{"id":3419,"date":"2023-12-21T09:10:45","date_gmt":"2023-12-21T12:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/namorar-verbo-antigo-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:45","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:45","slug":"namorar-verbo-antigo-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/namorar-verbo-antigo-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"NAMORAR, VERBO ANTIGO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se voc\u00eas ainda lembram: ontem foi o dia dos namorados. Classicamente, namorar \u00e9 procurar inspirar amor a algu\u00e9m. \u00c9 cortejar, cativar, desejar ardentemente, requestar etc. Ora, em tempos que as pessoas est\u00e3o perdendo a ilus\u00e3o e que cortejar \u00e9 t\u00e3o antigo, requestar \u00e9 palavra que n\u00e3o se usa mais, n\u00e3o se pode traduzir, literalmente, o que hoje possa ser namorar. As mulheres ainda rom\u00e2nticas acreditam que \u00e9 um passo inicial de uma rela\u00e7\u00e3o duradoura que leva ao casamento. Mas, para ser atual, h\u00e1 tantas varia\u00e7\u00f5es desse verbo da primeira conjuga\u00e7\u00e3o. Os jovens \u201cficam\u201d. Os menos jovens tem \u201ccasos\u201d e os maduros, os que sa\u00edram da primeira conjuga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a do verbo, procuram entender e definir o nome da rela\u00e7\u00e3o que os remete para a dif\u00edcil tentativa de estar, de forma consistente, com outra pessoa. Tenho ido a casamentos na condi\u00e7\u00e3o de padrinho, isto \u00e9, de amigo dos pais dos noivos ou de \u2018conselheiro\u2019 de um dos casantes. E ou\u00e7o com aten\u00e7\u00e3o as homilias dos padres que, via de regra, s\u00e3o fracas, pois ditas por quem n\u00e3o viveu o que tenta explicar ou louvar. Pode at\u00e9 ter tido alguma rela\u00e7\u00e3o, mas foi acidental, escondida. N\u00e3o conviveu, n\u00e3o teve filhos e, se os teve, n\u00e3o os educou como pai, mas como \u2018tio\u2019. Assim, os padres est\u00e3o fora, por n\u00e3o terem a viv\u00eancia da hist\u00f3ria do amor entre um homem e uma mulher. Creio que os pastores e os rabinos t\u00eam mais autoridade para dizer o que significa o matrim\u00f4nio, mas s\u00e3o presos aos seus evangelhos e se perdem tamb\u00e9m na idealiza\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o real entre pessoas que, quase nunca, fizeram cursos de relacionamento humano e t\u00eam sexos diferentes, da\u00ed as vis\u00f5es n\u00e3o complementares sobre as coisas e os sentimentos do mundo. Mas, eu ia falando sobre namoro, palavra que est\u00e1 perdendo o sentido de arte, de descoberta do outro, pois tudo est\u00e1 t\u00e3o direto e \u00f3bvio, a partir das roupas, dos gestuais e das a\u00e7\u00f5es de cada um. Com a morte do Artur da T\u00e1vola, esse grande cronista que a pol\u00edtica contaminou, o Brasil perde um dos grandes incentivadores do namoro, pois ele &#8211; que gostava tamb\u00e9m de m\u00fasica cl\u00e1ssica- quer soubesse ou n\u00e3o, acreditava no amor tal um conservador ou um dinossauro, como os mais jovens veem os mais velhos. Em tempos de \u2018uni\u00e3o est\u00e1vel\u2019, de div\u00f3rcios sem necessidade de juiz, de mulheres que ainda d\u00e3o o golpe da gravidez e da cobi\u00e7a pelo que imagina que a outra pessoa possa ser ou ter, h\u00e1 falta de ilus\u00e3o, enlevo, cortesia e de descoberta e isso vai dando uma vers\u00e3o ainda n\u00e3o bem definida do novo namoro, do novo casamento ou da rela\u00e7\u00e3o como a arte do encontro e n\u00e3o da mera consuma\u00e7\u00e3o do desejo. Vinicius e Drummond est\u00e3o mortos. Chico desencantou-se com a tardia solteirice e Caetano volta ao seio dos meninos do Rio, da\u00ed restam os \u2018bregas\u2019 a falar obviedades do amor, sem apresentar nada de novo em tempos de Internet, Msn, de fins de semana sem pais e de uma liberdade que ainda n\u00e3o disse a que veio. Namorar n\u00e3o \u00e9 fugir da solid\u00e3o. \u00c9 o encontro do riso, da alegria, mas \u00e9, sobretudo, a conjuga\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7as, o compartilhamento de sonhos, de dores e a parceria na elabora\u00e7\u00e3o do rascunho de uma vida em comum que se pretende feliz, mas a escrita definitiva tem muitas vers\u00f5es.