{"id":3437,"date":"2023-12-21T09:10:46","date_gmt":"2023-12-21T12:10:46","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/hildebrando-espinola-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:46","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:46","slug":"hildebrando-espinola-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/hildebrando-espinola-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"HILDEBRANDO ESPINOLA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Corriam os anos sessenta. A Escola de Administra\u00e7\u00e3o do Cear\u00e1 havia sido fundada, fruto de um arranjo que contemplava pol\u00edticos com ou sem mandatos como professores e que, em contrapartida, tiveram a sabedoria de escolher alguns nomes de intelectuais de proa para tamb\u00e9m compor o seu quadro docente. A Escola era apenas agregada \u00e0 Universidade. N\u00e3o tinha sede, or\u00e7amento, fora praticamente expulsa das salas que ocupava na Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas, no Benfica. Uma casa alugada e adaptada na esquina da Av. Duque de Caxias com a Rua S\u00f3lon Pinheiro, em frente ao Col\u00e9gio Cearense, passou a ser a sua primeira sede efetiva. Foi nesse local, em salas sem ar condicionado, ch\u00e3o de cimento, que conheci Hildebrando Torres Esp\u00ednola. Ele era jornalista, procurador do IPASE e fora escolhido para ensinar Sociologia. Abro um par\u00eantese para dizer que eu, ao mesmo tempo, fazia direito na UFC e j\u00e1 tivera professores do quilate de Heribaldo Costa e Paulo Bonavides na \u00e1rea de filosofia e da ci\u00eancia pol\u00edtica; e fora aluno atento de Parsifal Barroso em Pol\u00edtica Social Qual n\u00e3o foi a minha surpresa ao come\u00e7ar a presenciar as aulas de Hildebrando, esse paraibano alto, bem apessoado, galante, que havia come\u00e7ado a vida como Juiz Municipal na cidade de Tapero\u00e1, na Para\u00edba, em 1947. Deixou a Para\u00edba, veio trazer seus livros e cabe\u00e7a inquieta para constituir fam\u00edlia, ilustrar a procuradoria do IPASE, o ent\u00e3o Instituto de Previd\u00eancia e Assist\u00eancia dos Servidores do Estado e que, por forma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e cultural, sedimentara conhecimentos na \u00e1rea da Sociologia. Suas aulas eram um espet\u00e1culo, pelo conte\u00fado, gesticula\u00e7\u00e3o forte e sua linguagem que misturava o erudito do conhecimento ao col\u00f3quio do grande conversador e \u201ccauseur\u201d que sempre foi. Nossa turma era inquieta, diversos olhares para a hist\u00f3ria e o mundo, e tinha nomes como Barros Pinho, Gerard Boris, Josino Lobo, Ieda Meira, Ivo Martins, Galv\u00e3o Filho, L\u00e1zaro Farias, Jos\u00e9 Maria Melo, Cl\u00e1udio Te\u00f3filo, Heloisa Barros Leal, Nilce Freire e outros. A todos, Hildebrando dava aten\u00e7\u00e3o especial e criava v\u00ednculos especiais com alguns que se transformaram em admiradores e amigos. Desse tempo, entre tantos outros epis\u00f3dios e casos, houve um de colega que ficou em recupera\u00e7\u00e3o em Sociologia. A Sociologia tem, por exemplo, indaga\u00e7\u00f5es como a que faz o fil\u00f3sofo Descartes: \u201cO que sou, afinal? Uma coisa que pensa. E o que \u00e9 uma coisa que pensa?\u201d. Esse colega &#8211; pensava raso &#8211; n\u00e3o captava a ess\u00eancia da sociologia Ralou, estudou e na prova oral \u2013 havia isso naquele tempo \u2013 foi uma nulidade. Hildebrando co\u00e7ou a cabe\u00e7a e disse, entre s\u00e9rio e maroto: \u201cVou aprov\u00e1-lo como puni\u00e7\u00e3o aos meus colegas professores do pr\u00f3ximo ano, n\u00e3o aguento mais sua parvice.\u201d Hoje, passados 07 dias de sua morte, lembro da figura final de Hildebrando, aquietada, ouvidos moucos \u00e0 liturgia cat\u00f3lica celebrada em seu vel\u00f3rio, coroas e flores em profus\u00e3o, cercado pelo carinho de filhos, netos, parentes, colegas, amigos, admiradores e alguns ex-alunos que estavam l\u00e1. Hildebrando.