{"id":3482,"date":"2023-12-21T09:10:46","date_gmt":"2023-12-21T12:10:46","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/mexico-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:46","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:46","slug":"mexico-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/mexico-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"M\u00c9XICO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Na reuni\u00e3o havida na semana passada, em Davos, na Su\u00ed\u00e7a, os jornalistas quiseram confrontar os presidentes Lula, do Brasil, e Felipe Calder\u00f3n, do M\u00e9xico, por terem discordado de aspectos pol\u00edtico-institucionais de alguns pa\u00edses latinos americanos. Ambos os presidentes riram da tentativa e trocaram forte abra\u00e7o, como a dizer: somos diferentes, mas somos irm\u00e3os. Isso \u00e9 verdade, acreditem.<br \/>\nO M\u00e9xico tem, entre tantas coisas, terremotos, pir\u00e2mides e uma rica tradi\u00e7\u00e3o pr\u00e9-colombiana, gra\u00e7as aos aztecas e \u00e0 sua cultura. O Brasil n\u00e3o tem nada disso. Se voc\u00ea for fazer um estudo comparativo entre a geografia e as culturas mexicana e brasileira n\u00e3o vai encontrar muita semelhan\u00e7a. Se for comparar o bi\u00f3tipo do mexicano com o do brasileiro n\u00e3o identificar\u00e1 muitos tra\u00e7os de uma ra\u00e7a comum. Apesar disso, na ess\u00eancia, somos muito parecidos, embora n\u00e3o usemos \u201csombreros\u201d, n\u00e3o comamos muita pimenta, tampouco falemos espanhol e n\u00e3o tenhamos nada da tradi\u00e7\u00e3o azteca. Isso \u00e9 o estere\u00f3tipo ou vis\u00e3o aligeirada do povo mexicano que poucos brasileiros conhecem. O M\u00e9xico e o mexicano s\u00e3o muito, muito mais que isso.<br \/>\nO que nos une, de uma forma clara e inquestion\u00e1vel, \u00e9 o que se convencionou chamar de \u201clatinidad\u201d, no dizer de Carlos Fuentes. Essa latinidade \u00e9 esse nosso jeito n\u00e3o anglo-sax\u00e3o, n\u00e3o germ\u00e2nico, n\u00e3o helv\u00e9tico ou escandinavo de ver e procurar entender o mundo e as pessoas. Um mexicano e um brasileiro, ap\u00f3s pouca conversa, t\u00eam hist\u00f3rias e sentimentos em comum. Com outros povos n\u00e3o latinos n\u00e3o h\u00e1 essa identidade, por mais que se tente. N\u00e3o falo da identidade latina estereotipada e propalada em filmes feitos por n\u00f3s mesmos, que s\u00f3 retratam o que temos de mais atrasado como O Beco dos Milagres (mexicano, 1994), Guantanamera (cubano, 1995), e o nosso Central do Brasil, (brasileiro, 1997), que teimam em real\u00e7ar as est\u00e9ticas das nossas desgra\u00e7as e mazelas. N\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o de colocar a nossa vida real embaixo do tapete, mas ser\u00e1 que s\u00f3 temos mis\u00e9rias e trag\u00e9dias para contar e mostrar?<br \/>\nA latinidade a que me refiro n\u00e3o \u00e9 essa vis\u00e3o cruel, embora real, mas a certeza de que temos sa\u00edda e estamos em meio a um processo novo de imensa transforma\u00e7\u00e3o em que todos os povos s\u00e3o obrigados a interagir e colaborar. Pois foi essa identidade ou latinidade atual que me fez ir gostando do M\u00e9xico e dos mexicanos, sem que isso me fosse imposto ou houvesse qualquer ideia preconcebida.<br \/>\nPouco a pouco, fui conhecendo mexicanos de todas as classes sociais: estudantes, professores, profissionais liberais, diplomatas, religiosos, intelectuais, artistas e a cada dia via-me impressionado com a cultura n\u00e3o ostentant\u00f3ria de cada um. N\u00e3o era cultura de fachada. Era gente de modo simples que falava duas, tr\u00eas ou quatro l\u00ednguas, entendia de arte, m\u00fasica, literatura, cinema, gastronomia e sabia se situar no mundo como cidad\u00e3os de excelente n\u00edvel. Conto um epis\u00f3dio de solidariedade espont\u00e2nea: acompanhei quando um jovem brasileiro que l\u00e1 estudava teve um grave acidente e foi prontamente acolhido e cuidado com carinho e aten\u00e7\u00e3o. O M\u00e9xico \u00e9 assim, as pessoas t\u00eam cora\u00e7\u00e3o e atitude. N\u00f3s, tamb\u00e9m.