{"id":3457,"date":"2023-12-21T09:10:46","date_gmt":"2023-12-21T12:10:46","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/sobre-a-morte-de-jovens-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:46","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:46","slug":"sobre-a-morte-de-jovens-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/sobre-a-morte-de-jovens-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"SOBRE A MORTE DE JOVENS &#8211; JORNAL O ESTADO"},"content":{"rendered":"<p>O que fazer quando a morte bate \u00e0 porta de pessoas queridas? O que dizer ent\u00e3o para os pais quando perdem filhos jovens e em plena efervesc\u00eancia da vida? Na dor, todos est\u00e3o s\u00f3s. Cada um sofre na sua forma pessoal, n\u00e3o h\u00e1 como comparar dores. Voc\u00ea pode ser mais forte ou contido, mas isso n\u00e3o quer dizer de sua dor, mas da forma como a expressa ou n\u00e3o. Voc\u00ea pode chorar rios de l\u00e1grimas, maldizer o Senhor e duvidar de sua f\u00e9, mas esse \u00e9 o seu jeito. Talvez seja at\u00e9 o caminho da poss\u00edvel cura ou da conforma\u00e7\u00e3o. A morte \u00e9 uma trilha desconhecida pela qual todos passar\u00e3o. Ela vem silenciosa, pungente e n\u00e3o poupa ningu\u00e9m. Tem seus pr\u00f3prios tempos e modos. Escolhe e ceifa, n\u00e3o h\u00e1 como entender esse mist\u00e9rio. Se escolhe, elege. Se elege, deve ter alguma raz\u00e3o insond\u00e1vel. Mas v\u00e1 dizer isso para pais inconsol\u00e1veis que, abruptamente, recebem a not\u00edcia da morte de seus filhos. Creio que devo invocar o fil\u00f3sofo S\u00f3crates: \u201cPois bem, \u00e9 hora de ir; eu para morrer, e v\u00f3s para viver. Quem de n\u00f3s ir\u00e1 para o melhor \u00e9 obscuro, menos a Deus\u201d. O que vir\u00e1 depois da morte? Como somos pecadores e n\u00e3o temos onisci\u00eancia \u00e9 que nos afligimos pelos que morrem, especialmente se jovens. O poeta russo Maiakovski achava que \u201cn\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil morrer nessa vida, viver \u00e9 muito mais dif\u00edcil\u201d. J\u00e1 se disse que os jovens que morrem s\u00e3o mais estimados pelo C\u00e9u e por tal raz\u00e3o seguem antes. Xenofonte, fil\u00f3sofo e historiador grego, ao receber a not\u00edcia da morte de seu filho, falou: \u201cEu sabia que meu filho era mortal\u201d. Todos sabemos disso, mas como entender a ordem que ela escolhe? Svevo, escritor italiano do s\u00e9culo passado, afirmava que \u201cos mortos nunca foram pecadores\u201d. Faz sentido. Os vivos s\u00e3o os pecadores. Se a morte \u00e9 o encontro da paz, pensemos como Heine, poeta alem\u00e3o, que dizia que a fun\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 perdoar os mortos. A vida, penso eu, n\u00e3o tem grandes respostas, vive de perguntas. Essas perguntas, por exemplo, nos levam a admitir que a morte n\u00e3o faz sentido para os vivos. Por outro lado, ser\u00e1 que a vida tem significa\u00e7\u00e3o para os que deixaram de existir? Assim, em meio ao que escrevi ou transcrevi \u00e9 que do meu jeito, meio sem jeito, me solidarizo com os que n\u00e3o encontram respostas prontas para as mortes de seus jovens filhos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31\/10\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que fazer quando a morte bate \u00e0 porta de pessoas queridas? O que dizer ent\u00e3o para os pais quando perdem filhos jovens e em plena efervesc\u00eancia da vida? Na dor, todos est\u00e3o s\u00f3s. Cada um sofre na sua forma pessoal, n\u00e3o h\u00e1 como comparar dores. Voc\u00ea pode ser mais forte ou contido, mas isso n\u00e3o quer dizer de sua dor, mas da forma como a expressa ou n\u00e3o. Voc\u00ea pode chorar rios de l\u00e1grimas, maldizer o Senhor e duvidar de sua f\u00e9, mas esse \u00e9 o seu jeito. Talvez seja at\u00e9 o caminho da poss\u00edvel cura ou da conforma\u00e7\u00e3o. A morte \u00e9 uma trilha desconhecida pela qual todos passar\u00e3o. Ela vem silenciosa, pungente e n\u00e3o poupa ningu\u00e9m. Tem seus pr\u00f3prios tempos e modos. Escolhe e ceifa, n\u00e3o h\u00e1 como entender esse mist\u00e9rio. Se escolhe, elege. Se elege, deve ter alguma raz\u00e3o insond\u00e1vel. Mas v\u00e1 dizer isso para pais inconsol\u00e1veis que, abruptamente, recebem a not\u00edcia da morte de seus filhos. Creio que devo invocar o fil\u00f3sofo S\u00f3crates: \u201cPois bem, \u00e9 hora de ir; eu para morrer, e v\u00f3s para viver. Quem de n\u00f3s ir\u00e1 para o melhor \u00e9 obscuro, menos a Deus\u201d. O que vir\u00e1 depois da morte? Como somos pecadores e n\u00e3o temos onisci\u00eancia \u00e9 que nos afligimos pelos que morrem, especialmente se jovens. O poeta russo Maiakovski achava que \u201cn\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil morrer nessa vida, viver \u00e9 muito mais dif\u00edcil\u201d. J\u00e1 se disse que os jovens que morrem s\u00e3o mais estimados pelo C\u00e9u e por tal raz\u00e3o seguem antes. Xenofonte, fil\u00f3sofo e historiador grego, ao receber a not\u00edcia da morte de seu filho, falou: \u201cEu sabia que meu filho era mortal\u201d. Todos sabemos disso, mas como entender a ordem que ela escolhe? Svevo, escritor italiano do s\u00e9culo passado, afirmava que \u201cos mortos nunca foram pecadores\u201d. Faz sentido. Os vivos s\u00e3o os pecadores. Se a morte \u00e9 o encontro da paz, pensemos como Heine, poeta alem\u00e3o, que dizia que a fun\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 perdoar os mortos. A vida, penso eu, n\u00e3o tem grandes respostas, vive de perguntas. Essas perguntas, por exemplo, nos levam a admitir que a morte n\u00e3o faz sentido para os vivos. 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Assim, em meio ao que escrevi ou transcrevi \u00e9 que do meu jeito, meio sem jeito, me solidarizo com os que n\u00e3o encontram respostas prontas para as mortes de seus jovens filhos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31\/10\/2008.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3457","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3457","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3457"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3457\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3457"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3457"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3457"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}