{"id":3478,"date":"2023-12-21T09:10:46","date_gmt":"2023-12-21T12:10:46","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/familia-razao-primeira-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:46","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:46","slug":"familia-razao-primeira-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/familia-razao-primeira-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"FAM\u00cdLIA, RAZ\u00c3O PRIMEIRA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Sou o mais velho de uma fam\u00edlia de nove irm\u00e3os. Cinco homens e quatro mulheres, todos vivos, h\u00edgidos, espalhados e independentes. Fam\u00edlia essa cheia de defeitos e poucas virtudes. Gente comum, sem gl\u00f3ria, pompa ou circunst\u00e2ncia. Pessoas que foram, desde cedo, obrigadas a compartilhar quartos, roupas e entender que seria necess\u00e1ria muita luta para conseguir um lugar ao sol, mesmo uma r\u00e9stia.<br \/>\nHoje, as fam\u00edlias s\u00e3o bem menores e, em todas as classes, parece n\u00e3o existir mais sentimento de uni\u00e3o, supera\u00e7\u00e3o das t\u00e3o comuns brigas entre irm\u00e3os, motivadas por tudo ou por nada.<br \/>\nEstud\u00e1vamos em col\u00e9gios privados, com a merenda ou dinheiro contado para a cantina, l\u00e1 \u00edamos n\u00f3s a p\u00e9. \u00c9 bem verdade que a dist\u00e2ncia era pequena e a cidade n\u00e3o oferecia o menor perigo. No final de cada ano, os livros encapados e as fardas passavam para os mais novos. N\u00e3o se ouvia falar em mesada, em pr\u00eamio por ter cumprido a obriga\u00e7\u00e3o de ser aprovado, e nem viagens \u00e0 Disney. S\u00f3 existiam esportes, poucas r\u00e1dios para ouvir emissora de TV em preto e branco, ficando a televis\u00e3o na sala, dividindo com o piano surrado, os lugares de honra.<br \/>\nBrigava-se muito, a tapas e socos. N\u00e3o ficava m\u00e1goa. A rixa se exauria no banho que a m\u00e3e mandava os filhos tomarem ap\u00f3s as refregas. Havia o ter\u00e7o, a missa aos domingos, as primeiras sextas-feiras e as prociss\u00f5es. Quando o dinheiro dava \u2013 e sempre dava &#8211; ia-se ao cinema e ningu\u00e9m reclamava do calor, entretido nos filmes e nos seriados.<br \/>\nQuando um dos irm\u00e3os brigava na rua l\u00e1 se iam os outros tomar satisfa\u00e7\u00f5es e dar &#8211; ou levar &#8211; surra do desafeto. Sem essa de psic\u00f3logo ou analista, nada disso. Tomava-se pouco rem\u00e9dio. Uma ou duas vezes por ano, um rem\u00e9dio para vermes. De quando em quando, um Calciogenol irradiado, Emuls\u00e3o de Scott, Biot\u00f4nico Fontoura, Phimatosan, Melhoral e muita abacatada, bananada ou \u201cvitamina\u201d, que era uma esp\u00e9cie de salada de frutas batida no liquidificador.<br \/>\nCada casa tinha uma bicicleta que ia passando de m\u00e3o em m\u00e3o ou de p\u00e9 em p\u00e9. Estudava-se ingl\u00eas, aprendia-se datilografia e jiu-jitsu e as meninas tinham aulas de piano. Quem era mais interessado em livros ia \u00e0 biblioteca p\u00fablica fazer pesquisas ou pedir empr\u00e9stimos para entrega em 15 dias. Fazia-se uma ficha e nos entregavam os livros que os col\u00e9gios nos obrigavam a ler e resumir. Ou se lia por prazer.<br \/>\nEstas recorda\u00e7\u00f5es, pessoais e desinteressantes, vieram a prop\u00f3sito do filme que vi em v\u00eddeo \u201cF\u00e9rias em fam\u00edlia\u201d, de Jodie Foster, em que se mostra a rela\u00e7\u00e3o neurotizante de uma fam\u00edlia americana que, quase obrigada, se re\u00fane para o feriado do dia de A\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as, a data em que todos se re\u00fanem por l\u00e1, mais do que no Natal. De tudo, fica uma li\u00e7\u00e3o e a certeza de que irm\u00e3os, mesmo que espalhados pelo mundo, diferentes, vivendo outras culturas e distantes, s\u00e3o necess\u00e1rios e indispens\u00e1veis e, ao rev\u00ea-los, a gente se d\u00e1 conta de que a fam\u00edlia ainda \u00e9 base de todos os princ\u00edpios, mas sem essa dos moralismos caretas da \u00e9poca.