{"id":3394,"date":"2023-12-21T09:10:45","date_gmt":"2023-12-21T12:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/talvez-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:45","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:45","slug":"talvez-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/talvez-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"TALVEZ&#8230; &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Um dia desses fui \u00e0 casa prazenteira de uma das minhas filhas. As netas estavam fazendo tarefas escolares. Minha filha achega-se e mostra o caderno escolar de minha neta mais velha. E o faz como a dizer: veja, parece que ela tem alguma coisa sua. E vejo uma esp\u00e9cie de poesia, manuscrita, com o t\u00edtulo de \u201cTalvez&#8230;\u201d E pus-me a l\u00ea-la. A neta estava, de forma espont\u00e2nea, abordando um problema social. Ficava claro para mim que parecia sentida com uma constata\u00e7\u00e3o a que chegara. Essa constata\u00e7\u00e3o a impelia a escrever o que sentia de forma t\u00e3o doce e, ao mesmo tempo, t\u00e3o forte. E o fez como dever de casa para a escola. Vou abrir aspas para ela: \u201cTalvez uma crian\u00e7a n\u00e3o tenha o que comer \u2013 enquanto eu tenho um banquete a escolher. Talvez uma crian\u00e7a trabalhe sem parar \u2013 enquanto para mim s\u00f3 basta estudar, estudar. Talvez uma crian\u00e7a more na rua e durma no ch\u00e3o \u2013 enquanto eu deito no meu gostoso colch\u00e3o. Talvez uma crian\u00e7a passe o dia a chorar \u2013 enquanto eu s\u00f3 fa\u00e7o brincar. Talvez uma crian\u00e7a n\u00e3o tenha onde morar \u2013 enquanto eu tenho casa linda e vivo a reclamar. Talvez uma crian\u00e7a s\u00f3 queira ter uma fam\u00edlia \u2013 enquanto eu reclamo que o controle n\u00e3o tem pilha. Essas s\u00e3o as diferen\u00e7as daquela crian\u00e7a para mim \u2013 agora eu j\u00e1 sei que as vidas de algumas crian\u00e7as s\u00e3o muito duras, sim\u201d.<br \/>\nOlhei para a minha filha e sorri de alegria, embevecimento e ternura. Nada a ver com a forma do escrito, embora seja aprumada para uma menina de dez anos. Mas, principalmente pelo seu conte\u00fado. E vi que a dedica\u00e7\u00e3o de minha filha, ao acompanhar, com desvelo e aten\u00e7\u00e3o, &#8211; as tarefas das suas filhas &#8211; n\u00e3o estava sendo em v\u00e3o. Aquele escrito era fruto que ado\u00e7ava minha boca dos amargos que a vida imp\u00f5e. E, mais que depressa, mandei tirar uma c\u00f3pia para eternizar a sua escrita.<br \/>\nE, agora, partilho com voc\u00eas essa alegria de av\u00f4 coruja, com a consci\u00eancia gen\u00e9tica de que ela s\u00f3 tem um quarto do meu sangue e isso me leva a dividir com os outros tr\u00eas quartos, as duas av\u00f3s e o outro av\u00f4, esse regozijo. Aos seus pais, meeiros do seu amor, o realce pela educa\u00e7\u00e3o transmitida. A ela, Lu querida, votos para que cres\u00e7a assim, amando o pr\u00f3ximo e escrevendo.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 16\/03\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia desses fui \u00e0 casa prazenteira de uma das minhas filhas. As netas estavam fazendo tarefas escolares. Minha filha achega-se e mostra o caderno escolar de minha neta mais velha. E o faz como a dizer: veja, parece que ela tem alguma coisa sua. E vejo uma esp\u00e9cie de poesia, manuscrita, com o t\u00edtulo de \u201cTalvez&#8230;\u201d E pus-me a l\u00ea-la. A neta estava, de forma espont\u00e2nea, abordando um problema social. Ficava claro para mim que parecia sentida com uma constata\u00e7\u00e3o a que chegara. Essa constata\u00e7\u00e3o a impelia a escrever o que sentia de forma t\u00e3o doce e, ao mesmo tempo, t\u00e3o forte. E o fez como dever de casa para a escola. Vou abrir aspas para ela: \u201cTalvez uma crian\u00e7a n\u00e3o tenha o que comer \u2013 enquanto eu tenho um banquete a escolher. Talvez uma crian\u00e7a trabalhe sem parar \u2013 enquanto para mim s\u00f3 basta estudar, estudar. Talvez uma crian\u00e7a more na rua e durma no ch\u00e3o \u2013 enquanto eu deito no meu gostoso colch\u00e3o. Talvez uma crian\u00e7a passe o dia a chorar \u2013 enquanto eu s\u00f3 fa\u00e7o brincar. Talvez uma crian\u00e7a n\u00e3o tenha onde morar \u2013 enquanto eu tenho casa linda e vivo a reclamar. Talvez uma crian\u00e7a s\u00f3 queira ter uma fam\u00edlia \u2013 enquanto eu reclamo que o controle n\u00e3o tem pilha. Essas s\u00e3o as diferen\u00e7as daquela crian\u00e7a para mim \u2013 agora eu j\u00e1 sei que as vidas de algumas crian\u00e7as s\u00e3o muito duras, sim\u201d.<br \/>\nOlhei para a minha filha e sorri de alegria, embevecimento e ternura. Nada a ver com a forma do escrito, embora seja aprumada para uma menina de dez anos. Mas, principalmente pelo seu conte\u00fado. E vi que a dedica\u00e7\u00e3o de minha filha, ao acompanhar, com desvelo e aten\u00e7\u00e3o, &#8211; as tarefas das suas filhas &#8211; n\u00e3o estava sendo em v\u00e3o. Aquele escrito era fruto que ado\u00e7ava minha boca dos amargos que a vida imp\u00f5e. E, mais que depressa, mandei tirar uma c\u00f3pia para eternizar a sua escrita.<br \/>\nE, agora, partilho com voc\u00eas essa alegria de av\u00f4 coruja, com a consci\u00eancia gen\u00e9tica de que ela s\u00f3 tem um quarto do meu sangue e isso me leva a dividir com os outros tr\u00eas quartos, as duas av\u00f3s e o outro av\u00f4, esse regozijo. Aos seus pais, meeiros do seu amor, o realce pela educa\u00e7\u00e3o transmitida. A ela, Lu querida, votos para que cres\u00e7a assim, amando o pr\u00f3ximo e escrevendo.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 16\/03\/2008.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3394","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3394","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3394"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3394\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3394"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3394"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3394"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}