{"id":3403,"date":"2023-12-21T09:10:45","date_gmt":"2023-12-21T12:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-voo-do-audifax-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:45","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:45","slug":"o-voo-do-audifax-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-voo-do-audifax-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"O VOO DO AUDIFAX &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Se eu fosse cr\u00edtico liter\u00e1rio ou algo parecido, certamente falaria que este novo livro de Audifax Rios completa a trilogia Mem\u00f3ria do Encantamento, iniciada com Os B\u00fafalos de Campan\u00e1rio, cresceu com Migalhas para Serpentes e agora forma o v\u00e9rtice desse tri\u00e2ngulo liter\u00e1rio. Eu diria que ele tem sensibilidade narrativa, concebe e formata a est\u00e9tica da imaginada cidade de Campan\u00e1rio, no interior do nordeste, mas que poderia ser em qualquer pa\u00eds hisp\u00e2nico da Am\u00e9rica. Constr\u00f3i alegoricamente um mundo fant\u00e1stico com personagens que t\u00eam identidade forte, sexo, cor, a\u00e7\u00e3o desenvolta, vida, quase-mortes, desmortes e morte.<br \/>\nComo n\u00e3o sou cr\u00edtico liter\u00e1rio, digo que o autor de \u201cVoe comigo quando desmorrer\u201d, Audifax Rios, \u00e9 um escritor especial. Homem maduro, longil\u00edneo, \u00f3culos, grisalho, observador nato, com jeito de n\u00e3o estar com pressa. Engano. Mexe com arte desde menino na cidade de Santana do Acara\u00fa, onde nasceu e da qual garimpa a ess\u00eancia de seus romances. Em 1965 veio ter a Fortaleza, aqui fixou seus l\u00e1pis e pinc\u00e9is, constituiu fam\u00edlia, trabalhou com nanquim, aquarela l\u00edquida, guache, acr\u00edlica e se consolidou como artista pl\u00e1stico m\u00faltiplo, com um claro vi\u00e9s de pensador, pois fazia pe\u00e7as de publicidade que necessitam de interlocu\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico que almeja conquistar. Al\u00e9m disso, poder-se-ia dizer que seria um pensador-pintor-desenhista ou um desenhista-pintor-pensador.<br \/>\nAcontece que Audifax \u00e9 mais que isso. Tirou da mem\u00f3ria e do detalhe de cada desenho ou pintura que fez e faz a sensibilidade que aplica ao escrever com sutileza, mordacidade e atilamento. Ele foi em busca de uma identidade liter\u00e1ria a partir do seu outro eu, colocando-se como ficcionista. O fato \u00e9 que Audifax produz saber e isso j\u00e1 havia sido demonstrado em outros livros em que cinzela personagens, pinta cen\u00e1rios e cirze o enredo com uma costura que o associa ao realismo fant\u00e1stico latino, sem perder a brejeirice de narrador com sua end\u00f3gena nordestinidade.<br \/>\nAudifax tem jeito e pega os olhos do leitor, prende sua aten\u00e7\u00e3o com a narrativa e a paisagem de Campan\u00e1rio, sua Macondo, viva, t\u00e3o detalhada que \u00e9. \u00c9 um trabalho de sua mem\u00f3ria, misturado \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e \u00e0s muitas leituras que cada escritor faz como pesquisa, prazer ou amor ao of\u00edcio. E da\u00ed passa a construir de forma subjetiva at\u00e9 uma intertextualidade que \u00e9 m\u00faltipla, pois heran\u00e7a de tudo o que ouviu, leu, intuiu e delirou. Fora isso, as personagens de Apar\u00edcio Sans\u00e3o e Guadalupe, para ficar nas principais, s\u00e3o constru\u00eddas com arte e f\u00e9 de of\u00edcio e restar\u00e3o guardadas nas frestas da mem\u00f3ria de quem sabe ler ou procura ler com um m\u00ednimo de aten\u00e7\u00e3o e capta as nuances sutis da narrativa e seus di\u00e1logos.<br \/>\nO livro tem mortes redivivas, ambi\u00e7\u00e3o, paix\u00e3o tempestuosa, ironia, sarcasmo que deixar\u00e3o o leitor alerta para n\u00e3o perder detalhes que s\u00e3o como cascalhos, onde os olhos n\u00e3o podem pisar rapidamente. Ele fica passeando pela m\u00fasica, arte, gestual e sensualidade latinas, especialmente do M\u00e9xico, sem esquecer do circo, da pens\u00e3o de mulheres, da Igreja e do bicho-homem, entre tantas outras reina\u00e7\u00f5es deste escritor que consolida um estilo a distingui-lo como refer\u00eancia no campo minado da fantasia, devaneio, alucina\u00e7\u00e3o, desditas que precisam de enredo, come\u00e7o, meio e fim, a sequ\u00eancia l\u00f3gica dos baixos e altos de todas as vidas e das obras de f\u00f4lego. Abra a primeira p\u00e1gina. Leia, vale a pena. