{"id":3390,"date":"2023-12-21T09:10:45","date_gmt":"2023-12-21T12:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/envelhecer-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:45","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:45","slug":"envelhecer-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/envelhecer-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"ENVELHECER &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Acabei de ler um livro da escritora inglesa Elizabeth Taylor. N\u00e3o confundir com a atriz hom\u00f4nima, tamb\u00e9m inglesa, mas que fez sucesso em Hollywood, Estados Unidos. \u201cMrs Palfrey no Claremont\u201d \u00e9 um romance curto sobre a solid\u00e3o da velhice (\u201cEla aceitava a idade do modo que ela chegava, e estava chegando depressa\u201d). Retrata com detalhes e humor tipicamente brit\u00e2nico a vida de uma senhora vi\u00fava que se recolhe em um hotel em Londres para fugir da solid\u00e3o dos asilos de velhos. Vejam que trecho bonito e duro: \u201cEnvelhecer era um trabalho \u00e1rduo. Era como ser um beb\u00ea ao contr\u00e1rio. Para um beb\u00ea, cada dia significa aprender coisas novas. Para os velhos, cada dia significa perder alguma coisa\u201d. Mrs. Palfrey descobre, logo, que os poucos idosos residentes no hotel, t\u00eam uma teia de futricas, destacando-se a apresenta\u00e7\u00e3o de parentes aos demais como forma de demostrar prest\u00edgio e fazer crer n\u00e3o est\u00e3o s\u00f3s no mundo. Ela tem um neto que mora em Londres que n\u00e3o lhe d\u00e1 a menor aten\u00e7\u00e3o. Um dia, ela leva uma queda na cidade e \u00e9 socorrida por um jovem, aprendiz de escritor. A esse jovem ela pede que se passe por seu neto. E o faz para n\u00e3o ficar por baixo. Dessa rela\u00e7\u00e3o meio acidental, meio for\u00e7ada, surge uma depend\u00eancia emocional ao suposto neto que, algumas vezes, vive afli\u00e7\u00f5es nos contatos com os amigos de Mrs. Palfrey. O que importa e fica da hist\u00f3ria \u00e9 a certeza de que as amizades s\u00e3o, algumas vezes, maiores que o parentesco. O que ela apenas pede ao falso neto \u00e9 um pouco de aten\u00e7\u00e3o no vazio de tempo que \u00e9 a sua vida de aposentada. Em ingl\u00eas, aposentado \u00e9 \u201cretired\u201d. Ao p\u00e9 da letra s\u00e3o os retirados da circula\u00e7\u00e3o, do mundo produtivo. Quanto engano. H\u00e1 muita sabedoria na conviv\u00eancia com idosos, pois passaram pelas alegrias e males da exist\u00eancia com capacidade de contempla\u00e7\u00e3o aliada \u00e0 compaix\u00e3o, sentimento pouco comum aos jovens, ainda envoltos com a falsa ideia da perenidade da vida. N\u00e3o h\u00e1 tempo perdido no encontro com os mais velhos. Seus passos ou vozes vacilantes s\u00e3o iluminados pela sabedoria natural de conservar a esperan\u00e7a no pr\u00f3ximo. Especialmente se o pr\u00f3ximo deles se acercarem com carinho.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 02\/03\/2008<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acabei de ler um livro da escritora inglesa Elizabeth Taylor. N\u00e3o confundir com a atriz hom\u00f4nima, tamb\u00e9m inglesa, mas que fez sucesso em Hollywood, Estados Unidos. \u201cMrs Palfrey no Claremont\u201d \u00e9 um romance curto sobre a solid\u00e3o da velhice (\u201cEla aceitava a idade do modo que ela chegava, e estava chegando depressa\u201d). Retrata com detalhes e humor tipicamente brit\u00e2nico a vida de uma senhora vi\u00fava que se recolhe em um hotel em Londres para fugir da solid\u00e3o dos asilos de velhos. Vejam que trecho bonito e duro: \u201cEnvelhecer era um trabalho \u00e1rduo. Era como ser um beb\u00ea ao contr\u00e1rio. Para um beb\u00ea, cada dia significa aprender coisas novas. Para os velhos, cada dia significa perder alguma coisa\u201d. Mrs. Palfrey descobre, logo, que os poucos idosos residentes no hotel, t\u00eam uma teia de futricas, destacando-se a apresenta\u00e7\u00e3o de parentes aos demais como forma de demostrar prest\u00edgio e fazer crer n\u00e3o est\u00e3o s\u00f3s no mundo. Ela tem um neto que mora em Londres que n\u00e3o lhe d\u00e1 a menor aten\u00e7\u00e3o. Um dia, ela leva uma queda na cidade e \u00e9 socorrida por um jovem, aprendiz de escritor. A esse jovem ela pede que se passe por seu neto. E o faz para n\u00e3o ficar por baixo. Dessa rela\u00e7\u00e3o meio acidental, meio for\u00e7ada, surge uma depend\u00eancia emocional ao suposto neto que, algumas vezes, vive afli\u00e7\u00f5es nos contatos com os amigos de Mrs. Palfrey. O que importa e fica da hist\u00f3ria \u00e9 a certeza de que as amizades s\u00e3o, algumas vezes, maiores que o parentesco. O que ela apenas pede ao falso neto \u00e9 um pouco de aten\u00e7\u00e3o no vazio de tempo que \u00e9 a sua vida de aposentada. Em ingl\u00eas, aposentado \u00e9 \u201cretired\u201d. Ao p\u00e9 da letra s\u00e3o os retirados da circula\u00e7\u00e3o, do mundo produtivo. Quanto engano. H\u00e1 muita sabedoria na conviv\u00eancia com idosos, pois passaram pelas alegrias e males da exist\u00eancia com capacidade de contempla\u00e7\u00e3o aliada \u00e0 compaix\u00e3o, sentimento pouco comum aos jovens, ainda envoltos com a falsa ideia da perenidade da vida. N\u00e3o h\u00e1 tempo perdido no encontro com os mais velhos. Seus passos ou vozes vacilantes s\u00e3o iluminados pela sabedoria natural de conservar a esperan\u00e7a no pr\u00f3ximo. Especialmente se o pr\u00f3ximo deles se acercarem com carinho.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 02\/03\/2008<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3390","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3390","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3390"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3390\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3390"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3390"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3390"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}