{"id":3408,"date":"2023-12-21T09:10:45","date_gmt":"2023-12-21T12:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/carta-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:45","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:45","slug":"carta-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/carta-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"CARTA &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o fui \u00e0 Assembleia Legislativa. N\u00e3o queria v\u00ea-lo inerte. Por voc\u00ea, nos \u00faltimos meses, havia estado l\u00e1. Uma vez, por ocasi\u00e3o da homenagem aos oitenta anos da sua empresa. Ouvi o seu agradecimento e comentei que voc\u00ea falou melhor quando saiu do script. Lembra? Na outra, voc\u00ea me convidou para paraninf\u00e1-lo em duplo recebimento de pr\u00eamio. Depois, ficamos conversando a s\u00f3s, como era rotina, at\u00e9 que o deixei em casa. Voc\u00ea sabe que nosso conhecimento vem de longe, muito longe e nunca teve vi\u00e9s de interesse, tampouco de neg\u00f3cios ou fal\u00e1vamos de pessoas. Troc\u00e1vamos ideias e convers\u00e1vamos sobre projetos, fam\u00edlia, filhos, Fortaleza e o nosso Estado. Havia, entretanto, um pudor ou respeitoso sil\u00eancio m\u00fatuo sobre as dores da vida real. E por isso, hoje, me culpo. Esse limite t\u00eanue entre a intimidade e a bisbilhotice era respeitado desde os anos 70 quando viajamos juntos \u00e0 Europa. Depois, pelo destino, nos tornamos uma rara esp\u00e9cie de contra-parentes. Foram muitos os encontros, em almo\u00e7os, jantares, festas, ocasi\u00f5es de luto, bate-papos, visitas, telefonemas e e-mails em que divag\u00e1vamos, at\u00e9 sobre m\u00fasica, por seu vi\u00e9s de violonista encabulado. Mais uma vez, culpo-me por n\u00e3o ter lhe falado de outro Dem\u00f3crito, o fil\u00f3sofo grego, nascido quatro s\u00e9culos antes de Cristo. E eu poderia ter lhe dito alguns fragmentos do que ele escreveu. Em um deles, ele disse: \u201cn\u00f3s na verdade n\u00e3o conhecemos nada de certo, mas somente alguma coisa que muda de acordo com a disposi\u00e7\u00e3o do corpo.\u201d Em outro, ele referia que: \u201cfalsos e hip\u00f3critas s\u00e3o aqueles que tudo fazem com palavras, mas na realidade nada fazem\u201d. Voc\u00ea era um art\u00edfice de sonhos e do fazer acontecer. Basta abrir seu jornal, ouvir suas r\u00e1dios, ver a sua televis\u00e3o, ler as centenas de publica\u00e7\u00f5es de sua editora e constatar as a\u00e7\u00f5es de sua funda\u00e7\u00e3o e instituto que se transformam em aud\u00e1cia e vanguarda. Por fim, eu teria dito outra frase de Dem\u00f3crito, o de Abdera: \u201cOcupe-se de pouco para ser feliz.\u201d Mas, eu sabia que suas m\u00faltiplas vidas ocupavam uma mente criadora e que centenas de pessoas dependiam de seus sonhos metamorfoseados em a\u00e7\u00e3o que me obrigam a v\u00ea-lo sempre de p\u00e9, com o olhar de futuro.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 04\/05\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o fui \u00e0 Assembleia Legislativa. N\u00e3o queria v\u00ea-lo inerte. Por voc\u00ea, nos \u00faltimos meses, havia estado l\u00e1. Uma vez, por ocasi\u00e3o da homenagem aos oitenta anos da sua empresa. Ouvi o seu agradecimento e comentei que voc\u00ea falou melhor quando saiu do script. Lembra? Na outra, voc\u00ea me convidou para paraninf\u00e1-lo em duplo recebimento de pr\u00eamio. Depois, ficamos conversando a s\u00f3s, como era rotina, at\u00e9 que o deixei em casa. Voc\u00ea sabe que nosso conhecimento vem de longe, muito longe e nunca teve vi\u00e9s de interesse, tampouco de neg\u00f3cios ou fal\u00e1vamos de pessoas. Troc\u00e1vamos ideias e convers\u00e1vamos sobre projetos, fam\u00edlia, filhos, Fortaleza e o nosso Estado. Havia, entretanto, um pudor ou respeitoso sil\u00eancio m\u00fatuo sobre as dores da vida real. E por isso, hoje, me culpo. Esse limite t\u00eanue entre a intimidade e a bisbilhotice era respeitado desde os anos 70 quando viajamos juntos \u00e0 Europa. Depois, pelo destino, nos tornamos uma rara esp\u00e9cie de contra-parentes. Foram muitos os encontros, em almo\u00e7os, jantares, festas, ocasi\u00f5es de luto, bate-papos, visitas, telefonemas e e-mails em que divag\u00e1vamos, at\u00e9 sobre m\u00fasica, por seu vi\u00e9s de violonista encabulado. Mais uma vez, culpo-me por n\u00e3o ter lhe falado de outro Dem\u00f3crito, o fil\u00f3sofo grego, nascido quatro s\u00e9culos antes de Cristo. E eu poderia ter lhe dito alguns fragmentos do que ele escreveu. Em um deles, ele disse: \u201cn\u00f3s na verdade n\u00e3o conhecemos nada de certo, mas somente alguma coisa que muda de acordo com a disposi\u00e7\u00e3o do corpo.\u201d Em outro, ele referia que: \u201cfalsos e hip\u00f3critas s\u00e3o aqueles que tudo fazem com palavras, mas na realidade nada fazem\u201d. Voc\u00ea era um art\u00edfice de sonhos e do fazer acontecer. Basta abrir seu jornal, ouvir suas r\u00e1dios, ver a sua televis\u00e3o, ler as centenas de publica\u00e7\u00f5es de sua editora e constatar as a\u00e7\u00f5es de sua funda\u00e7\u00e3o e instituto que se transformam em aud\u00e1cia e vanguarda. 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