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02\/02\/2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na reuni\u00e3o havida na semana passada, em Davos, na Su\u00ed\u00e7a, os jornalistas quiseram confrontar os presidentes Lula, do Brasil, e Felipe Calder\u00f3n, do M\u00e9xico, por terem discordado de aspectos pol\u00edtico-institucionais de alguns pa\u00edses latinos americanos. Ambos os presidentes riram da tentativa e trocaram forte abra\u00e7o, como a dizer: somos diferentes, mas somos irm\u00e3os. Isso \u00e9 verdade, acreditem.<br \/>\nO M\u00e9xico tem, entre tantas coisas, terremotos, pir\u00e2mides e uma rica tradi\u00e7\u00e3o pr\u00e9-colombiana, gra\u00e7as aos aztecas e \u00e0 sua cultura. O Brasil n\u00e3o tem nada disso. Se voc\u00ea for fazer um estudo comparativo entre a geografia e as culturas mexicana e brasileira n\u00e3o vai encontrar muita semelhan\u00e7a. Se for comparar o bi\u00f3tipo do mexicano com o do brasileiro n\u00e3o identificar\u00e1 muitos tra\u00e7os de uma ra\u00e7a comum. Apesar disso, na ess\u00eancia, somos muito parecidos, embora n\u00e3o usemos \u201csombreros\u201d, n\u00e3o comamos muita pimenta, tampouco falemos espanhol e n\u00e3o tenhamos nada da tradi\u00e7\u00e3o azteca. Isso \u00e9 o estere\u00f3tipo ou vis\u00e3o aligeirada do povo mexicano que poucos brasileiros conhecem. O M\u00e9xico e o mexicano s\u00e3o muito, muito mais que isso.<br \/>\nO que nos une, de uma forma clara e inquestion\u00e1vel, \u00e9 o que se convencionou chamar de \u201clatinidad\u201d, no dizer de Carlos Fuentes. Essa latinidade \u00e9 esse nosso jeito n\u00e3o anglo-sax\u00e3o, n\u00e3o germ\u00e2nico, n\u00e3o helv\u00e9tico ou escandinavo de ver e procurar entender o mundo e as pessoas. Um mexicano e um brasileiro, ap\u00f3s pouca conversa, t\u00eam hist\u00f3rias e sentimentos em comum. Com outros povos n\u00e3o latinos n\u00e3o h\u00e1 essa identidade, por mais que se tente. N\u00e3o falo da identidade latina estereotipada e propalada em filmes feitos por n\u00f3s mesmos, que s\u00f3 retratam o que temos de mais atrasado como O Beco dos Milagres (mexicano, 1994), Guantanamera (cubano, 1995), e o nosso Central do Brasil, (brasileiro, 1997), que teimam em real\u00e7ar as est\u00e9ticas das nossas desgra\u00e7as e mazelas. N\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o de colocar a nossa vida real embaixo do tapete, mas ser\u00e1 que s\u00f3 temos mis\u00e9rias e trag\u00e9dias para contar e mostrar?<br \/>\nA latinidade a que me refiro n\u00e3o \u00e9 essa vis\u00e3o cruel, embora real, mas a certeza de que temos sa\u00edda e estamos em meio a um processo novo de imensa transforma\u00e7\u00e3o em que todos os povos s\u00e3o obrigados a interagir e colaborar. Pois foi essa identidade ou latinidade atual que me fez ir gostando do M\u00e9xico e dos mexicanos, sem que isso me fosse imposto ou houvesse qualquer ideia preconcebida.<br \/>\nPouco a pouco, fui conhecendo mexicanos de todas as classes sociais: estudantes, professores, profissionais liberais, diplomatas, religiosos, intelectuais, artistas e a cada dia via-me impressionado com a cultura n\u00e3o ostentant\u00f3ria de cada um. N\u00e3o era cultura de fachada. Era gente de modo simples que falava duas, tr\u00eas ou quatro l\u00ednguas, entendia de arte, m\u00fasica, literatura, cinema, gastronomia e sabia se situar no mundo como cidad\u00e3os de excelente n\u00edvel. Conto um epis\u00f3dio de solidariedade espont\u00e2nea: acompanhei quando um jovem brasileiro que l\u00e1 estudava teve um grave acidente e foi prontamente acolhido e cuidado com carinho e aten\u00e7\u00e3o. O M\u00e9xico \u00e9 assim, as pessoas t\u00eam cora\u00e7\u00e3o e atitude. N\u00f3s, tamb\u00e9m.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02\/02\/2007.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3482","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3482","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3482"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3482\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3482"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3482"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3482"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}