{"id":3402,"date":"2023-12-21T09:10:45","date_gmt":"2023-12-21T12:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-sonho-diario-do-nordeste-2\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:45","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:45","slug":"o-sonho-diario-do-nordeste-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-sonho-diario-do-nordeste-2\/","title":{"rendered":"O SONHO &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Tive um sonho. N\u00e3o foi um sonho qualquer. Era estranho, pois misturava pessoas vivas e j\u00e1 mortas. Mas havia uma singularidade. Todos os personagens, exceto eu, eram urbanistas e paisagistas. Lembro bem que os mortos eram L\u00facio Costa e Burle Marx. Dos vivos n\u00e3o consigo lembrar. O fato \u00e9 que sobrevo\u00e1vamos a cidade de Fortaleza em dia de sol e c\u00e9u azul. L\u00facio Costa olhava tudo de bin\u00f3culos. N\u00e3o era um avi\u00e3o, bal\u00e3o ou dirig\u00edvel, mas uma esp\u00e9cie de planador ou uma jangada a\u00e9rea. Uma nave, enfim. E ele observava todo o tra\u00e7ado urbano: da Barra do Cear\u00e1 \u00e0 Praia do Futuro, do anel Vi\u00e1rio \u00e0 orla mar\u00edtima. E perguntava, como se fosse um mantra: onde est\u00e3o as grandes avenidas? Onde est\u00e3o as grandes avenidas? E eu apontava para as vias que encontrava e ele balan\u00e7ava a cabe\u00e7a. N\u00e3o estou falando de ruas largas, mas de grandes e largas avenidas, dizia. E esbo\u00e7ou com um dedo, no denso ar espacial, um desenho que n\u00e3o tinha a forma de avi\u00e3o, mas a de uma mulher com bra\u00e7os e pernas abertos e cabelos revoltos. E dizia que cada um dos bra\u00e7os e das pernas poderia ser uma grande radial. Imagine a planta da cidade, falava ele. Sobre ela coloque uma grande mulher deitada com os cabelos espalhados como trapiches tocando a orla. Um dos bra\u00e7os estendido em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Barra do Cear\u00e1 e ao Ant\u00f4nio Bezerra e o outro tocando as amplas dunas da Praia do Futuro e Sabiaguaba. As pernas seriam dois eixos enormes. Um, para os lados do Cambeba e Messejana. Outro, para Parangaba e Bom Jardim. E foi ent\u00e3o que Burle Marx meteu a sua colher de paisagista: olhem essas lagoas, rios e mangues. Isso tudo poderia ser arrumado, mas estou vendo ocupa\u00e7\u00f5es e fico triste. Faltam \u00e1rvores nas pra\u00e7as e ruas. H\u00e1 pouco verde, reclamava. No sil\u00eancio do espa\u00e7o e quase ao final do passeio a nave sobrevoava a avenida Beira Mar. Os dois olharam um para o outro e disseram: Queremos ir embora daqui. Isso choca. Eu n\u00e3o sabia o que fazer para atender ao pedido deles. N\u00e3o havia piloto, nem comandos e a brisa batia em nossas faces. Eles me olhavam seriamente e repetiam: queremos ir embora daqui. E Agora. N\u00e3o sei como, ca\u00ed da nave. Acordei.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 13\/04\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tive um sonho. N\u00e3o foi um sonho qualquer. Era estranho, pois misturava pessoas vivas e j\u00e1 mortas. Mas havia uma singularidade. Todos os personagens, exceto eu, eram urbanistas e paisagistas. Lembro bem que os mortos eram L\u00facio Costa e Burle Marx. Dos vivos n\u00e3o consigo lembrar. O fato \u00e9 que sobrevo\u00e1vamos a cidade de Fortaleza em dia de sol e c\u00e9u azul. L\u00facio Costa olhava tudo de bin\u00f3culos. N\u00e3o era um avi\u00e3o, bal\u00e3o ou dirig\u00edvel, mas uma esp\u00e9cie de planador ou uma jangada a\u00e9rea. Uma nave, enfim. E ele observava todo o tra\u00e7ado urbano: da Barra do Cear\u00e1 \u00e0 Praia do Futuro, do anel Vi\u00e1rio \u00e0 orla mar\u00edtima. E perguntava, como se fosse um mantra: onde est\u00e3o as grandes avenidas? 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