{"id":3451,"date":"2023-12-21T09:10:46","date_gmt":"2023-12-21T12:10:46","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/ressentimento-e-felicidade-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:46","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:46","slug":"ressentimento-e-felicidade-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/ressentimento-e-felicidade-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"RESSENTIMENTO E FELICIDADE &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma frase bem conhecida de Tom Jobim: &#8220;o sucesso no Brasil \u00e9 ofensa pessoal&#8221;. Por que raz\u00e3o parte dos brasileiros n\u00e3o aceita que o outro tenha sucesso? A prop\u00f3sito, o que \u00e9 sucesso? Garrincha, um dos maiores jogadores de futebol do mundo, foi um sucesso? E o seu alcoolismo? Ningu\u00e9m \u00e9 um sucesso pleno, pois a vida parece n\u00e3o completar tudo para ningu\u00e9m. H\u00e1 sempre uma busca incessante por algo mais. Sempre falta alguma coisa. Voltando ao eixo, creio que h\u00e1, em muito brasileiro, um grau elevado de ressentimento. Ressentimento pode ser a palavra certa. Sentimento que ele, o ressentido, imagina seja o sucesso &#8211; ou dist\u00e2ncia &#8211; de algu\u00e9m que queria seu, pr\u00f3ximo ou eliminado. Friedrich Nietzche, pensador alem\u00e3o do fim do s\u00e9culo XIX, dizia que &#8220;a mem\u00f3ria do ressentido \u00e9 uma digest\u00e3o que n\u00e3o termina&#8221;. E essa digest\u00e3o que n\u00e3o termina sempre \u00e9 dirigida contra algu\u00e9m, algo, lugar ou at\u00e9, por exemplo, grupo, associa\u00e7\u00e3o ou partido. Sem que o alvo desse ressentimento tenha ci\u00eancia, pode ser difamado, observado, marcado, at\u00e9 para uma &#8220;vingan\u00e7a&#8221;. Lembram do caso do f\u00e3 que matou John Lennon? Recordam do mu\u00e7ulmano que atacou e atirou no Papa? Pois \u00e9, para essas pessoas ressentidas h\u00e1 a necessidade de uma revolta e vingan\u00e7a contra o objeto de seu desejo irresolvido ou desvio mental, como se a sua infelicidade decorresse do erro do outro ou de um grupo, religi\u00e3o, seita. Quem \u00e9 ressentido, diz a psicanalista Maria Rita Kehl, com base no que estudou em Nietzche, n\u00e3o sabe amar e n\u00e3o quer amar, mas deseja ser amado. E para o ressentido, o outro \u00e9 sempre mau. Ele \u00e9 que \u00e9 o bom. Se dividirmos a palavra ressentir, teremos re-sentir. Notamos que \u00e9 sentir de novo. \u00c9 a volta de uma dor n\u00e3o resolvida que se aprofunda at\u00e9 desviar o ressentido do eixo normal da sua pr\u00f3pria vida. O ressentido repete, forte e pungentemente, seu desvario, ao inv\u00e9s de procurar a sua pr\u00f3pria felicidade, que \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o ideal de completude, de levar a vida se arriscando para alcan\u00e7ar o que almeja, buscar amar sem medo da poss\u00edvel perda futura. J\u00e1 h\u00e1 uma quase felicidade na a\u00e7\u00e3o, na procura da realiza\u00e7\u00e3o do desejo e \u00e9 assim que imagino deva a vida ser tocada.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10\/10\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma frase bem conhecida de Tom Jobim: &#8220;o sucesso no Brasil \u00e9 ofensa pessoal&#8221;. Por que raz\u00e3o parte dos brasileiros n\u00e3o aceita que o outro tenha sucesso? A prop\u00f3sito, o que \u00e9 sucesso? Garrincha, um dos maiores jogadores de futebol do mundo, foi um sucesso? E o seu alcoolismo? Ningu\u00e9m \u00e9 um sucesso pleno, pois a vida parece n\u00e3o completar tudo para ningu\u00e9m. H\u00e1 sempre uma busca incessante por algo mais. Sempre falta alguma coisa. Voltando ao eixo, creio que h\u00e1, em muito brasileiro, um grau elevado de ressentimento. Ressentimento pode ser a palavra certa. Sentimento que ele, o ressentido, imagina seja o sucesso &#8211; ou dist\u00e2ncia &#8211; de algu\u00e9m que queria seu, pr\u00f3ximo ou eliminado. Friedrich Nietzche, pensador alem\u00e3o do fim do s\u00e9culo XIX, dizia que &#8220;a mem\u00f3ria do ressentido \u00e9 uma digest\u00e3o que n\u00e3o termina&#8221;. E essa digest\u00e3o que n\u00e3o termina sempre \u00e9 dirigida contra algu\u00e9m, algo, lugar ou at\u00e9, por exemplo, grupo, associa\u00e7\u00e3o ou partido. Sem que o alvo desse ressentimento tenha ci\u00eancia, pode ser difamado, observado, marcado, at\u00e9 para uma &#8220;vingan\u00e7a&#8221;. Lembram do caso do f\u00e3 que matou John Lennon? Recordam do mu\u00e7ulmano que atacou e atirou no Papa? Pois \u00e9, para essas pessoas ressentidas h\u00e1 a necessidade de uma revolta e vingan\u00e7a contra o objeto de seu desejo irresolvido ou desvio mental, como se a sua infelicidade decorresse do erro do outro ou de um grupo, religi\u00e3o, seita. Quem \u00e9 ressentido, diz a psicanalista Maria Rita Kehl, com base no que estudou em Nietzche, n\u00e3o sabe amar e n\u00e3o quer amar, mas deseja ser amado. E para o ressentido, o outro \u00e9 sempre mau. Ele \u00e9 que \u00e9 o bom. Se dividirmos a palavra ressentir, teremos re-sentir. Notamos que \u00e9 sentir de novo. \u00c9 a volta de uma dor n\u00e3o resolvida que se aprofunda at\u00e9 desviar o ressentido do eixo normal da sua pr\u00f3pria vida. O ressentido repete, forte e pungentemente, seu desvario, ao inv\u00e9s de procurar a sua pr\u00f3pria felicidade, que \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o ideal de completude, de levar a vida se arriscando para alcan\u00e7ar o que almeja, buscar amar sem medo da poss\u00edvel perda futura. 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