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18\/04\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se eu fosse cr\u00edtico liter\u00e1rio ou algo parecido, certamente falaria que este novo livro de Audifax Rios completa a trilogia Mem\u00f3ria do Encantamento, iniciada com Os B\u00fafalos de Campan\u00e1rio, cresceu com Migalhas para Serpentes e agora forma o v\u00e9rtice desse tri\u00e2ngulo liter\u00e1rio. Eu diria que ele tem sensibilidade narrativa, concebe e formata a est\u00e9tica da imaginada cidade de Campan\u00e1rio, no interior do nordeste, mas que poderia ser em qualquer pa\u00eds hisp\u00e2nico da Am\u00e9rica. Constr\u00f3i alegoricamente um mundo fant\u00e1stico com personagens que t\u00eam identidade forte, sexo, cor, a\u00e7\u00e3o desenvolta, vida, quase-mortes, desmortes e morte.<br \/>\nComo n\u00e3o sou cr\u00edtico liter\u00e1rio, digo que o autor de \u201cVoe comigo quando desmorrer\u201d, Audifax Rios, \u00e9 um escritor especial. Homem maduro, longil\u00edneo, \u00f3culos, grisalho, observador nato, com jeito de n\u00e3o estar com pressa. Engano. Mexe com arte desde menino na cidade de Santana do Acara\u00fa, onde nasceu e da qual garimpa a ess\u00eancia de seus romances. Em 1965 veio ter a Fortaleza, aqui fixou seus l\u00e1pis e pinc\u00e9is, constituiu fam\u00edlia, trabalhou com nanquim, aquarela l\u00edquida, guache, acr\u00edlica e se consolidou como artista pl\u00e1stico m\u00faltiplo, com um claro vi\u00e9s de pensador, pois fazia pe\u00e7as de publicidade que necessitam de interlocu\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico que almeja conquistar. Al\u00e9m disso, poder-se-ia dizer que seria um pensador-pintor-desenhista ou um desenhista-pintor-pensador.<br \/>\nAcontece que Audifax \u00e9 mais que isso. Tirou da mem\u00f3ria e do detalhe de cada desenho ou pintura que fez e faz a sensibilidade que aplica ao escrever com sutileza, mordacidade e atilamento. Ele foi em busca de uma identidade liter\u00e1ria a partir do seu outro eu, colocando-se como ficcionista. O fato \u00e9 que Audifax produz saber e isso j\u00e1 havia sido demonstrado em outros livros em que cinzela personagens, pinta cen\u00e1rios e cirze o enredo com uma costura que o associa ao realismo fant\u00e1stico latino, sem perder a brejeirice de narrador com sua end\u00f3gena nordestinidade.<br \/>\nAudifax tem jeito e pega os olhos do leitor, prende sua aten\u00e7\u00e3o com a narrativa e a paisagem de Campan\u00e1rio, sua Macondo, viva, t\u00e3o detalhada que \u00e9. \u00c9 um trabalho de sua mem\u00f3ria, misturado \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e \u00e0s muitas leituras que cada escritor faz como pesquisa, prazer ou amor ao of\u00edcio. E da\u00ed passa a construir de forma subjetiva at\u00e9 uma intertextualidade que \u00e9 m\u00faltipla, pois heran\u00e7a de tudo o que ouviu, leu, intuiu e delirou. Fora isso, as personagens de Apar\u00edcio Sans\u00e3o e Guadalupe, para ficar nas principais, s\u00e3o constru\u00eddas com arte e f\u00e9 de of\u00edcio e restar\u00e3o guardadas nas frestas da mem\u00f3ria de quem sabe ler ou procura ler com um m\u00ednimo de aten\u00e7\u00e3o e capta as nuances sutis da narrativa e seus di\u00e1logos.<br \/>\nO livro tem mortes redivivas, ambi\u00e7\u00e3o, paix\u00e3o tempestuosa, ironia, sarcasmo que deixar\u00e3o o leitor alerta para n\u00e3o perder detalhes que s\u00e3o como cascalhos, onde os olhos n\u00e3o podem pisar rapidamente. Ele fica passeando pela m\u00fasica, arte, gestual e sensualidade latinas, especialmente do M\u00e9xico, sem esquecer do circo, da pens\u00e3o de mulheres, da Igreja e do bicho-homem, entre tantas outras reina\u00e7\u00f5es deste escritor que consolida um estilo a distingui-lo como refer\u00eancia no campo minado da fantasia, devaneio, alucina\u00e7\u00e3o, desditas que precisam de enredo, come\u00e7o, meio e fim, a sequ\u00eancia l\u00f3gica dos baixos e altos de todas as vidas e das obras de f\u00f4lego. Abra a primeira p\u00e1gina. Leia, vale a pena. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18\/04\/2008.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3403","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3403","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3403"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3403\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3403"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3403"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3403"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}