{"id":3488,"date":"2023-12-21T09:10:46","date_gmt":"2023-12-21T12:10:46","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/quem-e-normal\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:46","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:46","slug":"quem-e-normal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/quem-e-normal\/","title":{"rendered":"QUEM \u00c9 NORMAL?"},"content":{"rendered":"<p>De repente surge uma fissura grave na coura\u00e7a dos psic\u00f3logos, psiquiatras e psicanalistas. As sess\u00f5es com os pacientes n\u00e3o chegariam a lugar nenhum, dizem alguns. Os problemas e dist\u00farbios de comportamentos hoje s\u00e3o resolvidos com drogas, afirmam outros. Entretanto, na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o de Veja, de 14.03.07, o psiquiatra americano Peter Kramer, diz que: \u201ctodos os rem\u00e9dios da classe dos inibidores de recapta\u00e7\u00e3o de serotonina, da qual o Prozac faz parte, s\u00e3o, em minha opini\u00e3o, antidepressivos med\u00edocres.\u201d Da\u00ed, por exemplo, tanta controv\u00e9rsia sobre o Prozac e seus sucessores que deixaram milhares de div\u00e3s sem pacientes. Agora, os tric\u00edclicos voltam para valer. Com quem a verdade ou a certeza?<br \/>\nSer\u00e1 por tal fato que na classe m\u00e9dica h\u00e1 gracejo antigo? Ele diz, mais ou menos, o seguinte: O cl\u00ednico geral sabe tudo e n\u00e3o faz nada, o cirurgi\u00e3o n\u00e3o sabe nada e faz tudo e o psiquiatra nem sabe nada e nem faz nada. Mera piada, \u00e9 claro.<br \/>\nTalvez por n\u00e3o terem obtido sucesso em suas visitas a psiquiatras, psicanalistas e psic\u00f3logos \u00e9 que tantas pessoas apelam para o consumo continuado de calmantes, antidepressivos e estimulantes de todas as naturezas, dosagens e composi\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas. Todas t\u00eam um m\u00e9dico amigo que as prescreve. As pessoas tomam rem\u00e9dios para aguentar o roj\u00e3o da vida e se acreditarem normais. Mas o que \u00e9 ser normal? Quais os referenciais que demonstram o desvio entre o certo e o errado? Ser\u00e1 anormal quem n\u00e3o dorme bem, dorme pouco ou demasiado? Ou a anormalidade parte de quem observa? Ser\u00e1 normal a pessoa comum, cotidiana que se compraz para acabar com o mofo de sua vida, em fazer cartas an\u00f4nimas ou espalhar boatos falsos?<br \/>\nA prop\u00f3sito, nos Estados Unidos, o pa\u00eds onde mais se consome rem\u00e9dios para depress\u00e3o, ins\u00f4nia, neurose etc. foi editado -pela St. Martin Press &#8211; o livro \u201cVoc\u00ea \u00e9 normal?\u201d (Are you normal?), escrito por Bernice Kanner. Por apenas US$ 6,99, o pre\u00e7o de uma refei\u00e7\u00e3o ligeira, voc\u00ea saber\u00e1 que existe muito mais gente \u201canormal\u201d do que imagina. As pessoas entrevistadas, segundo Bernice Kanner, tinham o compromisso de n\u00e3o mentir e revelar, sob a seguran\u00e7a do anonimato, coisas que n\u00e3o diriam nem para o pai, a m\u00e3e, o marido ou a mulher.<br \/>\nAs preciosidades colhidas por Bernice nos Estados Unidos mostram a vulnerabilidade, a aus\u00eancia de altru\u00edsmo e outras falhas do car\u00e1ter dos comuns mortais. Vamos l\u00e1: uma em cada quatro pessoas faria qualquer coisa por US$ 10 milh\u00f5es; uma em cada dez pessoas compra um artigo, usa uma vez e o devolve; 3,9% das mulheres n\u00e3o usam calcinhas; 7,0% das pessoas utilizam o pr\u00f3prio cabelo como fio dental; 10% trocam etiquetas de pre\u00e7os de lojas para pagar menos; 10% admitem j\u00e1 ter visto fantasma; 23,5% n\u00e3o d\u00e3o descarga quando v\u00e3o ao banheiro; 25,0% furam filas; 28% admitem fazer xixi na piscina; 28% deixaram de declarar imposto de renda alguma vez; 29% j\u00e1 furtaram em lojas; 39% fofocam em salas de espera;54% reembrulham presentes recebidos e d\u00e3o para outras pessoas; 58% j\u00e1 inventaram doen\u00e7a para n\u00e3o ir trabalhar; 60% dos homens cospem em p\u00fablico.<br \/>\nIsto tudo nos faz lembrar uma frase de Mill\u00f4r Fernandes: \u201cComo s\u00e3o maravilhosas as pessoas que n\u00e3o conhecemos bem\u201d ou aquela outra de Bertold Brecht: \u201cUm bom pa\u00eds para viver \u00e9 aquele em que as virtudes n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rias e no qual todos podem ser pessoas comuns, medianas e at\u00e9 mesmo um pouco covardes.