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19\/01\/2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sou o mais velho de uma fam\u00edlia de nove irm\u00e3os. Cinco homens e quatro mulheres, todos vivos, h\u00edgidos, espalhados e independentes. Fam\u00edlia essa cheia de defeitos e poucas virtudes. Gente comum, sem gl\u00f3ria, pompa ou circunst\u00e2ncia. Pessoas que foram, desde cedo, obrigadas a compartilhar quartos, roupas e entender que seria necess\u00e1ria muita luta para conseguir um lugar ao sol, mesmo uma r\u00e9stia.<br \/>\nHoje, as fam\u00edlias s\u00e3o bem menores e, em todas as classes, parece n\u00e3o existir mais sentimento de uni\u00e3o, supera\u00e7\u00e3o das t\u00e3o comuns brigas entre irm\u00e3os, motivadas por tudo ou por nada.<br \/>\nEstud\u00e1vamos em col\u00e9gios privados, com a merenda ou dinheiro contado para a cantina, l\u00e1 \u00edamos n\u00f3s a p\u00e9. \u00c9 bem verdade que a dist\u00e2ncia era pequena e a cidade n\u00e3o oferecia o menor perigo. No final de cada ano, os livros encapados e as fardas passavam para os mais novos. N\u00e3o se ouvia falar em mesada, em pr\u00eamio por ter cumprido a obriga\u00e7\u00e3o de ser aprovado, e nem viagens \u00e0 Disney. S\u00f3 existiam esportes, poucas r\u00e1dios para ouvir emissora de TV em preto e branco, ficando a televis\u00e3o na sala, dividindo com o piano surrado, os lugares de honra.<br \/>\nBrigava-se muito, a tapas e socos. N\u00e3o ficava m\u00e1goa. A rixa se exauria no banho que a m\u00e3e mandava os filhos tomarem ap\u00f3s as refregas. Havia o ter\u00e7o, a missa aos domingos, as primeiras sextas-feiras e as prociss\u00f5es. Quando o dinheiro dava \u2013 e sempre dava &#8211; ia-se ao cinema e ningu\u00e9m reclamava do calor, entretido nos filmes e nos seriados.<br \/>\nQuando um dos irm\u00e3os brigava na rua l\u00e1 se iam os outros tomar satisfa\u00e7\u00f5es e dar &#8211; ou levar &#8211; surra do desafeto. Sem essa de psic\u00f3logo ou analista, nada disso. Tomava-se pouco rem\u00e9dio. Uma ou duas vezes por ano, um rem\u00e9dio para vermes. De quando em quando, um Calciogenol irradiado, Emuls\u00e3o de Scott, Biot\u00f4nico Fontoura, Phimatosan, Melhoral e muita abacatada, bananada ou \u201cvitamina\u201d, que era uma esp\u00e9cie de salada de frutas batida no liquidificador.<br \/>\nCada casa tinha uma bicicleta que ia passando de m\u00e3o em m\u00e3o ou de p\u00e9 em p\u00e9. Estudava-se ingl\u00eas, aprendia-se datilografia e jiu-jitsu e as meninas tinham aulas de piano. Quem era mais interessado em livros ia \u00e0 biblioteca p\u00fablica fazer pesquisas ou pedir empr\u00e9stimos para entrega em 15 dias. Fazia-se uma ficha e nos entregavam os livros que os col\u00e9gios nos obrigavam a ler e resumir. Ou se lia por prazer.<br \/>\nEstas recorda\u00e7\u00f5es, pessoais e desinteressantes, vieram a prop\u00f3sito do filme que vi em v\u00eddeo \u201cF\u00e9rias em fam\u00edlia\u201d, de Jodie Foster, em que se mostra a rela\u00e7\u00e3o neurotizante de uma fam\u00edlia americana que, quase obrigada, se re\u00fane para o feriado do dia de A\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as, a data em que todos se re\u00fanem por l\u00e1, mais do que no Natal. De tudo, fica uma li\u00e7\u00e3o e a certeza de que irm\u00e3os, mesmo que espalhados pelo mundo, diferentes, vivendo outras culturas e distantes, s\u00e3o necess\u00e1rios e indispens\u00e1veis e, ao rev\u00ea-los, a gente se d\u00e1 conta de que a fam\u00edlia ainda \u00e9 base de todos os princ\u00edpios, mas sem essa dos moralismos caretas da \u00e9poca.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19\/01\/2007.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3478","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3478","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3478"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3478\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3478"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3478"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3478"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}