{"id":3399,"date":"2023-12-21T09:10:45","date_gmt":"2023-12-21T12:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/tres-historias-com-o-lucio-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:45","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:45","slug":"tres-historias-com-o-lucio-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/tres-historias-com-o-lucio-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"TR\u00caS HIST\u00d3RIAS COM O L\u00daCIO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Minha amizade com L\u00facio Brasileiro come\u00e7ou no ano em que ambos fomos aprovados no vestibular de direito da Universidade Federal do Cear\u00e1. L\u00facio viu, em seguida, que s\u00f3 no jornalismo poderia ser ele pr\u00f3prio. Abandonou o curso no primeiro ano. Dois anos ap\u00f3s, passamos a ser colegas no Correio do Cear\u00e1. Ele j\u00e1 escrevia h\u00e1 anos sobre Sociedade e eu come\u00e7ava a escrever sobre \u201cInformes Acad\u00eamicos\u201d e \u201cAdministra\u00e7\u00e3o e Neg\u00f3cios\u201d. Passei alguns anos l\u00e1 e a nossa amizade espont\u00e2nea subiu ao Iracema Plaza Hotel, onde ele morava, e se fazia constante em v\u00e1rios lugares, especialmente em papos noturnos no N\u00e1utico e Ideal com amigos. Desse tempo t\u00e3o bom e rico de fraternidade, guardo com carinho algumas lembran\u00e7as que agora conto a voc\u00eas e \u00e9 parte do livro editado pelo Lustosa da Costa: 1. Um dia, L\u00facio cismou que eu era bom filho, estudioso e trabalhador. Um \u2018rapaz de futuro\u2019, como se dizia ent\u00e3o e deveria ser seu cunhado. E foi do pensamento ao ato: apresentou-me a uma irm\u00e3. Ela e eu, alheios \u00e0 id\u00e9ia, na casa de sua fam\u00edlia no come\u00e7o da Av. Dom Lu\u00eds, rimos e ficou nisso. 2. De outra feita, era uma tarde de s\u00e1bado, j\u00e1 na sua nova e rec\u00e9m decorada &#8211; por Arialdo Pinho &#8211; cobertura do Iracema Plaza, quando avistamos um navio apitando forte no Porto do Mucuripe. \u00c9ramos uns cinco ou seis e L\u00facio lan\u00e7ou um desafio a todos: sem saber para onde aquele navio iria quem se atrevia a tom\u00e1-lo? Ao final, s\u00f3 ele e eu tomamos o \u201cRosa da Fonseca\u201d (ou seria o Ana Nery?) com destino a Bel\u00e9m. Chegando l\u00e1, peguei um Fusca e fomos passear com duas amigas, jovens da sociedade local. Fomos \u00e0 praia de Icoaracy, lugar bonito, mas distante. Volt\u00e1vamos tranq\u00fcilos, ap\u00f3s meia-noite. Eram tempos da Revolu\u00e7\u00e3o e, assim, fomos parados, sob a mira de metralhadoras, por patrulha da Aeron\u00e1utica por termos invadido, sem saber, \u00e1rea militar (era proibido trafegar \u00e0 noite por l\u00e1). Descemos do carro e fomos levados para o Corpo da Guarda. O L\u00facio, indiferente a tudo, mexia nas armas que ali estavam expostas. Chega o Oficial de Dia e informa que est\u00e1vamos detidos e que s\u00f3 ao amanhecer, quando o Comandante chegasse, ir\u00edamos ter ci\u00eancia do nosso destino. As duas jovens estavam constrangidas. Depois de algum tempo, lembrei que eu era tenente R2 \u2013 reserva &#8211; do Ex\u00e9rcito e at\u00e9 portava uma carteira de identidade militar. Gra\u00e7as a isso, fomos liberados com a promessa de n\u00e3o mais repetir o erro. Ele n\u00e3o se perturbou com nada, pois, de cansa\u00e7o, j\u00e1 dormira. 3. Por escrever no Correio do Cear\u00e1, como j\u00e1 disse, sobre administra\u00e7\u00e3o e neg\u00f3cios, a Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio de Min\u00e9rios S.A. colocou \u00e0 minha disposi\u00e7\u00e3o passagens para levar jornalistas ao Amap\u00e1. Ir\u00edamos visitar minas de mangan\u00eas, portos, estradas de ferro e o progresso que implantavam por l\u00e1. Lembro bem que as casas n\u00e3o tinham muros, eram ajardinadas e havia at\u00e9 boliche &#8211; algo in\u00e9dito no Brasil &#8211; no clube charmoso e privativo dos empregados. O fato \u00e9 que levei, entre outros: Joseoly Moreira, Guilherme Neto, Giacomo Mastroianni e o L\u00facio. Nesse tempo, L\u00facio usava um imenso bigode e, de ressaca, dormia no trem especial que nos conduzia a Serra do Navio. Consegui uma tesoura e me atrevi a aparar o seu bigode. Quando o metal da tesoura encostou-se \u00e0 sua face, ele acordou e o bigode permaneceu intacto at\u00e9 o dia em que ele, por vontade pr\u00f3pria, o tirou. Eram tempos de quase juventude e folguedos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04\/04\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha