u00fablicos com cantores e pastores. Pouca gente sabendo se comportar em restaurante. Fala-se alto, gesticula-se e os vizinhos, desconcertados. Nas ruas, camel\u00f4s, pedintes, buzinas e caixas de sons de alguns carros ultrapassam, em muito, os limites naturais da toler\u00e2ncia. Falar alto em ambiente p\u00fablico, usar caixas de som ensurdecedoras, acelerar quando o sinal abre s\u00e3o provas inequ\u00edvocas de falta de educa\u00e7\u00e3o. Diz o Talmud: \u201cuma palavra vale uma moeda; o sil\u00eancio vale duas\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18\/12\/2009<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Domingo passado assisti ao filme americano \u201cPassando dos limites\u201d.(Noise). Nele, Tim Robbins protagoniza um cidad\u00e3o comum, empregado, casado, uma filha, apartamento etc. Ele come\u00e7a a ficar incomodado com os barulhos noturnos das sirenas dos alarmes dos milh\u00f5es de carros que, por qualquer raz\u00e3o, s\u00e3o disparados. A partir da\u00ed, ele desenvolve um transtorno obsessivo compulsivo que o enfurece ao ouvir o som ensurdecedor de alarmes a qualquer hora do dia ou da noite. Passa, ent\u00e3o, de cidad\u00e3o comum, a ser uma esp\u00e9cie meio paran\u00f3ide de vigilante desligando cabos das baterias de carros at\u00e9 chegar ao \u00e1pice da sua semi-destrui\u00e7\u00e3o com os p\u00e9s e marretas, invocando, para si, um \u201cpapel social\u201d. Vai preso, reincide, passa 30 dias no xadrez e, ao sair, o casamento \u00e9 desfeito. Fica, al\u00e9m de obsessivo, desempregado. Procura, ent\u00e3o, formar um grande \u201cabaixo-assinado\u201d para coibir a instala\u00e7\u00e3o de alarmes em carros. Logo, consegue adeptos para ajudar a mostrar que, em Nova Iorque, ningu\u00e9m se importa mais quando um alarme soa. Deixemos o filme em suspenso. No dia seguinte, segunda-feira, o professor da FGV, Bresser Pereira, escreveu na Folha de SP, o artigo \u201cDireito ao Sil\u00eancio\u201d. Ele reclama dos alto-falantes dos aeroportos brasileiros que incomodam mais que informam. Fala tamb\u00e9m do que tenho escrito h\u00e1 algum tempo: o zumbido monoc\u00f3rdio dos h\u00e9lices das torres de energia e\u00f3lica. Cita at\u00e9 o \u201cLe Monde Magazine\u201d, de 28 de novembro passado, como fonte de clamor de franceses contra o som forte, grave e repetido que parece estar causando ins\u00f4nia, n\u00e1usea, irrita\u00e7\u00e3o e at\u00e9 depress\u00e3o aos vizinhos desses grandes geradores. S\u00e3o duas narrativas distintas. A primeira \u00e9 fic\u00e7\u00e3o, baseada na zoeira de qualquer grande cidade. A segunda, real e comprovada. N\u00e3o bastam as descolagens e aterragens de avi\u00f5es, ainda temos que ouvir os alto-falantes dizendo o que j\u00e1 se v\u00ea nos monitores de televis\u00e3o, isto sem falar, nas constantes mudan\u00e7as de port\u00e3o de embarque. Al\u00e9m dos alarmes disparados, dos alto-falantes dos aeroportos, h\u00e1 muita coisa mais a fazer barulho. Espa\u00e7os p\u00fablicos com cantores e pastores. Pouca gente sabendo se comportar em restaurante. Fala-se alto, gesticula-se e os vizinhos, desconcertados. Nas ruas, camel\u00f4s, pedintes, buzinas e caixas de sons de alguns carros ultrapassam, em muito, os limites naturais da toler\u00e2ncia. Falar alto em ambiente p\u00fablico, usar caixas de som ensurdecedoras, acelerar quando o sinal abre s\u00e3o provas inequ\u00edvocas de falta de educa\u00e7\u00e3o. Diz o Talmud: \u201cuma palavra vale uma moeda; o sil\u00eancio vale duas\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18\/12\/2009<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3369","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3369","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3369"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3369\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3369"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3369"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3369"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}