{"id":3415,"date":"2023-12-21T09:10:45","date_gmt":"2023-12-21T12:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/sensibilidade-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:45","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:45","slug":"sensibilidade-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/sensibilidade-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"SENSIBILIDADE &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Fui a uma missa de Trig\u00e9simo Dia. Era numa igreja cat\u00f3lica, certamente. A diferen\u00e7a \u00e9 que era uma concelebra\u00e7\u00e3o na noite que ensombrava neste maio calorento e \u00famido. Havia um padre e um pastor. Cada qual na sua eloqu\u00eancia, interpretando evangelhos complementares sobre a vida e a vida ap\u00f3s a vida. As palavras eram soltas, mesmo que pr\u00e9-pensadas, fugiam da liturgia usual e mostravam garantia de benqueren\u00e7a com a fam\u00edlia. O conte\u00fado e a cren\u00e7a de cada um dos dois n\u00e3o causavam dano ao outro, mas sinergia e coes\u00e3o. Falavam sobre amor e compaix\u00e3o, n\u00e3o de forma ritual\u00edstica, mas humana, quase casual e f\u00e1cil compreens\u00e3o laica. Por outro lado, a trilha sonora da cerim\u00f4nia n\u00e3o havia sido encomendada aleatoriamente. Dignificava o ouvido e os dedos &#8211; puxando ou retendo cordas &#8211; que criavam acordes de quem havia partido. Dignificava, sobretudo, pelas melodias e o conte\u00fado simb\u00f3lico dos versos de cada uma das can\u00e7\u00f5es escolhidas com carinho, sensibilidade e aten\u00e7\u00e3o. Havia dor, \u00e9 claro, mas compungida. No ambiente cabiam a sonoridade da m\u00fasica e de seus int\u00e9rpretes, a partir de uma crian\u00e7a de 10 anos. Essas ressalvas definem claramente a delicadeza dos que, mesmo pesarosos e privados de seu marido, irm\u00e3o, pai, av\u00f4 e l\u00edder, souberam honrar sua aus\u00eancia-presen\u00e7a com amor e sutileza, inclusive na sele\u00e7\u00e3o de fotos a paginar o livreto de acompanhamento. \u00c9 nesses momentos que se conhece o n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o, discri\u00e7\u00e3o e respeito de todos e cada um. L\u00e1 do meu canto, acompanhava tudo e sentia o pesar dos que l\u00e1 estavam por parentesco e amizade. \u00c9 claro que a maioria era de amigos, at\u00e9 os que n\u00e3o precisavam ir l\u00e1 \u00e0 frente apertar m\u00e3os e sa\u00edram como chegaram: silentes, com respeito e aten\u00e7\u00e3o, pois essa missa era, acima de tudo, um ato de f\u00e9 e esperan\u00e7a. N\u00e3o era fruto da raz\u00e3o, ultrapassava seus limites, pois segundo Anatole France: \u201cA raz\u00e3o n\u00e3o tem tantas virtudes assim. \u00c9 preciso, para servir aos homens, rejeitar a raz\u00e3o, como uma bagagem embara\u00e7osa e, elevar-se sobre as asas do entusiasmo. Quem raciocina, n\u00e3o voa\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30\/05\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fui a uma missa de Trig\u00e9simo Dia. Era numa igreja cat\u00f3lica, certamente. A diferen\u00e7a \u00e9 que era uma concelebra\u00e7\u00e3o na noite que ensombrava neste maio calorento e \u00famido. Havia um padre e um pastor. Cada qual na sua eloqu\u00eancia, interpretando evangelhos complementares sobre a vida e a vida ap\u00f3s a vida. As palavras eram soltas, mesmo que pr\u00e9-pensadas, fugiam da liturgia usual e mostravam garantia de benqueren\u00e7a com a fam\u00edlia. O conte\u00fado e a cren\u00e7a de cada um dos dois n\u00e3o causavam dano ao outro, mas sinergia e coes\u00e3o. Falavam sobre amor e compaix\u00e3o, n\u00e3o de forma ritual\u00edstica, mas humana, quase casual e f\u00e1cil compreens\u00e3o laica. Por outro lado, a trilha sonora da cerim\u00f4nia n\u00e3o havia sido encomendada aleatoriamente. Dignificava o ouvido e os dedos &#8211; puxando ou retendo cordas &#8211; que criavam acordes de quem havia partido. Dignificava, sobretudo, pelas melodias e o conte\u00fado simb\u00f3lico dos versos de cada uma das can\u00e7\u00f5es escolhidas com carinho, sensibilidade e aten\u00e7\u00e3o. Havia dor, \u00e9 claro, mas compungida. No ambiente cabiam a sonoridade da m\u00fasica e de seus int\u00e9rpretes, a partir de uma crian\u00e7a de 10 anos. Essas ressalvas definem claramente a delicadeza dos que, mesmo pesarosos e privados de seu marido, irm\u00e3o, pai, av\u00f4 e l\u00edder, souberam honrar sua aus\u00eancia-presen\u00e7a com amor e sutileza, inclusive na sele\u00e7\u00e3o de fotos a paginar o livreto de acompanhamento. \u00c9 nesses momentos que se conhece o n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o, discri\u00e7\u00e3o e respeito de todos e cada um. L\u00e1 do meu canto, acompanhava tudo e sentia o pesar dos que l\u00e1 estavam por parentesco e amizade. \u00c9 claro que a maioria era de amigos, at\u00e9 os que n\u00e3o precisavam ir l\u00e1 \u00e0 frente apertar m\u00e3os e sa\u00edram como chegaram: silentes, com respeito e aten\u00e7\u00e3o, pois essa missa era, acima de tudo, um ato de f\u00e9 e esperan\u00e7a. N\u00e3o era fruto da raz\u00e3o, ultrapassava seus limites, pois segundo Anatole France: \u201cA raz\u00e3o n\u00e3o tem tantas virtudes assim. \u00c9 preciso, para servir aos homens, rejeitar a raz\u00e3o, como uma bagagem embara\u00e7osa e, elevar-se sobre as asas do entusiasmo. Quem raciocina, n\u00e3o voa\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30\/05\/2008.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3415","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3415","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3415"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3415\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3415"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3415"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3415"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}