{"id":3377,"date":"2023-12-21T09:10:44","date_gmt":"2023-12-21T12:10:44","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/sem-destino-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:44","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:44","slug":"sem-destino-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/sem-destino-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"SEM DESTINO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Permiti-me passar uns dias longe de tudo. Distante, sem computador e fora de contato, exceto por raros telefonemas. N\u00e3o sou acostumado a isso. Sempre fui multiuso, ocupado, cuidando disso e fazendo aquilo. Na virada do ano resolvi dar folga a mim mesmo, fam\u00edlia e amigos. E o que fiz? Li um livro (Doubl\u00ea de Corpo) com mais de 400 p\u00e1ginas, de Tess Gerritsem, uma m\u00e9dica que resolveu abandonar o estetosc\u00f3pio para escrever romances policiais intrincados com pinceladas de conhecimento cient\u00edfico. N\u00e3o precisa ter estudado medicina legal, basta ler sem ningu\u00e9m por perto. Ao mesmo tempo, viajei e deixei que as alturas me conduzissem entre nuvens, cirros ou nimbo-estratos, de uma banda \u00e0 outra desse mar-oceano que nos banha. E tive, uma vez mais, a sensa\u00e7\u00e3o aquietada da grandeza do universo, exceto pelos raros solavancos ao cruzar ilhas que permeiam as muitas novas terras do sul e norte.<br \/>\nDesci, vi parques, estradas, praias e gentes. Gentes, assim mesmo no plural, pois eram de muitas partes e de costumes v\u00e1rios. Umas vozes de acentos sincopados, outras com sons guturais fortes, acres, que n\u00e3o t\u00eam nada a ver conosco, livres por natureza e atitudes. Andei a esmo, sem destino, uma esp\u00e9cie de \u201ceasy rider\u201d maduro, sem o chap\u00e9u do James Dean. E parei para rever um mosteiro sombreado. Velho conhecido que estava de cadeado \u00e0 porta. Em compensa\u00e7\u00e3o, fui a uma grande livraria. Dessas que t\u00eam um charmoso caf\u00e9 onde x\u00edcaras, copos, livros, computadores, pap\u00e9is, dividem as mesas entre jovens e maduros que est\u00e3o l\u00e1 esquecidos do mundo e um atendente gay fala com erudi\u00e7\u00e3o afetada. De l\u00e1 sa\u00ed mais pesado, com o olhar raso de avidez pelo conte\u00fado do que levava. Como todo mortal, fiz compras de impulso, nada compulsivo. E at\u00e9 comprei Dvds remasterizados da s\u00e9rie Flash Gordon que vou compartilhar com amigos cinemeiros. E, sem que a Cl\u00e1udia Leit\u00e3o e o Auto Filho estivessem por perto, entrei, por mera curiosidade, em duas bibliotecas p\u00fablicas. Modernas, claras, envidra\u00e7adas, limpas, bonitas, frequentadas, informatizadas, onde se tira foto ao chegar. L\u00e1, empanturrei-me de tudo, at\u00e9 de jornais, revistas, brochuras apregoando isso e aquilo ou representando valores, n\u00e3o necessariamente os meus.<br \/>\nE, agora, estou de volta. Dirigindo, olhar atento, paro no sinal. Os vidros fechados recebem toques de dedos magros \u00e0 espera de um trocadinho. Abro o vidro para a realidade e vejo um assalto logo ali na frente. \u00c9 isso a\u00ed. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18\/01\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Permiti-me passar uns dias longe de tudo. Distante, sem computador e fora de contato, exceto por raros telefonemas. N\u00e3o sou acostumado a isso. Sempre fui multiuso, ocupado, cuidando disso e fazendo aquilo. Na virada do ano resolvi dar folga a mim mesmo, fam\u00edlia e amigos. E o que fiz? Li um livro (Doubl\u00ea de Corpo) com mais de 400 p\u00e1ginas, de Tess Gerritsem, uma m\u00e9dica que resolveu abandonar o estetosc\u00f3pio para escrever romances policiais intrincados com pinceladas de conhecimento cient\u00edfico. N\u00e3o precisa ter estudado medicina legal, basta ler sem ningu\u00e9m por perto. Ao mesmo tempo, viajei e deixei que as alturas me conduzissem entre nuvens, cirros ou nimbo-estratos, de uma banda \u00e0 outra desse mar-oceano que nos banha. E tive, uma vez mais, a sensa\u00e7\u00e3o aquietada da grandeza do universo, exceto pelos raros solavancos ao cruzar ilhas que permeiam as muitas novas terras do sul e norte.<br \/>\nDesci, vi parques, estradas, praias e gentes. Gentes, assim mesmo no plural, pois eram de muitas partes e de costumes v\u00e1rios. Umas vozes de acentos sincopados, outras com sons guturais fortes, acres, que n\u00e3o t\u00eam nada a ver conosco, livres por natureza e atitudes. Andei a esmo, sem destino, uma esp\u00e9cie de \u201ceasy rider\u201d maduro, sem o chap\u00e9u do James Dean. E parei para rever um mosteiro sombreado. Velho conhecido que estava de cadeado \u00e0 porta. Em compensa\u00e7\u00e3o, fui a uma grande livraria. Dessas que t\u00eam um charmoso caf\u00e9 onde x\u00edcaras, copos, livros, computadores, pap\u00e9is, dividem as mesas entre jovens e maduros que est\u00e3o l\u00e1 esquecidos do mundo e um atendente gay fala com erudi\u00e7\u00e3o afetada. De l\u00e1 sa\u00ed mais pesado, com o olhar raso de avidez pelo conte\u00fado do que levava. Como todo mortal, fiz compras de impulso, nada compulsivo. E at\u00e9 comprei Dvds remasterizados da s\u00e9rie Flash Gordon que vou compartilhar com amigos cinemeiros. E, sem que a Cl\u00e1udia Leit\u00e3o e o Auto Filho estivessem por perto, entrei, por mera curiosidade, em duas bibliotecas p\u00fablicas. 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Abro o vidro para a realidade e vejo um assalto logo ali na frente. \u00c9 isso a\u00ed. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18\/01\/2008.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3377","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3377","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3377"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3377\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3377"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3377"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3377"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}