{"id":3418,"date":"2023-12-21T09:10:45","date_gmt":"2023-12-21T12:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/alcides-pinto-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:45","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:45","slug":"alcides-pinto-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/alcides-pinto-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"ALCIDES PINTO &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Estava a virar meninote. Vizinho \u00e0 casa dos meus pais havia uma cria\u00e7\u00e3o de marrecos barulhentos. L\u00e1 aparecia um sujeito magro, esquisito, idade do meu pai, mas diferente. Dias, de palet\u00f3 branco e gravata; meses depois, vestido de franciscano e, vezes, quase normal. Era irm\u00e3o da D. Mirian, a vizinha da esquerda. Procurei saber o que ele fazia. Poeta, foi a resposta. Essa a minha inicia\u00e7\u00e3o com JAP. Distante, o quanto pode ser a rela\u00e7\u00e3o de um menino com um homem estranho. Pr\u00f3xima, por me encantar a forma como se portava, sem ser o que os outros eram. Um dia, tive a ousadia de mostrar-lhe um escrito. Olhou, riu e disse: v\u00e1 em frente. D\u00e9cadas se passaram. Agora, em figura de admirador confesso, estou a amealhar palavras para dizer alguma coisa sobre o poeta, ensa\u00edsta, ficcionista e teatr\u00f3logo, o eterno visitante da casa dos marrecos. Premiado, consagrado, maduro e l\u00facido como pode ser quem vive al\u00e9m do real, tal novo Quixote de muitas dulcin\u00e9ias. N\u00e3o v\u00ea moinhos de vento, mas faz, com seus escritos, mudar o vento da mesmice da literatura brasileira, especialmente a que se configurou como a gera\u00e7\u00e3o p\u00f3s 45. Eis que, tempos depois, nos tornamos amigos, pois os maduros n\u00e3o t\u00eam idade, amealham lembran\u00e7as e servem-se de benqueren\u00e7as para o dia a dia, S\u00e3o, ao mesmo tempo, meninos com sonhos de usar baladeiras, jovens a sentir o cheiro de mulher, maduros a lutar pela vida, n\u00e3o como a tra\u00e7amos. O fato \u00e9 que passei a fazer parte dos que estavam pr\u00f3ximos ao JAP, sem que ped\u00edssemos pref\u00e1cios, olhadas em manuscritos, ajudinhas liter\u00e1rias, coisas assim. Esse grupo, entre outros, tem gente como S\u00e9rgio, Teles e Carlos Augusto. Gente que o incitava a sair de casa, a escrever e a aceitar os loiros que procuravam sua cabe\u00e7a gris e o seu cora\u00e7\u00e3o de curumim. E l\u00e1 estava ele bebericando uma cervejinha, o olhar iluminado ao passar de uma mulher faceira e sabendo estar entre os seus. Agora, JAP, tal como desejava, volta para o lugar marcado, no Estreito. Encantado por Machado de Assis que, mesmo em sua casmurrice, por ironia do calend\u00e1rio, resolveu, enfim, premi\u00e1-lo e, paradoxalmente, o far\u00e1 em duas dimens\u00f5es. Os poetas n\u00e3o morrem. Viram versos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 08\/06\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estava a virar meninote. Vizinho \u00e0 casa dos meus pais havia uma cria\u00e7\u00e3o de marrecos barulhentos. L\u00e1 aparecia um sujeito magro, esquisito, idade do meu pai, mas diferente. Dias, de palet\u00f3 branco e gravata; meses depois, vestido de franciscano e, vezes, quase normal. Era irm\u00e3o da D. Mirian, a vizinha da esquerda. Procurei saber o que ele fazia. Poeta, foi a resposta. Essa a minha inicia\u00e7\u00e3o com JAP. Distante, o quanto pode ser a rela\u00e7\u00e3o de um menino com um homem estranho. Pr\u00f3xima, por me encantar a forma como se portava, sem ser o que os outros eram. Um dia, tive a ousadia de mostrar-lhe um escrito. Olhou, riu e disse: v\u00e1 em frente. D\u00e9cadas se passaram. Agora, em figura de admirador confesso, estou a amealhar palavras para dizer alguma coisa sobre o poeta, ensa\u00edsta, ficcionista e teatr\u00f3logo, o eterno visitante da casa dos marrecos. Premiado, consagrado, maduro e l\u00facido como pode ser quem vive al\u00e9m do real, tal novo Quixote de muitas dulcin\u00e9ias. N\u00e3o v\u00ea moinhos de vento, mas faz, com seus escritos, mudar o vento da mesmice da literatura brasileira, especialmente a que se configurou como a gera\u00e7\u00e3o p\u00f3s 45. Eis que, tempos depois, nos tornamos amigos, pois os maduros n\u00e3o t\u00eam idade, amealham lembran\u00e7as e servem-se de benqueren\u00e7as para o dia a dia, S\u00e3o, ao mesmo tempo, meninos com sonhos de usar baladeiras, jovens a sentir o cheiro de mulher, maduros a lutar pela vida, n\u00e3o como a tra\u00e7amos. O fato \u00e9 que passei a fazer parte dos que estavam pr\u00f3ximos ao JAP, sem que ped\u00edssemos pref\u00e1cios, olhadas em manuscritos, ajudinhas liter\u00e1rias, coisas assim. Esse grupo, entre outros, tem gente como S\u00e9rgio, Teles e Carlos Augusto. Gente que o incitava a sair de casa, a escrever e a aceitar os loiros que procuravam sua cabe\u00e7a gris e o seu cora\u00e7\u00e3o de curumim. E l\u00e1 estava ele bebericando uma cervejinha, o olhar iluminado ao passar de uma mulher faceira e sabendo estar entre os seus. Agora, JAP, tal como desejava, volta para o lugar marcado, no Estreito. 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Viram versos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 08\/06\/2008.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3418","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3418","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3418"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3418\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3418"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3418"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3418"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}