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22\/08\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Corriam os anos sessenta. A Escola de Administra\u00e7\u00e3o do Cear\u00e1 havia sido fundada, fruto de um arranjo que contemplava pol\u00edticos com ou sem mandatos como professores e que, em contrapartida, tiveram a sabedoria de escolher alguns nomes de intelectuais de proa para tamb\u00e9m compor o seu quadro docente. A Escola era apenas agregada \u00e0 Universidade. N\u00e3o tinha sede, or\u00e7amento, fora praticamente expulsa das salas que ocupava na Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas, no Benfica. Uma casa alugada e adaptada na esquina da Av. Duque de Caxias com a Rua S\u00f3lon Pinheiro, em frente ao Col\u00e9gio Cearense, passou a ser a sua primeira sede efetiva. Foi nesse local, em salas sem ar condicionado, ch\u00e3o de cimento, que conheci Hildebrando Torres Esp\u00ednola. Ele era jornalista, procurador do IPASE e fora escolhido para ensinar Sociologia. Abro um par\u00eantese para dizer que eu, ao mesmo tempo, fazia direito na UFC e j\u00e1 tivera professores do quilate de Heribaldo Costa e Paulo Bonavides na \u00e1rea de filosofia e da ci\u00eancia pol\u00edtica; e fora aluno atento de Parsifal Barroso em Pol\u00edtica Social Qual n\u00e3o foi a minha surpresa ao come\u00e7ar a presenciar as aulas de Hildebrando, esse paraibano alto, bem apessoado, galante, que havia come\u00e7ado a vida como Juiz Municipal na cidade de Tapero\u00e1, na Para\u00edba, em 1947. Deixou a Para\u00edba, veio trazer seus livros e cabe\u00e7a inquieta para constituir fam\u00edlia, ilustrar a procuradoria do IPASE, o ent\u00e3o Instituto de Previd\u00eancia e Assist\u00eancia dos Servidores do Estado e que, por forma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e cultural, sedimentara conhecimentos na \u00e1rea da Sociologia. Suas aulas eram um espet\u00e1culo, pelo conte\u00fado, gesticula\u00e7\u00e3o forte e sua linguagem que misturava o erudito do conhecimento ao col\u00f3quio do grande conversador e \u201ccauseur\u201d que sempre foi. Nossa turma era inquieta, diversos olhares para a hist\u00f3ria e o mundo, e tinha nomes como Barros Pinho, Gerard Boris, Josino Lobo, Ieda Meira, Ivo Martins, Galv\u00e3o Filho, L\u00e1zaro Farias, Jos\u00e9 Maria Melo, Cl\u00e1udio Te\u00f3filo, Heloisa Barros Leal, Nilce Freire e outros. A todos, Hildebrando dava aten\u00e7\u00e3o especial e criava v\u00ednculos especiais com alguns que se transformaram em admiradores e amigos. Desse tempo, entre tantos outros epis\u00f3dios e casos, houve um de colega que ficou em recupera\u00e7\u00e3o em Sociologia. A Sociologia tem, por exemplo, indaga\u00e7\u00f5es como a que faz o fil\u00f3sofo Descartes: \u201cO que sou, afinal? Uma coisa que pensa. E o que \u00e9 uma coisa que pensa?\u201d. Esse colega &#8211; pensava raso &#8211; n\u00e3o captava a ess\u00eancia da sociologia Ralou, estudou e na prova oral \u2013 havia isso naquele tempo \u2013 foi uma nulidade. Hildebrando co\u00e7ou a cabe\u00e7a e disse, entre s\u00e9rio e maroto: \u201cVou aprov\u00e1-lo como puni\u00e7\u00e3o aos meus colegas professores do pr\u00f3ximo ano, n\u00e3o aguento mais sua parvice.\u201d Hoje, passados 07 dias de sua morte, lembro da figura final de Hildebrando, aquietada, ouvidos moucos \u00e0 liturgia cat\u00f3lica celebrada em seu vel\u00f3rio, coroas e flores em profus\u00e3o, cercado pelo carinho de filhos, netos, parentes, colegas, amigos, admiradores e alguns ex-alunos que estavam l\u00e1. Hildebrando.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22\/08\/2008.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3437","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3437","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3437"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3437\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3437"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3437"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3437"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}