amizade com L\u00facio Brasileiro come\u00e7ou no ano em que ambos fomos aprovados no vestibular de direito da Universidade Federal do Cear\u00e1. L\u00facio viu, em seguida, que s\u00f3 no jornalismo poderia ser ele pr\u00f3prio. Abandonou o curso no primeiro ano. Dois anos ap\u00f3s, passamos a ser colegas no Correio do Cear\u00e1. Ele j\u00e1 escrevia h\u00e1 anos sobre Sociedade e eu come\u00e7ava a escrever sobre \u201cInformes Acad\u00eamicos\u201d e \u201cAdministra\u00e7\u00e3o e Neg\u00f3cios\u201d. Passei alguns anos l\u00e1 e a nossa amizade espont\u00e2nea subiu ao Iracema Plaza Hotel, onde ele morava, e se fazia constante em v\u00e1rios lugares, especialmente em papos noturnos no N\u00e1utico e Ideal com amigos. Desse tempo t\u00e3o bom e rico de fraternidade, guardo com carinho algumas lembran\u00e7as que agora conto a voc\u00eas e \u00e9 parte do livro editado pelo Lustosa da Costa: 1. Um dia, L\u00facio cismou que eu era bom filho, estudioso e trabalhador. Um \u2018rapaz de futuro\u2019, como se dizia ent\u00e3o e deveria ser seu cunhado. E foi do pensamento ao ato: apresentou-me a uma irm\u00e3. Ela e eu, alheios \u00e0 id\u00e9ia, na casa de sua fam\u00edlia no come\u00e7o da Av. Dom Lu\u00eds, rimos e ficou nisso. 2. De outra feita, era uma tarde de s\u00e1bado, j\u00e1 na sua nova e rec\u00e9m decorada &#8211; por Arialdo Pinho &#8211; cobertura do Iracema Plaza, quando avistamos um navio apitando forte no Porto do Mucuripe. \u00c9ramos uns cinco ou seis e L\u00facio lan\u00e7ou um desafio a todos: sem saber para onde aquele navio iria quem se atrevia a tom\u00e1-lo? Ao final, s\u00f3 ele e eu tomamos o \u201cRosa da Fonseca\u201d (ou seria o Ana Nery?) com destino a Bel\u00e9m. Chegando l\u00e1, peguei um Fusca e fomos passear com duas amigas, jovens da sociedade local. Fomos \u00e0 praia de Icoaracy, lugar bonito, mas distante. Volt\u00e1vamos tranq\u00fcilos, ap\u00f3s meia-noite. Eram tempos da Revolu\u00e7\u00e3o e, assim, fomos parados, sob a mira de metralhadoras, por patrulha da Aeron\u00e1utica por termos invadido, sem saber, \u00e1rea militar (era proibido trafegar \u00e0 noite por l\u00e1). Descemos do carro e fomos levados para o Corpo da Guarda. O L\u00facio, indiferente a tudo, mexia nas armas que ali estavam expostas. Chega o Oficial de Dia e informa que est\u00e1vamos detidos e que s\u00f3 ao amanhecer, quando o Comandante chegasse, ir\u00edamos ter ci\u00eancia do nosso destino. As duas jovens estavam constrangidas. Depois de algum tempo, lembrei que eu era tenente R2 \u2013 reserva &#8211; do Ex\u00e9rcito e at\u00e9 portava uma carteira de identidade militar. Gra\u00e7as a isso, fomos liberados com a promessa de n\u00e3o mais repetir o erro. Ele n\u00e3o se perturbou com nada, pois, de cansa\u00e7o, j\u00e1 dormira. 3. Por escrever no Correio do Cear\u00e1, como j\u00e1 disse, sobre administra\u00e7\u00e3o e neg\u00f3cios, a Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio de Min\u00e9rios S.A. colocou \u00e0 minha disposi\u00e7\u00e3o passagens para levar jornalistas ao Amap\u00e1. Ir\u00edamos visitar minas de mangan\u00eas, portos, estradas de ferro e o progresso que implantavam por l\u00e1. Lembro bem que as casas n\u00e3o tinham muros, eram ajardinadas e havia at\u00e9 boliche &#8211; algo in\u00e9dito no Brasil &#8211; no clube charmoso e privativo dos empregados. O fato \u00e9 que levei, entre outros: Joseoly Moreira, Guilherme Neto, Giacomo Mastroianni e o L\u00facio. Nesse tempo, L\u00facio usava um imenso bigode e, de ressaca, dormia no trem especial que nos conduzia a Serra do Navio. Consegui uma tesoura e me atrevi a aparar o seu bigode. Quando o metal da tesoura encostou-se \u00e0 sua face, ele acordou e o bigode permaneceu intacto at\u00e9 o dia em que ele, por vontade pr\u00f3pria, o tirou. Eram tempos de quase juventude e folguedos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04\/04\/2008.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3399","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3399","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3399"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3399\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3399"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3399"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3399"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}