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13\/06\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se voc\u00eas ainda lembram: ontem foi o dia dos namorados. Classicamente, namorar \u00e9 procurar inspirar amor a algu\u00e9m. \u00c9 cortejar, cativar, desejar ardentemente, requestar etc. Ora, em tempos que as pessoas est\u00e3o perdendo a ilus\u00e3o e que cortejar \u00e9 t\u00e3o antigo, requestar \u00e9 palavra que n\u00e3o se usa mais, n\u00e3o se pode traduzir, literalmente, o que hoje possa ser namorar. As mulheres ainda rom\u00e2nticas acreditam que \u00e9 um passo inicial de uma rela\u00e7\u00e3o duradoura que leva ao casamento. Mas, para ser atual, h\u00e1 tantas varia\u00e7\u00f5es desse verbo da primeira conjuga\u00e7\u00e3o. Os jovens \u201cficam\u201d. Os menos jovens tem \u201ccasos\u201d e os maduros, os que sa\u00edram da primeira conjuga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a do verbo, procuram entender e definir o nome da rela\u00e7\u00e3o que os remete para a dif\u00edcil tentativa de estar, de forma consistente, com outra pessoa. Tenho ido a casamentos na condi\u00e7\u00e3o de padrinho, isto \u00e9, de amigo dos pais dos noivos ou de \u2018conselheiro\u2019 de um dos casantes. E ou\u00e7o com aten\u00e7\u00e3o as homilias dos padres que, via de regra, s\u00e3o fracas, pois ditas por quem n\u00e3o viveu o que tenta explicar ou louvar. Pode at\u00e9 ter tido alguma rela\u00e7\u00e3o, mas foi acidental, escondida. N\u00e3o conviveu, n\u00e3o teve filhos e, se os teve, n\u00e3o os educou como pai, mas como \u2018tio\u2019. Assim, os padres est\u00e3o fora, por n\u00e3o terem a viv\u00eancia da hist\u00f3ria do amor entre um homem e uma mulher. Creio que os pastores e os rabinos t\u00eam mais autoridade para dizer o que significa o matrim\u00f4nio, mas s\u00e3o presos aos seus evangelhos e se perdem tamb\u00e9m na idealiza\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o real entre pessoas que, quase nunca, fizeram cursos de relacionamento humano e t\u00eam sexos diferentes, da\u00ed as vis\u00f5es n\u00e3o complementares sobre as coisas e os sentimentos do mundo. Mas, eu ia falando sobre namoro, palavra que est\u00e1 perdendo o sentido de arte, de descoberta do outro, pois tudo est\u00e1 t\u00e3o direto e \u00f3bvio, a partir das roupas, dos gestuais e das a\u00e7\u00f5es de cada um. Com a morte do Artur da T\u00e1vola, esse grande cronista que a pol\u00edtica contaminou, o Brasil perde um dos grandes incentivadores do namoro, pois ele &#8211; que gostava tamb\u00e9m de m\u00fasica cl\u00e1ssica- quer soubesse ou n\u00e3o, acreditava no amor tal um conservador ou um dinossauro, como os mais jovens veem os mais velhos. Em tempos de \u2018uni\u00e3o est\u00e1vel\u2019, de div\u00f3rcios sem necessidade de juiz, de mulheres que ainda d\u00e3o o golpe da gravidez e da cobi\u00e7a pelo que imagina que a outra pessoa possa ser ou ter, h\u00e1 falta de ilus\u00e3o, enlevo, cortesia e de descoberta e isso vai dando uma vers\u00e3o ainda n\u00e3o bem definida do novo namoro, do novo casamento ou da rela\u00e7\u00e3o como a arte do encontro e n\u00e3o da mera consuma\u00e7\u00e3o do desejo. Vinicius e Drummond est\u00e3o mortos. Chico desencantou-se com a tardia solteirice e Caetano volta ao seio dos meninos do Rio, da\u00ed restam os \u2018bregas\u2019 a falar obviedades do amor, sem apresentar nada de novo em tempos de Internet, Msn, de fins de semana sem pais e de uma liberdade que ainda n\u00e3o disse a que veio. Namorar n\u00e3o \u00e9 fugir da solid\u00e3o. \u00c9 o encontro do riso, da alegria, mas \u00e9, sobretudo, a conjuga\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7as, o compartilhamento de sonhos, de dores e a parceria na elabora\u00e7\u00e3o do rascunho de uma vida em comum que se pretende feliz, mas a escrita definitiva tem muitas vers\u00f5es.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13\/06\/2008.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3419","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3419","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3419"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3419\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3419"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3419"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3419"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}