\u201d<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 23\/03\/2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De repente surge uma fissura grave na coura\u00e7a dos psic\u00f3logos, psiquiatras e psicanalistas. As sess\u00f5es com os pacientes n\u00e3o chegariam a lugar nenhum, dizem alguns. Os problemas e dist\u00farbios de comportamentos hoje s\u00e3o resolvidos com drogas, afirmam outros. Entretanto, na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o de Veja, de 14.03.07, o psiquiatra americano Peter Kramer, diz que: \u201ctodos os rem\u00e9dios da classe dos inibidores de recapta\u00e7\u00e3o de serotonina, da qual o Prozac faz parte, s\u00e3o, em minha opini\u00e3o, antidepressivos med\u00edocres.\u201d Da\u00ed, por exemplo, tanta controv\u00e9rsia sobre o Prozac e seus sucessores que deixaram milhares de div\u00e3s sem pacientes. Agora, os tric\u00edclicos voltam para valer. Com quem a verdade ou a certeza?<br \/>\nSer\u00e1 por tal fato que na classe m\u00e9dica h\u00e1 gracejo antigo? Ele diz, mais ou menos, o seguinte: O cl\u00ednico geral sabe tudo e n\u00e3o faz nada, o cirurgi\u00e3o n\u00e3o sabe nada e faz tudo e o psiquiatra nem sabe nada e nem faz nada. Mera piada, \u00e9 claro.<br \/>\nTalvez por n\u00e3o terem obtido sucesso em suas visitas a psiquiatras, psicanalistas e psic\u00f3logos \u00e9 que tantas pessoas apelam para o consumo continuado de calmantes, antidepressivos e estimulantes de todas as naturezas, dosagens e composi\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas. Todas t\u00eam um m\u00e9dico amigo que as prescreve. As pessoas tomam rem\u00e9dios para aguentar o roj\u00e3o da vida e se acreditarem normais. Mas o que \u00e9 ser normal? Quais os referenciais que demonstram o desvio entre o certo e o errado? Ser\u00e1 anormal quem n\u00e3o dorme bem, dorme pouco ou demasiado? Ou a anormalidade parte de quem observa? Ser\u00e1 normal a pessoa comum, cotidiana que se compraz para acabar com o mofo de sua vida, em fazer cartas an\u00f4nimas ou espalhar boatos falsos?<br \/>\nA prop\u00f3sito, nos Estados Unidos, o pa\u00eds onde mais se consome rem\u00e9dios para depress\u00e3o, ins\u00f4nia, neurose etc. foi editado -pela St. Martin Press &#8211; o livro \u201cVoc\u00ea \u00e9 normal?\u201d (Are you normal?), escrito por Bernice Kanner. Por apenas US$ 6,99, o pre\u00e7o de uma refei\u00e7\u00e3o ligeira, voc\u00ea saber\u00e1 que existe muito mais gente \u201canormal\u201d do que imagina. As pessoas entrevistadas, segundo Bernice Kanner, tinham o compromisso de n\u00e3o mentir e revelar, sob a seguran\u00e7a do anonimato, coisas que n\u00e3o diriam nem para o pai, a m\u00e3e, o marido ou a mulher.<br \/>\nAs preciosidades colhidas por Bernice nos Estados Unidos mostram a vulnerabilidade, a aus\u00eancia de altru\u00edsmo e outras falhas do car\u00e1ter dos comuns mortais. Vamos l\u00e1: uma em cada quatro pessoas faria qualquer coisa por US$ 10 milh\u00f5es; uma em cada dez pessoas compra um artigo, usa uma vez e o devolve; 3,9% das mulheres n\u00e3o usam calcinhas; 7,0% das pessoas utilizam o pr\u00f3prio cabelo como fio dental; 10% trocam etiquetas de pre\u00e7os de lojas para pagar menos; 10% admitem j\u00e1 ter visto fantasma; 23,5% n\u00e3o d\u00e3o descarga quando v\u00e3o ao banheiro; 25,0% furam filas; 28% admitem fazer xixi na piscina; 28% deixaram de declarar imposto de renda alguma vez; 29% j\u00e1 furtaram em lojas; 39% fofocam em salas de espera;54% reembrulham presentes recebidos e d\u00e3o para outras pessoas; 58% j\u00e1 inventaram doen\u00e7a para n\u00e3o ir trabalhar; 60% dos homens cospem em p\u00fablico.<br \/>\nIsto tudo nos faz lembrar uma frase de Mill\u00f4r Fernandes: \u201cComo s\u00e3o maravilhosas as pessoas que n\u00e3o conhecemos bem\u201d ou aquela outra de Bertold Brecht: \u201cUm bom pa\u00eds para viver \u00e9 aquele em que as virtudes n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rias e no qual todos podem ser pessoas comuns, medianas e at\u00e9 mesmo um pouco covardes.\u201d<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 23\/03\/2007.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3488","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3488","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3488"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3488\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3488"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3488"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3488"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}