{"id":3454,"date":"2023-12-21T09:10:46","date_gmt":"2023-12-21T12:10:46","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/longe-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:46","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:46","slug":"longe-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/longe-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"LONGE &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Resolvi dar uma tr\u00e9gua ao corpo e revigorar a alma. Ouvi-os e senti que precisava dar uma parada no trabalho e no dia-a-dia da minha cidade. Apenas um par de semanas, mas j\u00e1 estou voltando. Montaigne, escritor franc\u00eas do s\u00e9culo XVI, o das grandes descobertas, dizia: \u201cGeralmente, a quem me pergunta a raz\u00e3o das minhas viagens, respondo que sei bem do que estou fugindo, mas n\u00e3o o que estou procurando.\u201d Peguei o primeiro aeroplano e fui procurar novos ares. N\u00e3o, n\u00e3o fui para o circuito Elizabeth Arden, tampouco aproveitar o sol das praias que restam ensolaradas em meio \u00e0s esta\u00e7\u00f5es que mudam com os hemisf\u00e9rios. Fui ver o que n\u00e3o conhe\u00e7o e rever o que vi pouco. Outros tempos, outros olhares. Esmiu\u00e7ar lugares estranhos e passar longe do que costumeiramente se faz. Aprendi a viajar em avi\u00f5es pequenos, ao lado do meu pai que me pedia para ler a b\u00fassola e segurar nos manetes. Depois, tomei peguei gosto e a estrada da vida, descobrindo que o mundo \u00e9 tamb\u00e9m a minha casa. Vi s\u00f3is, chuvas, rel\u00e2mpagos, trov\u00f5es, ciclones, neves, desertos e florestas. Senti-me parte disso tudo, sem deixar de ter minhas refer\u00eancias. Amo a liberdade de ser apenas um e n\u00e3o fazer parte do todo que me abriga por um tempo, qualquer que seja ele. Olho para estranhos que nunca reverei e penso no que s\u00e3o e fazem e, algumas vezes, ouso at\u00e9 perguntar. Erro, quase sempre. Como desvendar a alma humana &#8211; se ela \u00e9 um mist\u00e9rio &#8211; com um simples olhar? E me perco no encontro de ruas em que passo e repasso, procurando o que n\u00e3o sei. Mas, encontro o inesperado. Remexo em livros de uma livraria grandiosa ou despojada, ou\u00e7o m\u00fasicos de rua admirando a coragem de exporem seus chap\u00e9us \u00e0 cata de trocados. N\u00e3o fa\u00e7o fotos, retenho tudo na mem\u00f3ria. Sento em um bar e bebo lentamente, esperando que esse longo drinque se transforme nos espirituais prometidos pelas \u00e1guas l\u00edmpidas dos rios que circundam as montanhas da terra de Sir Walter Scott. N\u00e3o, n\u00e3o estou na Esc\u00f3cia. L\u00e1 s\u00f3 fui uma vez e basta. Estou longe, t\u00e3o longe que o dia \u00e9 noite e a noite se faz dia, segundo os meridianos de Greenwich.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 19\/10\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resolvi dar uma tr\u00e9gua ao corpo e revigorar a alma. Ouvi-os e senti que precisava dar uma parada no trabalho e no dia-a-dia da minha cidade. Apenas um par de semanas, mas j\u00e1 estou voltando. Montaigne, escritor franc\u00eas do s\u00e9culo XVI, o das grandes descobertas, dizia: \u201cGeralmente, a quem me pergunta a raz\u00e3o das minhas viagens, respondo que sei bem do que estou fugindo, mas n\u00e3o o que estou procurando.\u201d Peguei o primeiro aeroplano e fui procurar novos ares. N\u00e3o, n\u00e3o fui para o circuito Elizabeth Arden, tampouco aproveitar o sol das praias que restam ensolaradas em meio \u00e0s esta\u00e7\u00f5es que mudam com os hemisf\u00e9rios. Fui ver o que n\u00e3o conhe\u00e7o e rever o que vi pouco. Outros tempos, outros olhares. Esmiu\u00e7ar lugares estranhos e passar longe do que costumeiramente se faz. Aprendi a viajar em avi\u00f5es pequenos, ao lado do meu pai que me pedia para ler a b\u00fassola e segurar nos manetes. Depois, tomei peguei gosto e a estrada da vida, descobrindo que o mundo \u00e9 tamb\u00e9m a minha casa. Vi s\u00f3is, chuvas, rel\u00e2mpagos, trov\u00f5es, ciclones, neves, desertos e florestas. Senti-me parte disso tudo, sem deixar de ter minhas refer\u00eancias. Amo a liberdade de ser apenas um e n\u00e3o fazer parte do todo que me abriga por um tempo, qualquer que seja ele. Olho para estranhos que nunca reverei e penso no que s\u00e3o e fazem e, algumas vezes, ouso at\u00e9 perguntar. Erro, quase sempre. Como desvendar a alma humana &#8211; se ela \u00e9 um mist\u00e9rio &#8211; com um simples olhar? E me perco no encontro de ruas em que passo e repasso, procurando o que n\u00e3o sei. Mas, encontro o inesperado. Remexo em livros de uma livraria grandiosa ou despojada, ou\u00e7o m\u00fasicos de rua admirando a coragem de exporem seus chap\u00e9us \u00e0 cata de trocados. N\u00e3o fa\u00e7o fotos, retenho tudo na mem\u00f3ria. Sento em um bar e bebo lentamente, esperando que esse longo drinque se transforme nos espirituais prometidos pelas \u00e1guas l\u00edmpidas dos rios que circundam as montanhas da terra de Sir Walter Scott. N\u00e3o, n\u00e3o estou na Esc\u00f3cia. L\u00e1 s\u00f3 fui uma vez e basta. Estou longe, t\u00e3o longe que o dia \u00e9 noite e a noite se faz dia, segundo os meridianos de Greenwich.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 19\/10\/2008.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3454","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3454","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3454"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3454\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3454"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3454"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3454"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}