{"id":3452,"date":"2023-12-21T09:10:46","date_gmt":"2023-12-21T12:10:46","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/crianca-hoje-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:46","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:46","slug":"crianca-hoje-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/crianca-hoje-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"CRIAN\u00c7A, HOJE &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Foi semana passada, mas h\u00e1 mais de dez lustros. Eu fui crian\u00e7a, acreditem. Sem essa de psic\u00f3logo, analista e que tais. O dr. M\u00e1rio Mamede passava xaropes, purgantes e Calcigenol irradiado. Chupavam-se rolete de cana, pitomba e manga, tomavam-se refrescos, comiam-se pastel e goiabada. O dever de casa era feito sozinho, sem repetidora, todos dormiam em camas \u201cPatente\u201d, ap\u00f3s tomar banho, jantar, rezar e deitar cedo. Ap\u00f3s a escola, jogava-se pelada ao sol quente. Havia seriado nos cinemas e os \u00edndios sempre perdiam para os cowboys ou se via o Flash Gordon, com Steven Holland. Agora, as crian\u00e7as t\u00eam grilos, seguem dietas, os pais \u2018pisam em ovos\u2019 e mesmo que tenham lido o Livro do Beb\u00ea, do Dr. Delamare, ou outros mais atuais, h\u00e1 um longo aprendizado &#8211; sem escola &#8211; que n\u00e3o termina nunca. Pois \u00e9, hoje \u00e9 o Dia da Crian\u00e7a. A crian\u00e7a hoje, mesmo pobre, tem uma televis\u00e3o em casa, ouve m\u00fasica em som tr\u00eas em um e brinca com jogos eletr\u00f4nicos em que o objetivo sempre \u00e9 vencer corridas, acertar objetivos e tentar n\u00e3o perder, nunca. Plat\u00e3o dizia que \u201cos filhos dos homens, dentre todos os animais jovens, s\u00e3o os mais dif\u00edceis de serem tratados\u201d. N\u00e3o s\u00e3o muitos os considerados bons pais, apesar de terem tentado. Deus sabe como, mas h\u00e1 um fosso de tempo f\u00edsico na linguagem que medeia o relacionamento entre pais e filhos, mesmo que sejam camaradas e pai e m\u00e3e pensem na mesma dire\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o acontece sempre. Ningu\u00e9m \u00e9 filho(a) apenas do pai ou da m\u00e3e. S\u00e3o duas cabe\u00e7as diferentes que formam um casal. Se afinarem, \u00f3timo. H\u00e1 a tal da heran\u00e7a gen\u00e9tica, a conviv\u00eancia e a afinidade natural com a m\u00e3e, especialmente se as filhas forem mulheres, criando um halo de relacionamento maior. O pai, j\u00e1 disse, \u00e9 um ser perif\u00e9rico e precisa esquecer o mundo profissional em que vive para ter a fam\u00edlia junta e feliz. Acho que estou fugindo do tema a que me propus, pois como bem falou C. Pavese, escritor italiano da primeira metade do s\u00e9culo XX: \u201cn\u00e3o \u00e9 bom ser crian\u00e7a: bom \u00e9, quando somos velhos, pensar em quando \u00e9ramos crian\u00e7as\u201d. Agora, aproveitem este domingo, juntam as crian\u00e7as, filhos e netos, lambuzem-se de benqueren\u00e7a.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 12\/10\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi semana passada, mas h\u00e1 mais de dez lustros. Eu fui crian\u00e7a, acreditem. Sem essa de psic\u00f3logo, analista e que tais. O dr. M\u00e1rio Mamede passava xaropes, purgantes e Calcigenol irradiado. Chupavam-se rolete de cana, pitomba e manga, tomavam-se refrescos, comiam-se pastel e goiabada. O dever de casa era feito sozinho, sem repetidora, todos dormiam em camas \u201cPatente\u201d, ap\u00f3s tomar banho, jantar, rezar e deitar cedo. Ap\u00f3s a escola, jogava-se pelada ao sol quente. Havia seriado nos cinemas e os \u00edndios sempre perdiam para os cowboys ou se via o Flash Gordon, com Steven Holland. Agora, as crian\u00e7as t\u00eam grilos, seguem dietas, os pais \u2018pisam em ovos\u2019 e mesmo que tenham lido o Livro do Beb\u00ea, do Dr. Delamare, ou outros mais atuais, h\u00e1 um longo aprendizado &#8211; sem escola &#8211; que n\u00e3o termina nunca. Pois \u00e9, hoje \u00e9 o Dia da Crian\u00e7a. A crian\u00e7a hoje, mesmo pobre, tem uma televis\u00e3o em casa, ouve m\u00fasica em som tr\u00eas em um e brinca com jogos eletr\u00f4nicos em que o objetivo sempre \u00e9 vencer corridas, acertar objetivos e tentar n\u00e3o perder, nunca. Plat\u00e3o dizia que \u201cos filhos dos homens, dentre todos os animais jovens, s\u00e3o os mais dif\u00edceis de serem tratados\u201d. N\u00e3o s\u00e3o muitos os considerados bons pais, apesar de terem tentado. Deus sabe como, mas h\u00e1 um fosso de tempo f\u00edsico na linguagem que medeia o relacionamento entre pais e filhos, mesmo que sejam camaradas e pai e m\u00e3e pensem na mesma dire\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o acontece sempre. Ningu\u00e9m \u00e9 filho(a) apenas do pai ou da m\u00e3e. S\u00e3o duas cabe\u00e7as diferentes que formam um casal. Se afinarem, \u00f3timo. H\u00e1 a tal da heran\u00e7a gen\u00e9tica, a conviv\u00eancia e a afinidade natural com a m\u00e3e, especialmente se as filhas forem mulheres, criando um halo de relacionamento maior. O pai, j\u00e1 disse, \u00e9 um ser perif\u00e9rico e precisa esquecer o mundo profissional em que vive para ter a fam\u00edlia junta e feliz. Acho que estou fugindo do tema a que me propus, pois como bem falou C. Pavese, escritor italiano da primeira metade do s\u00e9culo XX: \u201cn\u00e3o \u00e9 bom ser crian\u00e7a: bom \u00e9, quando somos velhos, pensar em quando \u00e9ramos crian\u00e7as\u201d. 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