{"id":3480,"date":"2023-12-21T09:10:46","date_gmt":"2023-12-21T12:10:46","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/calotes-antigos-e-novos-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:46","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:46","slug":"calotes-antigos-e-novos-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/calotes-antigos-e-novos-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"CALOTES ANTIGOS E NOVOS &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns anos, quando ainda me impressionava com nomes, sobrenomes e locais de nascimento, fui apresentado a pessoas da melhor estirpe, excelente educa\u00e7\u00e3o e que desejavam investir em nossa terra. Convocado para uma reuni\u00e3o com eles, tomei o avi\u00e3o e fui a um clube elegante do sul para um primeiro contato. Local refinado, pessoas bem vestidas, bebidas honestas e papo excelente, entremeado de cita\u00e7\u00f5es a grandes amigos influentes, cursos no exterior, fins de semana memor\u00e1veis e, de passagem, algumas frases em ingl\u00eas e franc\u00eas. Final da reuni\u00e3o: muitas ideias, neg\u00f3cios em perspectiva e nada de ningu\u00e9m se lembrar de pagar a conta. Tive que pag\u00e1-la.<br \/>\nCerto de que havia feito bons contatos, aguardei a visita. Vieram em voo econ\u00f4mico, com a pose e quem estava chegando de jatinho. Hospedei-os em um bom hotel e, ap\u00f3s lagostas e praias, sentamos para discutir neg\u00f3cios. S\u00f3 se falava em milh\u00f5es de d\u00f3lares e no lucro que viria ap\u00f3s a obten\u00e7\u00e3o do financiamento, j\u00e1 que o grupo local entraria com o capital inicial para aquisi\u00e7\u00e3o do terreno, projeto, viagens de t\u00e9cnicos e \u201calguns contatos importantes\u201d. Eles, os ricos convidados, entrariam com o \u201cknow how\u201d. Ouvi tudo, anotei, paguei a conta do hotel, levei-os ao aeroporto e nunca mais dei resposta.<br \/>\nTudo isso veio \u00e0 mente por me lembrar de velhas e atuais hist\u00f3rias de calote. Por exemplo, lembro bem da insolv\u00eancia da empresa Gurgel Motores. Nessa brincadeira, o Banco do Estado do Cear\u00e1 entrou com 3 milh\u00f5es de d\u00f3lares pelo aval concedido perante o Banco do Nordeste. O Cear\u00e1 passaria ao Primeiro Mundo com uma f\u00e1brica de autom\u00f3veis e, nada mais justo que avalizar a opera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o acredito que o BNB e o BEC, por seus t\u00e9cnicos, tenham assegurado ent\u00e3o que o projeto teria \u00eaxito. S\u00f3 um cego n\u00e3o via que os autom\u00f3veis da Gurgel eram mais atrasados que os antigos \u201cLadas\u201d russos e sua tecnologia ficava muito atr\u00e1s das antigas montadoras de \u201cBuggies\u201d locais que, juntando fibra de vidro e componentes Volkswagen, conseguiam \u00f3timos resultados. O que houve ent\u00e3o? Deslumbramento, desonestidade ou a incapacidade de distinguir os que v\u00eam para c\u00e1 para investir e trabalhar dos que v\u00eam para se arrumar. Ser\u00e1 que leram balan\u00e7os, pediram informa\u00e7\u00f5es e ouviram a Serasa? Eu sei o que \u00e9 n\u00e3o olhar cadastro e saber a fundo da hist\u00f3ria pessoal e empresarial de caloteiro. Sempre cordial, falso como uma nota de 15 reais e pomposo como os n\u00e9scios costumam ser.<br \/>\nTr\u00eas milh\u00f5es de d\u00f3lares \u00e9 dinheiro, por exemplo, suficiente para fazer uma por\u00e7\u00e3o de micro e pequenas empresas sa\u00edrem de suas crises de capital de giro. Imaginem, por exemplo, esse dinheiro financiando lojistas e fabricantes da Av. Mons. Tabosa ou aos microindustriais do Montese. Seriam centenas de empregos, gente feliz, trabalhando dia e noite para pagar os empr\u00e9stimos e n\u00e3o sujar o nome. Seriam fam\u00edlias inteiras procurando economizar e reformar galp\u00f5es feitos de forma improvisada nos quintais de suas casas. Mas essa gente, na maioria, n\u00e3o tem acesso livre a bancos, n\u00e3o frequenta reuni\u00f5es elegantes, n\u00e3o tem cadastro e suas m\u00e3os calosas n\u00e3o t\u00eam classe para segurar uma caneta \u201cMont Blanc\u201d e assinar, sorrindo, uma promiss\u00f3ria de milh\u00f5es de d\u00f3lares que, antecipadamente, j\u00e1 sabem que n\u00e3o ir\u00e3o pagar.<br \/>\nFica mais uma li\u00e7\u00e3o, para os que ainda se deslumbram com os caloteiros da terra, que v\u00e3o sendo conhecidos por todos, apesar de usarem laranjas, e com visitantes-caloteiros, tidos como ilustres, recebidos com pompa e circunst\u00e2ncia e apresentado por lobistas empresariais. O amadurecimento de um Estado passa pela isen\u00e7\u00e3o com que todos devem ser recebidos, analisados, independente do nome, da pose ou da propaganda enganosa que fazem. Estado pobre, recursos limitados, car\u00eancias mis, nada melhor que um pouco de cautela dos que dirigem as institui\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito oficiais na hora de financiamentos. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26\/01\/2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns anos, quando ainda me impressionava com nomes, sobrenomes e locais de nascimento, fui apresentado a pessoas da melhor estirpe, excelente educa\u00e7\u00e3o e que desejavam investir em nossa terra. Convocado para uma reuni\u00e3o com eles, tomei o avi\u00e3o e fui a um clube elegante do sul para um primeiro contato. Local refinado, pessoas bem vestidas, bebidas honestas e papo excelente, entremeado de cita\u00e7\u00f5es a grandes amigos influentes, cursos no exterior, fins de semana memor\u00e1veis e, de passagem, algumas frases em ingl\u00eas e franc\u00eas. Final da reuni\u00e3o: muitas ideias, neg\u00f3cios em perspectiva e nada de ningu\u00e9m se lembrar de pagar a conta. Tive que pag\u00e1-la.<br \/>\nCerto de que havia feito bons contatos, aguardei a visita. Vieram em voo econ\u00f4mico, com a pose e quem estava chegando de jatinho. Hospedei-os em um bom hotel e, ap\u00f3s lagostas e praias, sentamos para discutir neg\u00f3cios. S\u00f3 se falava em milh\u00f5es de d\u00f3lares e no lucro que viria ap\u00f3s a obten\u00e7\u00e3o do financiamento, j\u00e1 que o grupo local entraria com o capital inicial para aquisi\u00e7\u00e3o do terreno, projeto, viagens de t\u00e9cnicos e \u201calguns contatos importantes\u201d. Eles, os ricos convidados, entrariam com o \u201cknow how\u201d. Ouvi tudo, anotei, paguei a conta do hotel, levei-os ao aeroporto e nunca mais dei resposta.<br \/>\nTudo isso veio \u00e0 mente por me lembrar de velhas e atuais hist\u00f3rias de calote. Por exemplo, lembro bem da insolv\u00eancia da empresa Gurgel Motores. Nessa brincadeira, o Banco do Estado do Cear\u00e1 entrou com 3 milh\u00f5es de d\u00f3lares pelo aval concedido perante o Banco do Nordeste. O Cear\u00e1 passaria ao Primeiro Mundo com uma f\u00e1brica de autom\u00f3veis e, nada mais justo que avalizar a opera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o acredito que o BNB e o BEC, por seus t\u00e9cnicos, tenham assegurado ent\u00e3o que o projeto teria \u00eaxito. S\u00f3 um cego n\u00e3o via que os autom\u00f3veis da Gurgel eram mais atrasados que os antigos \u201cLadas\u201d russos e sua tecnologia ficava muito atr\u00e1s das antigas montadoras de \u201cBuggies\u201d locais que, juntando fibra de vidro e componentes Volkswagen, conseguiam \u00f3timos resultados. O que houve ent\u00e3o? Deslumbramento, desonestidade ou a incapacidade de distinguir os que v\u00eam para c\u00e1 para investir e trabalhar dos que v\u00eam para se arrumar. Ser\u00e1 que leram balan\u00e7os, pediram informa\u00e7\u00f5es e ouviram a Serasa? Eu sei o que \u00e9 n\u00e3o olhar cadastro e saber a fundo da hist\u00f3ria pessoal e empresarial de caloteiro. Sempre cordial, falso como uma nota de 15 reais e pomposo como os n\u00e9scios costumam ser.<br \/>\nTr\u00eas milh\u00f5es de d\u00f3lares \u00e9 dinheiro, por exemplo, suficiente para fazer uma por\u00e7\u00e3o de micro e pequenas empresas sa\u00edrem de suas crises de capital de giro. Imaginem, por exemplo, esse dinheiro financiando lojistas e fabricantes da Av. Mons. Tabosa ou aos microindustriais do Montese. Seriam centenas de empregos, gente feliz, trabalhando dia e noite para pagar os empr\u00e9stimos e n\u00e3o sujar o nome. Seriam fam\u00edlias inteiras procurando economizar e reformar galp\u00f5es feitos de forma improvisada nos quintais de suas casas. Mas essa gente, na maioria, n\u00e3o tem acesso livre a bancos, n\u00e3o frequenta reuni\u00f5es elegantes, n\u00e3o tem cadastro e suas m\u00e3os calosas n\u00e3o t\u00eam classe para segurar uma caneta \u201cMont Blanc\u201d e assinar, sorrindo, uma promiss\u00f3ria de milh\u00f5es de d\u00f3lares que, antecipadamente, j\u00e1 sabem que n\u00e3o ir\u00e3o pagar.<br \/>\nFica mais uma li\u00e7\u00e3o, para os que ainda se deslumbram com os caloteiros da terra, que v\u00e3o sendo conhecidos por todos, apesar de usarem laranjas, e com visitantes-caloteiros, tidos como ilustres, recebidos com pompa e circunst\u00e2ncia e apresentado por lobistas empresariais. O amadurecimento de um Estado passa pela isen\u00e7\u00e3o com que todos devem ser recebidos, analisados, independente do nome, da pose ou da propaganda enganosa que fazem. Estado pobre, recursos limitados, car\u00eancias mis, nada melhor que um pouco de cautela dos que dirigem as institui\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito oficiais na hora de financiamentos. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26\/01\/2007.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3480","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3480","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3480"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3480\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3480"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3480"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3480"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}