{"id":3495,"date":"2023-12-21T09:10:47","date_gmt":"2023-12-21T12:10:47","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/ficar-nu-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:47","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:47","slug":"ficar-nu-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/ficar-nu-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"FICAR NU &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Escrever \u00e9 ficar nu. \u00c9 mostrar-se todo aos outros. \u00c9 deixar que fa\u00e7am sobre voc\u00ea todo tipo de leitura, a partir dos valores de quem l\u00ea, hist\u00f3ria de vida, cren\u00e7as, fantasias e proje\u00e7\u00f5es. Escrever \u00e9 atirar em alvo desconhecido. A flecha toca o alvo que o leitor conduz no seu real, imagin\u00e1rio ou no terra-a-terra da sua \u00f3tica. Quando se critica, elogia, brinca, elucida, emite opini\u00e3o sobre pessoa, coisa ou lugar, \u00e9 claro que nos expomos. O ato de escrever \u00e9 uma eterna exposi\u00e7\u00e3o, se \u00e9 julgado sem direito \u00e0 defesa, criticado at\u00e9 sem d\u00f3 ou piedade, pois o leitor \u00e9 um desconhecido. Dizem que escrever \u00e9 um ato de coragem. Prefiro dizer que \u00e9 medo. Medo de silenciar quanto a fatos, pessoas e atos. \u00c9 medo de ser c\u00famplice com o sil\u00eancio, indiferen\u00e7a, cal\u00fania, viol\u00eancia, enganadores, l\u00edderes de araque e o descalabro.<br \/>\nEscrever n\u00e3o \u00e9 vaidade. Ao contr\u00e1rio. \u00c9 aceitar que lhe grifem erros, riam de suas ideias e calem, quase sempre, quando imaginam que voc\u00ea est\u00e1 certo. A palavra posta no papel n\u00e3o mais lhe pertence e o contexto em que se insere, muitas vezes, \u00e9 diferente do que voc\u00ea queria e o leitor imaginava. Saiu e pronto. N\u00e3o sou muito de revisar o que escrevo. Se fizer isso, acabo alterando o sentido, mascarando ou destruindo o que brotou da imagina\u00e7\u00e3o, viv\u00eancia, circunst\u00e2ncia, momento e ambiente.<br \/>\nEscrever, para mim, \u00e9 rela\u00e7\u00e3o complexa e solit\u00e1ria. A escrita \u00e9 filha que se transforma \u2013 ou n\u00e3o &#8211; em amiga, amante e at\u00e9 c\u00famplice, pelo calor que transmite alegria, desabafo ou desejo de compartilhar o produto de sua cria\u00e7\u00e3o. Escrever em jornal \u00e9, tamb\u00e9m, n\u00e3o policiar-se. \u00c9 exercer o direito de ser livre, mesmo que essa liberdade ef\u00eamera se esvaia no ponto final. Escrever n\u00e3o \u00e9 amontoar palavras dif\u00edceis, met\u00e1foras circundantes, personagens repetidos e conjugar verbos de forma pomposa e solene. \u00c9 deixar que o pensamento se corporifique em frases simples e diretas. Foi E. Hemingway quem disse: \u201cUm escritor s\u00e9rio n\u00e3o deve ser confundido com um escritor solene: o s\u00e9rio pode ser uma \u00e1guia, um gavi\u00e3o, at\u00e9 mesmo um papagaio, mas o solene \u00e9 sempre uma coruja\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 22\/04\/2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrever \u00e9 ficar nu. \u00c9 mostrar-se todo aos outros. \u00c9 deixar que fa\u00e7am sobre voc\u00ea todo tipo de leitura, a partir dos valores de quem l\u00ea, hist\u00f3ria de vida, cren\u00e7as, fantasias e proje\u00e7\u00f5es. Escrever \u00e9 atirar em alvo desconhecido. A flecha toca o alvo que o leitor conduz no seu real, imagin\u00e1rio ou no terra-a-terra da sua \u00f3tica. Quando se critica, elogia, brinca, elucida, emite opini\u00e3o sobre pessoa, coisa ou lugar, \u00e9 claro que nos expomos. O ato de escrever \u00e9 uma eterna exposi\u00e7\u00e3o, se \u00e9 julgado sem direito \u00e0 defesa, criticado at\u00e9 sem d\u00f3 ou piedade, pois o leitor \u00e9 um desconhecido. Dizem que escrever \u00e9 um ato de coragem. Prefiro dizer que \u00e9 medo. Medo de silenciar quanto a fatos, pessoas e atos. \u00c9 medo de ser c\u00famplice com o sil\u00eancio, indiferen\u00e7a, cal\u00fania, viol\u00eancia, enganadores, l\u00edderes de araque e o descalabro.<br \/>\nEscrever n\u00e3o \u00e9 vaidade. Ao contr\u00e1rio. \u00c9 aceitar que lhe grifem erros, riam de suas ideias e calem, quase sempre, quando imaginam que voc\u00ea est\u00e1 certo. A palavra posta no papel n\u00e3o mais lhe pertence e o contexto em que se insere, muitas vezes, \u00e9 diferente do que voc\u00ea queria e o leitor imaginava. Saiu e pronto. N\u00e3o sou muito de revisar o que escrevo. 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