{"id":3433,"date":"2023-12-21T09:10:46","date_gmt":"2023-12-21T12:10:46","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-queda-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:46","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:46","slug":"a-queda-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-queda-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"A QUEDA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Estava no parque. Como de costume. Ningu\u00e9m a notava. Poucos sabiam dela. S\u00f3 quando vinha a crise \u00e9 que os olhos da indiferen\u00e7a transformavam-se em piedade. E o medo de cont\u00e1gio fazia brotar o olhar sadio ou s\u00e1dico dos outros. Tudo era sentido. Os pren\u00fancios, o turbamento da vista, olhos revirando e o agito da convuls\u00e3o. Agora, sentada ao ch\u00e3o, vendo a sombra da \u00e1rvore brincar com os seus p\u00e9s, sentia-se livre. Sabia que n\u00e3o viria o ataque. Era, naquela hora, t\u00e3o sadia quanto o tronco em que escorava as costas. Respirou fundo e uma folha caiu em seu rega\u00e7o, como uma m\u00e3o invis\u00edvel e sens\u00edvel entre seus seios de virgem.<br \/>\nDo outro lado do parque passava um homem de bicicleta. Era o Z\u00e9, aquele faz tudo que j\u00e1 desentupira a pia da cozinha e assentara o banco no jardim. Ele ia direto \u00e0 vila de casas de aluguel do pai de Maria. No bagageiro, a bolsa entreaberta mostrava o cabo de uma colher de pedreiro. Z\u00e9 n\u00e3o viu a pedra que fez a bicicleta derrub\u00e1-lo. Ela, r\u00e1pida, correu. Z\u00e9 j\u00e1 se recompunha, com um filete de sangue na boca. Maria rasgou a barra da saia e comprimiu o ferimento. Z\u00e9, calado, respirava calmo e punha os olhos na filha do patr\u00e3o. Levantou a bicicleta, juntos os trecos da bolsa e o mais que disse foi: obrigado.<br \/>\nUm dia, o patr\u00e3o, j\u00e1 vi\u00favo, morreu. N\u00e3o se atreveu a ir ao enterro, mas ficou do outro lado da rua e viu quando Maria saiu sozinha, chorando. E foi ent\u00e3o que correu a not\u00edcia: Maria viria morar entre eles. Z\u00e9 ajudou na mudan\u00e7a: uma velha penteadeira, cadeiras, mesa, m\u00e1quina de costura, mala, geladeira e o retrato do casamento dos pais. Maria sorriu, agradecida. Z\u00e9 sorriu amarelo e pintou a casa de rosa, colocou telhas de vidro no teto e viu o sol sobre os mosaicos encardidos que lavou e poliu com esmero. E Maria pegou dos pinc\u00e9is e pintou uma \u00e1rvore. E o sorriso amarelo dele fez-se de todas as cores. Um dia, viu Maria desfalecer, tremendo. Ajoelhou-se, colocou sua cabe\u00e7a ao colo, limpou a espuma de sua boca e a abra\u00e7ou com carinho, protegendo-a. Os estertores foram parando. Maria dormia e ele sorria. Era a felicidade em seus bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08\/08\/2008<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estava no parque. Como de costume. Ningu\u00e9m a notava. Poucos sabiam dela. S\u00f3 quando vinha a crise \u00e9 que os olhos da indiferen\u00e7a transformavam-se em piedade. E o medo de cont\u00e1gio fazia brotar o olhar sadio ou s\u00e1dico dos outros. Tudo era sentido. Os pren\u00fancios, o turbamento da vista, olhos revirando e o agito da convuls\u00e3o. Agora, sentada ao ch\u00e3o, vendo a sombra da \u00e1rvore brincar com os seus p\u00e9s, sentia-se livre. Sabia que n\u00e3o viria o ataque. Era, naquela hora, t\u00e3o sadia quanto o tronco em que escorava as costas. Respirou fundo e uma folha caiu em seu rega\u00e7o, como uma m\u00e3o invis\u00edvel e sens\u00edvel entre seus seios de virgem.<br \/>\nDo outro lado do parque passava um homem de bicicleta. 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Z\u00e9 ajudou na mudan\u00e7a: uma velha penteadeira, cadeiras, mesa, m\u00e1quina de costura, mala, geladeira e o retrato do casamento dos pais. Maria sorriu, agradecida. Z\u00e9 sorriu amarelo e pintou a casa de rosa, colocou telhas de vidro no teto e viu o sol sobre os mosaicos encardidos que lavou e poliu com esmero. E Maria pegou dos pinc\u00e9is e pintou uma \u00e1rvore. E o sorriso amarelo dele fez-se de todas as cores. Um dia, viu Maria desfalecer, tremendo. Ajoelhou-se, colocou sua cabe\u00e7a ao colo, limpou a espuma de sua boca e a abra\u00e7ou com carinho, protegendo-a. Os estertores foram parando. Maria dormia e ele sorria. 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