{"id":3425,"date":"2023-12-21T09:10:45","date_gmt":"2023-12-21T12:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/amor-falado-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:45","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:45","slug":"amor-falado-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/amor-falado-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"AMOR FALADO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o gosto de amor cantado aos ventos ou mirado pelos pr\u00f3ximos. Pr\u00f3ximos, mas n\u00e3o tanto que possam saber ou sentir a intensidade &#8211; ou n\u00e3o &#8211; dos que procuram amar ou t\u00eam o desejo de, juntos, acertar o passo da afetividade sem interfer\u00eancias, palpites ou fofocas. Contardo Calligaris, cidad\u00e3o do mundo, psicanalista, escritor e maduro, refere que as declara\u00e7\u00f5es de amor s\u00e3o \u201cconstatativas\u201d ou \u201cperformativas\u201d. As constatativas seriam, como se diz hoje, tipo assim: \u201cdigo que amo porque constato que amo\u201d. As performativas seriam quando \u201cacabo amando \u00e0 for\u00e7a de dizer que amo\u201d. \u00c9 o eco do que digo fazendo morada por repeti\u00e7\u00e3o. Contardo n\u00e3o fica no muro, prefere o amor que n\u00e3o fala e n\u00e3o aceita o que chama de \u201cverborragia amorosa\u201d, a esquecer conflitos e nuances da vida real em que somos m\u00faltiplos. Trabalhamos, temos descendentes, amigos e uma teia de rela\u00e7\u00f5es que nos envolvem e essa singularidade, no geral, n\u00e3o \u00e9 conhecida na ess\u00eancia pelos outros e somos vistos como uma \u2018persona\u2019 que n\u00e3o somos. Assim, tamb\u00e9m fa\u00e7o f\u00e9 no amor silencioso ou sem palavras, por\u00e9m com atitudes, gestos, linguagem de corpo e sentimento. Tem mais consist\u00eancia e faz mais sentido que o amor-show, m\u00e3os dadas em p\u00fablico, apari\u00e7\u00f5es perform\u00e1ticas ou aquele baseado no olhar do outro sobre o que na verdade n\u00e3o somos. N\u00f3s, primeira pessoa do plural, pode ser apenas o eu e o tu, mas pode ser tamb\u00e9m o eu, o tu e muitos outros. Deste modo, para acertar o passo afetivo \u00e9 preciso apenas duas pessoas, o eu e o tu ou voc\u00ea. Os demais s\u00e3o coadjuvantes e acess\u00f3rios, inclusive ascendentes, descendentes e amigos. Da\u00ed, sempre \u00e9 bom ouvir o que autores consagrados disseram sobre o amor. N\u00e3o importa que tenham ou n\u00e3o sido bons amantes. Procuraram entender esta pequena palavra &#8211; em todas as l\u00ednguas &#8211; de tantos significados. Balzac dizia que \u201co amor n\u00e3o passa de uma fome, de uma sede, embelezada por nossa imagina\u00e7\u00e3o\u201d. Wertheimer contava que \u201co amor, para durar, exige incertezas\u201d. Shakespeare era duro: \u201co amor \u00e9 um desperd\u00edcio de alma num deserto de vergonha\u201d e Cervantes revelava: \u201cmuito te ama quem te faz chorar\u201d. Eu, (des)aprendiz de amor, digo que palavras t\u00eam pouco peso. A\u00e7\u00f5es, gestos, os olhos, o cuidado, a consequ\u00eancia dos atos, venturas a dois e a aceita\u00e7\u00e3o das falhas m\u00fatuas, s\u00e3o os insumos b\u00e1sicos do amor. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04\/07\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o gosto de amor cantado aos ventos ou mirado pelos pr\u00f3ximos. Pr\u00f3ximos, mas n\u00e3o tanto que possam saber ou sentir a intensidade &#8211; ou n\u00e3o &#8211; dos que procuram amar ou t\u00eam o desejo de, juntos, acertar o passo da afetividade sem interfer\u00eancias, palpites ou fofocas. Contardo Calligaris, cidad\u00e3o do mundo, psicanalista, escritor e maduro, refere que as declara\u00e7\u00f5es de amor s\u00e3o \u201cconstatativas\u201d ou \u201cperformativas\u201d. As constatativas seriam, como se diz hoje, tipo assim: \u201cdigo que amo porque constato que amo\u201d. As performativas seriam quando \u201cacabo amando \u00e0 for\u00e7a de dizer que amo\u201d. \u00c9 o eco do que digo fazendo morada por repeti\u00e7\u00e3o. Contardo n\u00e3o fica no muro, prefere o amor que n\u00e3o fala e n\u00e3o aceita o que chama de \u201cverborragia amorosa\u201d, a esquecer conflitos e nuances da vida real em que somos m\u00faltiplos. Trabalhamos, temos descendentes, amigos e uma teia de rela\u00e7\u00f5es que nos envolvem e essa singularidade, no geral, n\u00e3o \u00e9 conhecida na ess\u00eancia pelos outros e somos vistos como uma \u2018persona\u2019 que n\u00e3o somos. 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