{"id":3413,"date":"2023-12-21T09:10:45","date_gmt":"2023-12-21T12:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/maio-68-40-anos-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:45","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:45","slug":"maio-68-40-anos-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/maio-68-40-anos-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"MAIO 68, 40 ANOS. &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Antes que maio acabe gostaria de dizer que muita gente idealiza o maio de 68 no Brasil. Aqui, na verdade, o ano come\u00e7ou depois. Havia uma ditadura e maio passou inc\u00f3lume. Depois, sim, como reflexo do maio da Fran\u00e7a. Vieram a Passeata dos Cem Mil, a invas\u00e3o do restaurante Calabou\u00e7o, em junho, no Rio, e o congresso da UNE, em novembro, em Ibi\u00fana, SP, quando 920 estudantes foram presos. Como contrapeso, veio o Ato Institucional No. 5, em 13 de dezembro, e o ano n\u00e3o terminou no dizer de Zuenir Ventura, autor de \u201c1968 \u2013 O ano que n\u00e3o acabou\u201d. Ele diz: \u201cAquela utopia ing\u00eanua de que as drogas seriam uma abertura da consci\u00eancia a novas percep\u00e7\u00f5es&#8230;\u201d E continua: \u201ca droga provou ser um instrumento de morte desde que foi apropriada pelas multinacionais do tr\u00e1fico\u201d. Ele tamb\u00e9m fala, hoje: Eu sou contr\u00e1rio a essa tend\u00eancia de folclorizar 68, reduzindo-o a um movimento de malucos, drogados e porra-loucas. N\u00e3o era e n\u00e3o foi assim\u201d. Vamos ent\u00e3o falar de maio de 68. O maio foi na Fran\u00e7a. L\u00e1, aconteceu. E n\u00e3o foi um movimento organizado, mas uma esp\u00e9cie de \u201cWoodstock\u201d urbana em que se contestava tudo. O mundo havia mudado, sim, mas n\u00e3o por conta exclusiva desse maio de 1968, por\u00e9m de tudo o que tinha sido vivido, dito e escrito antes por pessoas como Simone de Beauvoir que pregava a luta pela liberdade, ao inv\u00e9s da conquista da felicidade. \u00c0quela \u00e9poca, as mulheres haviam conquistado a liberdade como decorr\u00eancia de anos de lutas individuais ou coletivas. Os estudantes protestavam, eram cabeludos, o sexo aflorara com a p\u00edlula e a droga come\u00e7ava a sua trilha malfazeja, sem preju\u00edzo dos sonhos que embalam as resist\u00eancias. As universidades de Sorbonne e Nanterre foram o foco de todas as a\u00e7\u00f5es. Nessas a\u00e7\u00f5es surgem l\u00edderes, naturalmente. Um dos l\u00edderes franceses era Daniel Cohn-Bendit, ent\u00e3o mao\u00edsta, trotskista ou anarquista, que depois \u201cse tornaria um respeit\u00e1vel deputado no Parlamento Europeu\u201d, no dizer de Peter Burke, historiador ingl\u00eas. Os jovens arrancaram peda\u00e7os de cal\u00e7amento, quebraram a representa\u00e7\u00e3o da American Express e de bancos americanos, picharam a cidade e ati\u00e7aram o velho Charles De Gaulle e este queria reagir, mas recuou. Deixou a onda passar, ganhou as elei\u00e7\u00f5es parlamentares, mas renunciou em 1969, sendo sucedido por seu amigo Georges Pompidou, tamb\u00e9m do mesmo pensar. Em 1970, Jean Paul Sartre diria: \u201c&#8230;estava pensando no que havia acontecido (68) e que n\u00e3o tinha compreendido muito bem.<br \/>\nN\u00e3o pude entender o que aqueles jovens queriam\u201d. \u00c9 claro que os jovens queriam avan\u00e7os na alma pol\u00edtica francesa, que as universidades fossem reformadas, com aumento de vagas e melhor qualidade acad\u00eamica. As feministas queriam rasgar seus suti\u00e3s e mudan\u00e7as na organiza\u00e7\u00e3o familiar que passou a n\u00e3o esconder debaixo dos tapetes as suas mazelas e dramas. O que fica bem claro nestas comemora\u00e7\u00f5es \u00e9 que o residual de tudo parte da busca da liberdade, do sexo sem medo, da aceita\u00e7\u00e3o das minorias, da dissemina\u00e7\u00e3o da cultura pela d\u00favida, de novas posturas pessoais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade e da busca da igualdade entre homens e mulheres.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23\/05\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes que maio acabe gostaria de dizer que muita gente idealiza o maio de 68 no Brasil. Aqui, na verdade, o ano come\u00e7ou depois. Havia uma ditadura e maio passou inc\u00f3lume. Depois, sim, como reflexo do maio da Fran\u00e7a. Vieram a Passeata dos Cem Mil, a invas\u00e3o do restaurante Calabou\u00e7o, em junho, no Rio, e o congresso da UNE, em novembro, em Ibi\u00fana, SP, quando 920 estudantes foram presos. Como contrapeso, veio o Ato Institucional No. 5, em 13 de dezembro, e o ano n\u00e3o terminou no dizer de Zuenir Ventura, autor de \u201c1968 \u2013 O ano que n\u00e3o acabou\u201d. Ele diz: \u201cAquela utopia ing\u00eanua de que as drogas seriam uma abertura da consci\u00eancia a novas percep\u00e7\u00f5es&#8230;\u201d E continua: \u201ca droga provou ser um instrumento de morte desde que foi apropriada pelas multinacionais do tr\u00e1fico\u201d. Ele tamb\u00e9m fala, hoje: Eu sou contr\u00e1rio a essa tend\u00eancia de folclorizar 68, reduzindo-o a um movimento de malucos, drogados e porra-loucas. N\u00e3o era e n\u00e3o foi assim\u201d. Vamos ent\u00e3o falar de maio de 68. O maio foi na Fran\u00e7a. L\u00e1, aconteceu. E n\u00e3o foi um movimento organizado, mas uma esp\u00e9cie de \u201cWoodstock\u201d urbana em que se contestava tudo. O mundo havia mudado, sim, mas n\u00e3o por conta exclusiva desse maio de 1968, por\u00e9m de tudo o que tinha sido vivido, dito e escrito antes por pessoas como Simone de Beauvoir que pregava a luta pela liberdade, ao inv\u00e9s da conquista da felicidade. \u00c0quela \u00e9poca, as mulheres haviam conquistado a liberdade como decorr\u00eancia de anos de lutas individuais ou coletivas. Os estudantes protestavam, eram cabeludos, o sexo aflorara com a p\u00edlula e a droga come\u00e7ava a sua trilha malfazeja, sem preju\u00edzo dos sonhos que embalam as resist\u00eancias. As universidades de Sorbonne e Nanterre foram o foco de todas as a\u00e7\u00f5es. Nessas a\u00e7\u00f5es surgem l\u00edderes, naturalmente. Um dos l\u00edderes franceses era Daniel Cohn-Bendit, ent\u00e3o mao\u00edsta, trotskista ou anarquista, que depois \u201cse tornaria um respeit\u00e1vel deputado no Parlamento Europeu\u201d, no dizer de Peter Burke, historiador ingl\u00eas. 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