{"id":3453,"date":"2023-12-21T09:10:46","date_gmt":"2023-12-21T12:10:46","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/medico-amanha-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:46","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:46","slug":"medico-amanha-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/medico-amanha-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"M\u00c9DICO, AMANH\u00c3 &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Bem que meu pai tentou, mas, teimosamente, n\u00e3o segui seu conselho. N\u00e3o fiz vestibular para medicina, mas sempre admirei essa profiss\u00e3o que come\u00e7a com a Anatomia e n\u00e3o tem fim. Dizia W. Whitman, poeta americano dos bons, &#8220;se existe alguma coisa sagrada, esta \u00e9 o corpo humano&#8221;. O corpo humano \u00e9 o templo dos m\u00e9dicos. \u00c9 nele que v\u00e3o descobrindo a alma do paciente, ouvindo suas queixas, conhecendo-lhe os cinco sentidos, interpretando-lhe os exames e curando-lhe os males. Nesta j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o breve vida, conheci de perto e me tornei amigo de muitos m\u00e9dicos, homens e mulheres. O que mais me cativa nessa profiss\u00e3o \u00e9 a capacidade que cada um tem de administrar sua vida, enquanto outras vidas dependem do que leram, mourejaram em plant\u00f5es, hospitais mambembes, resid\u00eancias, especializa\u00e7\u00f5es, mestrados e at\u00e9 doutorados. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ser oftalmologista e dizer a algu\u00e9m que ele vai ficar cego. Tampouco, como fica um anestesiologista ao defrontar com um acidente de choque anafil\u00e1tico? E o hematologista ao descobrir, entre l\u00e2minas e microsc\u00f3pios, a leucemia que, quase sempre, ceifa vidas? E o oncologista que n\u00e3o gosta de falar a palavra c\u00e2ncer, mas sabe que precisa ser honesto e objetivo em seus diagn\u00f3sticos? Como fica um nefrologista vendo um ser sendo destru\u00eddo pela ingest\u00e3o di\u00e1ria de \u00e1lcool? E o pediatra que escuta o choro do beb\u00ea que n\u00e3o pode dizer o que sente? E o pneumologista que tenta fazer com que seus pacientes e a humanidade parem de fumar e poupem seus pulm\u00f5es? E o radiologista que l\u00ea os nossos ossos e m\u00fasculos? E o que dizer do cirurgi\u00e3o, entre sangue, art\u00e9rias e m\u00fasculos, a limpar o campo para o seu trabalho \u00e1rduo de extirpar ou remendar? E o psiquiatra que cuida da alma, mas v\u00ea o corpo como resposta a perguntas que n\u00e3o pode fazer ao paciente. H\u00e1 tanta grandeza no trabalho dessas pessoas que se dividem em empregos para procurar ter a dignidade que o juramento feito por Hip\u00f3crates lhes cobra. Amanh\u00e3 \u00e9 o Dia do M\u00e9dico, essa criatura que n\u00e3o tem hora, tampouco dia, para o n\u00e3o fazer nada, pois o corre-corre do mundo e das pessoas a faz sempre necess\u00e1ria para o nosso bem-estar.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17\/10\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bem que meu pai tentou, mas, teimosamente, n\u00e3o segui seu conselho. N\u00e3o fiz vestibular para medicina, mas sempre admirei essa profiss\u00e3o que come\u00e7a com a Anatomia e n\u00e3o tem fim. Dizia W. Whitman, poeta americano dos bons, &#8220;se existe alguma coisa sagrada, esta \u00e9 o corpo humano&#8221;. O corpo humano \u00e9 o templo dos m\u00e9dicos. \u00c9 nele que v\u00e3o descobrindo a alma do paciente, ouvindo suas queixas, conhecendo-lhe os cinco sentidos, interpretando-lhe os exames e curando-lhe os males. Nesta j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o breve vida, conheci de perto e me tornei amigo de muitos m\u00e9dicos, homens e mulheres. O que mais me cativa nessa profiss\u00e3o \u00e9 a capacidade que cada um tem de administrar sua vida, enquanto outras vidas dependem do que leram, mourejaram em plant\u00f5es, hospitais mambembes, resid\u00eancias, especializa\u00e7\u00f5es, mestrados e at\u00e9 doutorados. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ser oftalmologista e dizer a algu\u00e9m que ele vai ficar cego. Tampouco, como fica um anestesiologista ao defrontar com um acidente de choque anafil\u00e1tico? E o hematologista ao descobrir, entre l\u00e2minas e microsc\u00f3pios, a leucemia que, quase sempre, ceifa vidas? E o oncologista que n\u00e3o gosta de falar a palavra c\u00e2ncer, mas sabe que precisa ser honesto e objetivo em seus diagn\u00f3sticos? Como fica um nefrologista vendo um ser sendo destru\u00eddo pela ingest\u00e3o di\u00e1ria de \u00e1lcool? E o pediatra que escuta o choro do beb\u00ea que n\u00e3o pode dizer o que sente? E o pneumologista que tenta fazer com que seus pacientes e a humanidade parem de fumar e poupem seus pulm\u00f5es? E o radiologista que l\u00ea os nossos ossos e m\u00fasculos? E o que dizer do cirurgi\u00e3o, entre sangue, art\u00e9rias e m\u00fasculos, a limpar o campo para o seu trabalho \u00e1rduo de extirpar ou remendar? E o psiquiatra que cuida da alma, mas v\u00ea o corpo como resposta a perguntas que n\u00e3o pode fazer ao paciente. H\u00e1 tanta grandeza no trabalho dessas pessoas que se dividem em empregos para procurar ter a dignidade que o juramento feito por Hip\u00f3crates lhes cobra. 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